Economia
Investimentos chineses impulsionam desenvolvimento no Nordeste
Especialistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, apontam que clima favorável e posição geográfica estratégica estão entre os fatores que tornam o Nordeste brasileiro um dos principais destinos dos investimentos chineses no país.
Os aportes internacionais da China já não surpreendem o mercado global. O país asiático adota como estratégia a construção de infraestrutura — portos, ferrovias, indústrias — em segmentos como energia e setor automotivo, consolidando parcerias e ampliando sua presença no mundo.
No Brasil, o Nordeste desponta como o novo foco do capital chinês. Um exemplo é a BYD, que iniciou a produção nacional de veículos elétricos em Camaçari (BA), ocupando a antiga fábrica da Ford. Ainda na Bahia, um consórcio chinês será responsável pela construção de uma ponte de 12 km entre Salvador e Itaparica, que reduzirá o tempo de viagem entre as cidades de 4 horas para apenas 10 minutos.
Segundo especialistas entrevistados pelo Mundioka, o interesse chinês se deve principalmente ao potencial da região para geração de energia limpa — solar e eólica — e à localização estratégica para exportações rumo à Europa e aos Estados Unidos.
Diana Chaib, doutora em economia pelo Cedeplar/UFMG, destaca a sinergia entre a tecnologia chinesa e as condições naturais brasileiras, como sol e vento abundantes durante todo o ano. O Nordeste também se destaca por oferecer custos mais baixos para investimentos industriais em comparação com outras regiões do país.
"O Sudeste brasileiro, historicamente o principal destino desses investimentos, já apresenta saturação, custos elevados e menos espaço para grandes projetos. O Nordeste, por sua vez, ainda dispõe de áreas livres, custos operacionais menores e incentivos regionais que tornam os projetos mais viáveis e atrativos economicamente."
Chaib ressalta que o capital chinês contribui para pontos estratégicos da economia nordestina: além de gerar empregos e renda, impulsiona a capacidade produtiva regional.
"Projetos em energia, indústria e infraestrutura ampliam a base produtiva e ajudam a diversificar a economia. Com esses investimentos, o Nordeste passa a integrar de forma mais ativa as cadeias globais de valor, especialmente em setores ligados à transição energética e à indústria de baixo carbono."
José Ricardo dos Santos, co-presidente e CEO do Lide China, afirma que o Nordeste deixou de ser periférico nos planos chineses, tornando-se estratégico para setores como carros elétricos e transformação digital.
"O interesse chinês em data centers, que demandam muita energia, cresce cada vez mais. Eles enxergam o potencial de absorção de energia limpa no Nordeste."
Ele também observa que a percepção sobre produtos chineses mudou entre os brasileiros nas últimas décadas.
"Há vinte anos, buscavam-se produtos chineses pelo preço, mesmo com qualidade inferior. Hoje, empresários brasileiros procuram tecnologia de ponta, mesmo que o custo seja maior que o de soluções americanas ou europeias."
Bons negócios para ambos os lados
Os investimentos chineses no Brasil têm objetivos claros. Para os especialistas, Pequim aposta em projetos que possam impulsionar sua própria economia, principalmente em infraestrutura.
Chaib enfatiza que os aportes são feitos quando há potencial de fortalecer o capital local e facilitar exportações para a China, reduzindo custos logísticos e ampliando parcerias estratégicas, inclusive no âmbito do BRICS.
"Eles valorizam o desenvolvimento brasileiro quando isso facilita exportações para a China, reduz custos logísticos e fortalece parcerias estratégicas."
Ela alerta, no entanto, para a necessidade de garantir licenciamento adequado e sustentabilidade de longo prazo nos projetos de transição energética, que demandam uso intensivo de território e recursos naturais.
"Projetos de grande escala exigem marcos regulatórios claros, coordenados entre diferentes níveis de governo. É fundamental uma estratégia de desenvolvimento regional, com políticas que incentivem mão de obra qualificada, fortalecimento de fornecedores locais e transferência de tecnologia."
Santos complementa que a China segue princípios como reciprocidade, bilateralidade e não intervenção nos assuntos internos dos países parceiros.
"O interesse é desenvolver negócios de forma pragmática. Questões políticas não interessam à China, nem no Brasil, nem em outros países."
Segundo ele, o Brasil é visto como fornecedor estratégico de segurança alimentar, energética e mineral — incluindo terras raras. Santos destaca a preocupação do governo brasileiro em garantir que parte da tecnologia desenvolvida permaneça no país.
"Oferecemos minério para a China fabricar baterias de carros elétricos, mas buscamos que parte da produção e transferência de tecnologia aconteça aqui, enriquecendo o conhecimento nacional. O diálogo é cada vez mais rico e evolui qualitativamente."
E os Estados Unidos?
Com a ascensão chinesa, os Estados Unidos têm adotado medidas protecionistas, como o aumento de tarifas, para influenciar relações econômicas bilaterais. Chaib explica que tais restrições acabam empurrando a China a buscar novos parceiros, como o Brasil.
"Quando os EUA impõem restrições tarifárias, a China naturalmente busca diversificar parceiros e mercados para compensar o que era comercializado com os americanos."
Santos observa que a China ampliou investimentos na América Latina, citando o porto de Chancay, no Peru, que será conectado a uma ferrovia bioceânica com início em Ilhéus (BA).
No entanto, ele ressalta que o fortalecimento dos laços sino-brasileiros não significa afastamento dos Estados Unidos.
"O Brasil sempre adotou uma política de multipolaridade e mantém diálogo com diferentes blocos. Apesar de integrar o BRICS, o país segue desenvolvendo relações com os EUA, como mostra a valorização da Embraer pelos americanos."


