Economia

Postos terão de se eletrificar, mas petróleo ainda pode ser imbatível

A avaliação é do empresário Ibn Pinto e Silva, que atua há mais de três décadas no setor

Por Blog Edivaldo Junior 06/11/2026 07h07
Postos terão de se eletrificar, mas petróleo ainda pode ser imbatível
Edivaldo Junior conversa com Ibn Pinto no Fala, Líder. - Foto: Reprodução Youtube

Os postos de combustíveis terão de investir em carregadores elétricos para acompanhar as mudanças no mercado automotivo e evitar a perda de clientes. A avaliação é do empresário Ibn Pinto e Silva, que atua há mais de três décadas no setor e reconhece ter subestimado a velocidade de crescimento dos veículos elétricos.

Apesar disso, ele acredita que o petróleo ainda poderá manter sua competitividade por muitos anos, especialmente se os grandes produtores reduzirem os preços internacionais.

Em entrevista ao Fala, Líder (veja aqui), apresentado por Edivaldo Júnior na CBN Maceió, Ibn afirmou que a transição energética está obrigando os empresários a rever seus investimentos. O avanço dos carros elétricos já provoca mudanças na estrutura dos postos, que começam a incorporar a recarga de baterias aos serviços tradicionais de abastecimento.

“Eu particularmente digo que errei. Não acreditava que fosse haver um crescimento tão forte”, reconheceu.

O empresário, que possui participação em uma rede de 11 postos distribuídos entre o litoral e o sertão de Alagoas, afirma que a demanda por carregadores já justifica novos investimentos. Três unidades oferecem o serviço e existe um acordo para estender a estrutura às demais até a virada do ano.

Para Ibn, o movimento representa uma adaptação necessária. Os estabelecimentos que não acompanharem as novas tecnologias poderão perder espaço à medida que aumentar a circulação de veículos elétricos.

Petróleo a US$ 20

Apesar de reconhecer o avanço da eletrificação, Ibn considera precipitado apostar no enfraquecimento rápido do petróleo. O empresário lembra que os grandes produtores mundiais trabalham com custos de extração muito inferiores aos preços praticados no mercado internacional.

Ele citou a Saudi Aramco, da Arábia Saudita, como exemplo de companhia que consegue produzir petróleo a custos reduzidos. Segundo Ibn, essa condição permite aos produtores trabalhar com margens elevadas e, eventualmente, reduzir preços para enfrentar a concorrência de outras fontes de energia.

“Não brinque com isso, não. Na hora que eles apertarem e jogarem o petróleo para um patamar muito baixo, ninguém compete. A eletricidade não compete, o etanol não compete”, afirmou.

Na avaliação do empresário, um cenário de petróleo próximo de US$ 20 por barril poderia modificar significativamente as condições de competitividade dos combustíveis tradicionais. Trata-se, no entanto, de uma hipótese de mercado, e não de uma previsão de que os preços chegarão a esse nível.

Ibn acredita que os produtores de petróleo ainda dispõem de instrumentos econômicos para influenciar o ritmo da transição energética. A questão, segundo ele, é saber quando e em quais condições essa capacidade poderá ser utilizada.

Preços elevados favorecem alternativas

O empresário também chamou atenção para os efeitos das oscilações internacionais do petróleo sobre as decisões dos consumidores e das empresas.

Na entrevista, ele citou os conflitos no Oriente Médio, a variação do dólar e o aumento dos custos dos combustíveis como fatores que ampliam o interesse por alternativas à gasolina e ao diesel.

Segundo Ibn, o mercado passou por um período de forte instabilidade em 2026. Na sua avaliação, medidas adotadas pelo governo brasileiro ajudaram a limitar o impacto das altas internacionais sobre os preços internos.

Ele observa que o Brasil, apesar de ser produtor e exportador de petróleo, ainda depende da importação de parte do diesel consumido no país, o que torna o mercado nacional sensível às oscilações externas.

Nesse ambiente, os veículos elétricos passaram a ganhar espaço nas decisões de compra. Mas Ibn ressalta que uma eventual queda expressiva no preço do petróleo poderá alterar novamente a relação de custos entre as diferentes tecnologias.

A competitividade dos elétricos, entretanto, não depende apenas da gasolina. Também envolve o preço da eletricidade, o custo de aquisição dos veículos, a manutenção e a eficiência energética.

Uma mudança no negócio dos postos

Para Ibn, a transformação mais importante talvez esteja no próprio conceito do negócio. O posto tradicional, dedicado à comercialização de combustíveis derivados do petróleo e etanol, precisará ampliar sua atuação para atender diferentes formas de abastecimento de veículos.

“Primeiro, acho que o mercado mundial, a gente não fala de petróleo, fala de energia”, afirmou.

A mudança já pode ser observada nos investimentos de empresas do setor. O próprio Ibn decidiu ampliar a oferta de carregadores elétricos depois de reconhecer que a demanda estava crescendo mais rapidamente do que imaginava.

A experiência mostra que a eletrificação começa a fazer parte das decisões dos empresários que, até pouco tempo, dependiam exclusivamente da comercialização de combustíveis líquidos.

Isso não significa, necessariamente, o desaparecimento dos postos convencionais. A tendência apontada por Ibn é a convivência entre diferentes fontes de energia, exigindo adaptações na infraestrutura e nos serviços oferecidos.

O futuro do petróleo

Ibn avalia que o petróleo continuará ocupando uma posição importante na economia mundial durante as próximas décadas. Segundo ele, especialistas do setor com quem mantém contato consideram que os combustíveis derivados do petróleo ainda possuem condições de sustentar uma participação expressiva no mercado por pelo menos mais 30 anos.

O empresário ressalta, contudo, que a evolução tecnológica pode alterar essas perspectivas. Novas fontes energéticas, avanços nas baterias e mudanças nos custos de produção poderão modificar o equilíbrio entre os combustíveis tradicionais e a eletrificação.

Por isso, mesmo acreditando na capacidade de reação do petróleo, Ibn não pretende esperar por uma eventual redução expressiva do preço do barril para decidir seus investimentos.

A avaliação dele reúne duas perspectivas que parecem contraditórias, mas já fazem parte da realidade do setor: os postos precisam se preparar para atender veículos elétricos, enquanto o petróleo continua sendo um concorrente de peso.

A eletrificação avança nas condições atuais de mercado. O petróleo, porém, ainda poderá reagir pelo preço. Para os empresários dos postos, o desafio é acompanhar essa transformação sem depender de previsões sobre qual fonte de energia terá maior participação no futuro.