Economia

Crise no varejo brasileiro se agrava com juros altos e modelo físico esgotado

Nos últimos dois anos e meio, o aumento do endividamento e a escalada da Selic criaram um cenário desafiador para o setor

Por Sputnik Brasil com Redação 18/08/2026 05h05
Crise no varejo brasileiro se agrava com juros altos e modelo físico esgotado
Foto: © Foto / Paulo Pinto/Agência Brasil

O varejo brasileiro vive um dos momentos mais delicados de sua história recente, pressionado por juros altos, endividamento das famílias e o enfraquecimento do modelo tradicional baseado em lojas físicas. Grandes redes tentam reestruturar mais de R$ 68 bilhões em dívidas, recorrendo a recuperações judiciais e extrajudiciais para sobreviver.

Nos últimos dois anos e meio, o aumento do endividamento e a escalada da Selic criaram um cenário desafiador para o setor, levando diversas empresas a buscar alternativas para evitar a insolvência.

Desde o colapso da Americanas, em 2023, até o recente pedido de recuperação de Casas Bahia e Marabraz, pelo menos oito grandes varejistas recorreram a esses mecanismos, sendo cinco delas apenas em 2024.

A Americanas deu início à onda de recuperações após revelar fraudes contábeis que resultaram em R$ 43 bilhões em dívidas. Na sequência, Dia, Polishop, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo, Tok&Stok, Casas Bahia e Marabraz também foram impactadas pelo ambiente de juros elevados, crédito restrito e queda no poder de compra das famílias.

Especialistas ouvidos por um jornal de grande circulação destacam que, diferente do caso Americanas, os episódios mais recentes refletem o esgotamento do modelo físico. A Selic, que saltou de 2% ao ano no fim de 2020 para 14%, tornou mais caro tanto o financiamento das empresas quanto o crédito ao consumidor, reduzindo a demanda e pressionando as operações.

Apesar do desemprego em patamares baixos, o endividamento das famílias — atualmente em 49,8% da renda — limita compras de maior valor, como eletrodomésticos. Consultores apontam que a renda disponível passou a ser consumida por dívidas e novos gastos digitais, alterando os hábitos de consumo e reduzindo o espaço para bens duráveis.

Além do contexto macroeconômico, há uma transformação estrutural no varejo. Modelos baseados em expansão física agressiva, como o da Casas Bahia, perderam força diante do avanço do e-commerce. A presença territorial deixou de ser prioridade, tanto para consumidores quanto para empresas, colocando a sustentabilidade financeira e a eficiência operacional no centro do debate.

Outro fator destacado é a falta de adaptação de parte das empresas. Enquanto redes como Magalu migraram cedo para o digital, outras mantiveram estruturas dependentes de lojas físicas, com custos incompatíveis com o cenário de juros elevados. A migração do consumo para plataformas digitais e serviços de comunicação reforça a perda de relevância do modelo tradicional.

Analistas apontam que a crise é mais aguda no varejo de bens duráveis, segmento mais sensível aos juros altos e à concorrência online. Redes de móveis e eletrodomésticos, dependentes de financiamento ao cliente e de grandes estruturas físicas, foram atingidas simultaneamente pela queda nas vendas e pelo aumento dos custos.

Para especialistas, novas recuperações judiciais não estão descartadas. No entanto, ressaltam que esses processos resolvem questões do passado, mas não garantem a capacidade das empresas de reestruturar operações, reduzir custos e adaptar modelos de negócio a um varejo cada vez mais digital e competitivo, fundamental para a sobrevivência no presente e no futuro.

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