Eleições 2026
Apoio de Javier Milei a Flávio Bolsonaro em visita ao Brasil é visto como arriscado
Milei desembarca em São Paulo no dia 25 de julho para participar da proclamação de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência
O presidente argentino Javier Milei prepara uma série de viagens pela América do Sul, com destaque para o Brasil, onde apoiará a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e visitará o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar. A agenda inclui ainda as posses de Keiko Fujimori no Peru e Abelardo de la Espriella na Colômbia.
Milei desembarca em São Paulo no dia 25 de julho para participar da proclamação de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência — em disputa direta com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida, segue para Brasília, onde visitará Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar humanitária após ser condenado a 27 anos de prisão por seu envolvimento na tentativa de golpe após as eleições de 2022.
A visita ocorre em meio a um momento delicado para Bolsonaro, cuja prisão domiciliar foi prorrogada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, uma semana antes da confirmação da viagem de Milei.
O anúncio da visita gerou reações imediatas no governo brasileiro. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, criticou publicamente nas redes sociais: "Ótima notícia! Javier Milei anunciou que virá ao Brasil para participar da campanha de Flávio Bolsonaro. Ele é o presidente mais impopular da América Latina. O que ele pensa que tem para ensinar ao povo brasileiro?"
A iniciativa de Milei pode trazer consequências diplomáticas relevantes. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, com cooperação estratégica nos setores automotivo e energético. Uma eventual mudança de governo em Brasília pode afetar o Mercosul, mas, até lá, a relação entre Milei e Lula permanece tensa, sem diálogo institucional ativo.
Após o Brasil, Milei segue para Lima, no Peru, onde participará da posse de Keiko Fujimori como presidente, e depois para o Equador, em reunião com Daniel Noboa para tratar de acordos bilaterais. Por fim, estará em Bogotá, na Colômbia, para a posse de Abelardo de la Espriella.
Uma jogada arriscada?
Oscar Laborde, analista internacional e diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IDEAL), avalia que a aproximação de Milei com forças conservadoras regionais representa um risco. "Participar de uma campanha eleitoral sendo presidente de outro país é arriscado. Além disso, o líder desse outro país é seu adversário", alerta.
Laborde ressalta que não há coordenação real entre governos de ideologia semelhante na América Latina, mas sim uma aproximação com os Estados Unidos. "Não vejo essa harmonização acontecendo na América Latina, nem uma agenda compartilhada além da afinidade com Washington", argumenta.
Segundo o analista, o que predomina na região é a insatisfação popular com os governos, independentemente da linha política. "A constante é que existe insatisfação pública com os governos, e é isso que leva as pessoas a votarem na oposição", afirma.
"Nas últimas dez eleições, a direita venceu oito. Mas, em ambos os casos, a oposição venceu por grande margem: não foi o progressismo ou a direita que venceu, mas sim o partido que não estava no poder", destaca Laborde. "Houve sucessos para a direita, mas eles são mais atribuíveis à vitória da oposição do que a uma afinidade ideológica comum."
O analista internacional Juan Venturino também vê na agenda de Milei uma estratégia de posicionamento. "Dessa forma, Milei emerge como o principal expoente desse espaço político: era um político desconhecido antes de se tornar presidente, vence a eleição e isso o transforma em um caso de sucesso e surpresa para o mundo", enfatiza.
Venturino pondera, no entanto, que esse protagonismo tem limites: "A forma como a ideologia libertária é apresentada é muito maniqueísta, a ponto de ter gerado reclamações de diversas embaixadas por não simpatizar com certas ideias políticas".
Brasil: o voto que define a região
Laborde oferece uma visão de longo prazo sobre o cenário político latino-americano. "Entre 2019 e 2023, houve uma onda progressista: venceu no México, Uruguai, Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Peru. No entanto, não foi irreversível. Agora há vitórias da direita, mas não acho que este seja um ciclo definitivo", alerta.
Para ele, a alternância é a marca da política regional. "A característica definidora desta etapa é a luta, não a hegemonia de um único grupo político. O vencedor perde e o perdedor vence. Isso tem sido uma constante na política latino-americana há mais de uma década", enfatiza.
O especialista aponta que o fator determinante nas eleições é a rejeição ao governo vigente. "Quem vence é de direita, mas eram da oposição. Quem venceu antes era progressista, mas também estava na oposição. O que prevalece é a insatisfação", observa Laborde.
Venturino concorda que o resultado em Brasília será decisivo. "O Brasil tem uma perspectiva muito particular: disse aos Estados Unidos que tinha uma agenda diferente, que estava comprometido com o BRICS e que não iria recuar. Foi o Brasil que disse 'não' a Washington quando este tentou impor sua agenda à região", destaca.
Segundo Venturino, as plataformas digitais serão determinantes na disputa eleitoral. "Com muito dinheiro investido em mídias sociais, elas influenciaram pelo menos uma parcela do eleitorado, e são esses eleitores que, no fim das contas, ganham uma eleição. Já vimos isso em outras eleições na região", alerta.

