Economia
Leilão de baterias pode reduzir cortes de energia no Nordeste
Região será prioridade no primeiro leilão de armazenamento do Brasil, que prevê incentivos para projetos em áreas com maior risco de cortes na geração renovável
O primeiro leilão de Reserva de Capacidade para sistemas de armazenamento de energia no Brasil, voltado à contratação de grandes baterias (BESS), deve ter impacto direto no Nordeste, região que concentra os maiores volumes de cortes de geração renovável no país.
As regras do certame preveem tratamento diferenciado para projetos instalados no Nordeste e em Minas Gerais, com pontuação adicional para empreendimentos localizados em pontos de conexão considerados críticos pelo setor elétrico. Ao todo, são 129 locais elegíveis, distribuídos principalmente em áreas com maior incidência de restrições à geração, como o litoral do Ceará e do Piauí, o sudoeste da Bahia, o Agreste de Pernambuco e o sertão piauiense.
Essas regiões são justamente as mais afetadas pelo chamado “curtailment”, quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduz a produção de usinas eólicas e solares por falta de capacidade de escoamento da energia ou por excesso de oferta em determinados horários do dia.
No ano passado, o Nordeste concentrou perdas estimadas em cerca de R$ 6 bilhões devido a esses cortes, que afetam principalmente parques eólicos e solares, hoje responsáveis por grande parte da expansão da matriz elétrica brasileira.
O leilão busca justamente criar alternativas para armazenar o excedente de energia gerado em períodos de baixa demanda, especialmente no meio do dia, e liberá-lo em horários de maior consumo, como o início da noite. Para isso, as baterias deverão atuar como sistemas de armazenamento em larga escala, conectados ao Sistema Interligado Nacional (SIN), que atende cerca de 99% do país.
As exigências técnicas incluem operação como formadores de rede (Grid Forming), com capacidade de controlar tensão e frequência de forma autônoma, além de resposta extremamente rápida a variações do sistema elétrico. Os equipamentos também precisarão suportar picos de até 130% da capacidade nominal por curtos períodos.
Segundo especialistas do setor, o desenho do leilão cria um “sinal locacional” que favorece a instalação de baterias justamente onde há maior desperdício de energia renovável, como no Nordeste. A expectativa é que isso ajude a reduzir perdas, aumentar a confiabilidade do sistema e melhorar a viabilidade econômica de novos projetos eólicos e solares na região.
Os contratos terão duração de 15 anos, com início previsto para 2028, e exigirão empreendimentos com capacidade mínima de 30 megawatts por projeto. Antes de entrar em operação, as baterias passarão por testes de desempenho em condições reais da rede elétrica.
Com a estruturação do leilão e avanço da regulamentação, o setor elétrico projeta que o Brasil possa atrair bilhões em investimentos em armazenamento de energia na próxima década, com o Nordeste como principal polo de expansão dessa nova tecnologia.


