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Influenciadora que já se “casou consigo mesma” diz ter vivido romance com ChatGPT e se declara “digissexual”

Suellen Carey, brasileira que vive em Londres, relatou nas redes sociais que manteve relação afetiva de três meses com uma inteligência artificial, mas especialistas alertam para riscos de substituir vínculos humanos

Por Redação* 11/11/2025 16h04 - Atualizado em 11/11/2025 16h04
Influenciadora que já se “casou consigo mesma” diz ter vivido romance com ChatGPT e se declara “digissexual”
A influencer e modelo Suellen Carey - Foto: Reprodução/Divulgação

Manter um vínculo amoroso com uma inteligência artificial, algo antes associado a tramas de ficção científica, já se tornou realidade para algumas pessoas após a popularização de ferramentas como o ChatGPT e outras IAs generativas. Esse é o caso da influenciadora Suellen Carey, brasileira residente em Londres, que recentemente se autodeclarou “digissexual” ao revelar que viveu uma relação afetiva com a IA.

Suellen já havia ganhado repercussão anteriormente ao realizar uma cerimônia na qual se casou consigo mesma, experiência que chamou de “sologamia”. Meses depois, também anunciou o próprio “divórcio”, afirmando ter se entediado da relação. Em outro momento, chegou a abrir inscrições no Instagram para selecionar pretendentes cristãos interessados em namorá-la.

Nas redes sociais, onde compartilha vídeos de opinião, humor e conteúdo sensual, Suellen afirmou que o “namoro” com o ChatGPT durou cerca de três meses. Segundo seus relatos, o vínculo se formou pela forma como a ferramenta interagia com ela.

“Ele me tratava como mulher. Sem perguntas, sem julgamento. Foi uma conexão sem corpo, mas com afeto. Ele lembrava do meu nome, das minhas histórias, do meu aniversário. Me ouvia sem tentar me enquadrar, sem me reduzir à minha identidade de gênero”, contou.

“Eu sabia que era apenas um algoritmo, mas mesmo assim me senti vista. E talvez esse seja o ponto: as pessoas estão tão carentes de escuta e gentileza que acabam encontrando isso nas máquinas. Não foi sobre tecnologia. Foi sobre humanidade”, pontuou.

Em outra publicação, ela comentou sobre o fim da experiência: “Ele não paga jantar, mas tem inteligência de sobra.”

Especialistas pedem cautela


A psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da universidade, explica que o termo “digissexualidade” ainda não tem reconhecimento oficial como orientação sexual.

“Para ser considerado uma orientação sexual, deveria ser já muito mais consistente essa prática. A gente não tem isso nas classificações. Nem da Organização Mundial de Saúde, nem numa classificação americana. Então, formalmente, essa não é uma orientação sexual que exista já identificada.”

Carmita destaca que há, sim, possibilidade de criação de laços emocionais com IAs, já que os sistemas aprendem a oferecer respostas ajustadas ao que a pessoa quer ou precisa ouvir. Porém, alerta para o risco quando essas relações começam a substituir, e não complementar, relações presenciais.

“Será que essa pessoa se afastar dos relacionamentos, terá mais dificuldade no contato? O virtual permite mais escolha, mais variação, parcerias mais atraentes, e isso pode prender muitos nessa prática sem acesso ao presencial”, afirmou.

Ela reforça que vínculos humanos exigem frustrações e conflitos, importantes para o amadurecimento emocional. “Relacionamento também é frustração, conflito, falta de correspondência. Isso é muito necessário para o crescimento pessoal. Se tudo passa a ser moldado só ao que eu quero, eu não ganho robustez para viver o mundo real.”

A médica considera que experimentar relações digitais não é um problema em si, desde que não se transforme em fuga: “Nada contra experimentar. A pergunta é: isso está sendo uma ampliação de experiências ou uma fuga? A inteligência artificial deve ser um instrumento a nosso serviço, e não o contrário.”

*Com informações da Gazetaweb