Economia
Brasil planeja emitir títulos em yuan e fortifica relação com a China
Pela primeira vez na história, o Brasil prepara a emissão de títulos públicos em yuan no mercado chinês, numa estratégia que amplia as opções de financiamento do país, reduz a dependência do dólar e pode influenciar a dinâmica com os Estados Unidos.
Após retomar em abril deste ano a emissão de títulos da dívida pública em euro, o Brasil agora aposta no mercado financeiro chinês e planeja oferecer aos investidores asiáticos os chamados Panda Bonds.
O Ministério da Fazenda busca diversificar as fontes de financiamento e diminuir a dependência do dólar. A iniciativa ocorre em meio ao avanço das políticas chinesas para internacionalização do yuan, que em 2024 superou o euro no comércio global, atingindo 6% das transações mundiais — embora ainda distante do dólar, com 82% do mercado.
A expectativa é de que o anúncio da oferta dos títulos em moeda chinesa ocorra durante visita de autoridades brasileiras à China, entre 24 e 26 de junho.
Segundo Hsia Hua Sheng, professor associado de finanças na Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil aproveita as oportunidades do mercado de capitais de Pequim. Além disso, as altas taxas de juros brasileiras tornam os títulos nacionais mais atraentes em comparação com outras moedas, como explicou ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
O especialista destaca ainda que a China possui o segundo maior mercado de capitais do mundo, com capitalização superior a US$ 11 trilhões (R$ 56,7 trilhões), atrás apenas dos Estados Unidos.
“Isso significa que, uma vez emitidos na China, os investidores locais passam a conhecer melhor os títulos brasileiros, fortalecendo a reputação do país.”
No entanto, Hua Sheng ressalta uma limitação dos Panda Bonds: enquanto títulos em dólar e euro podem ter prazos de até 40 anos, os chineses geralmente não ultrapassam cinco anos.
Outro ponto apontado pelo professor da FGV é que a medida representa um passo importante na integração financeira entre Brasil e China. Atualmente, o país asiático é o maior parceiro comercial brasileiro, com exportações que alcançaram quase US$ 171 bilhões (R$ 882 bilhões) e um superávit de US$ 29,1 bilhões (R$ 150,1 bilhões) para o Brasil.
“Temos observado investimentos mútuos entre Brasil e China, além de uma crescente interação tecnológica. Esse volume de transações exige o uso de moedas nacionais e, ao permitir trocas diretas, reduz custos, aumenta a eficiência e melhora a formação de preços”, acrescenta.
Impacto sobre a relação com os Estados Unidos
A emissão de títulos brasileiros em yuan ocorre em um contexto de tensão nas relações Brasil-EUA. Recentemente, os Estados Unidos classificaram as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas e consideram retomar a taxação de 25% sobre produtos brasileiros. Questionado sobre possíveis incômodos à Casa Branca, Hsia Hua Sheng acredita que a medida não deve gerar atritos.
“O Brasil é soberano para decidir o que é mais adequado aos seus interesses. Já há empresas brasileiras emitindo Panda Bonds e, se o Tesouro Nacional seguir esse caminho, trata-se do mesmo raciocínio de diversificação de fontes de financiamento. O próprio BNDES já opera com financiamentos em multimoedas, o que mostra que é comum empresas e bancos brasileiros captarem recursos em diferentes moedas”, afirma.
Para Marcos Cordeiro Pires, professor de relações internacionais da Unesp e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), mesmo diante de eventuais tentativas de retaliação dos EUA, o Brasil não deve ceder a pressões.
“É preciso sempre analisar de onde partem as provocações. Não houve nenhuma ação do governo brasileiro contra os EUA. Quando há medidas contra interesses do Brasil, é preciso questionar os motivos: busca de consenso ou tentativa de influenciar eleições?”, pondera.
Por fim, Cordeiro destaca que a estabilidade macroeconômica da China é atualmente superior à dos EUA, com menor volatilidade do yuan em relação ao real. Como a quitação dos títulos será feita em moeda chinesa, menor volatilidade implica menor custo da dívida.
“A estabilidade econômica da China é um fator positivo para a emissão desses títulos, já que o país detém grandes reservas internacionais e um colchão de liquidez. Ao aprofundar os laços financeiros com a China, o Brasil pode acessar um fluxo de capital menos influenciado por questões ideológicas, diferente dos investimentos norte-americanos, que muitas vezes buscam mudanças políticas”, conclui.


