Economia

Por que danos a cabos submarinos ameaçam a economia global

Esses cabos, responsáveis por mais de 95% do tráfego de dados do planeta, compõem a espinha dorsal da internet

Por Sputnik Brasil com Redação 20/04/2026 15h03
Por que danos a cabos submarinos ameaçam a economia global
Foto: © flickr.com / Divulgação / Marinha dos Estados Unidos / Adam Winters

Cabos submarinos e plataformas de grandes empresas de tecnologia formam a base da economia digital mundial, mas a concentração dessas estruturas em rotas estratégicas e o risco de conflitos revelam fragilidades que ameaçam serviços, mercados e a conectividade global.

Esses cabos, responsáveis por mais de 95% do tráfego de dados do planeta, compõem a espinha dorsal da internet. No corredor estratégico do mar Vermelho e do Golfo, especialmente no estreito de Ormuz, eles conectam hubs digitais do Oriente Médio a redes na Europa, Ásia e África, proporcionando baixa latência e alta capacidade para bilhões de usuários e serviços críticos, como computação em nuvem, streaming e sistemas financeiros.

Entretanto, a concentração em poucas rotas torna o sistema vulnerável. Os cabos são relativamente fáceis de serem danificados, principalmente em cenários de conflito, como no Irã. Interrupções nessas rotas impactam diretamente a operação de empresas e economias que dependem da conectividade internacional.

Embora existam alternativas que contornam a África ou cruzam o Atlântico, nem todas possuem capacidade para substituir rapidamente os principais corredores do Oriente Médio. Países com infraestrutura digital mais distribuída e autônoma tendem a sofrer menos, enquanto regiões altamente dependentes dessas rotas podem enfrentar interrupções severas.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Claudio Micelli, professor da UFRJ e especialista em sistemas ciberfísicos, explica os impactos de eventuais danos a esses cabos e como a economia global se tornou refém do ambiente digital.

Segundo Micelli, essa infraestrutura é absolutamente central para o funcionamento da economia moderna. “Essa infraestrutura de comunicação que liga países e diferentes redes tornou-se extremamente importante para a troca de informações”, destaca.

“Os cabos submarinos hoje são infraestrutura crítica para a comunicação intercontinental e uma forma barata de conexão. Entender que a internet é um conjunto de redes comerciais em busca de troca de informação é algo extremamente poderoso.”

Micelli cita o exemplo do Brasil, onde cabos chegam por Fortaleza, e ressalta que a perda dessa comunicação gera prejuízos diretos, sobretudo quando há poucas alternativas de roteamento.

“A internet foi desenhada com algoritmos que garantem resiliência, mas isso só funciona com redundância de caminhos. Em muitos locais ela não existe; e, quando existe, pode significar rotas mais longas, com maior atraso, o que afeta diretamente aplicações sensíveis a tempo real e outras métricas de rede.”

O tema não é novo. Entre o fim de 2023 e o início de 2024, ataques dos Houthis no mar Vermelho passaram a ameaçar diretamente a infraestrutura de cabos submarinos. Assim como o comércio de petróleo pode ser afetado por bloqueios em Ormuz, o fluxo global de dados depende de corredores geográficos restritos, escolhidos por serem mais curtos, baratos e eficientes.

Quando esses pontos são interrompidos, seja por ação militar, sabotagem ou acidentes, o impacto é sistêmico, atingindo comunicações, mercados e serviços digitais em escala mundial.

Para o pesquisador, essa dependência revela uma vulnerabilidade estrutural na economia global. Mesmo países com infraestrutura digital robusta, como a China, ainda dependem da conectividade internacional para manter suas relações econômicas.

“Quando a nossa economia se transforma em economia da informação, passamos a depender desse modelo de comunicação.”

Empresas digitais dos EUA — Amazon, Microsoft e Google — tornaram-se atores estratégicos para a segurança internacional, alinhando-se ao conceito de tecnofeudalismo, no qual gigantes de tecnologia assumem papel central dentro do Estado.

“A internet é uma infraestrutura de comunicação muitas vezes controlada por entes privados, então essas empresas controlam não só a comunicação, mas também o processamento da informação”, afirma Micelli.

Esse cenário levanta a questão sobre até que ponto governos podem acessar dados acumulados por essas empresas em situações de crise. Para Micelli, isso é “muito provável”, considerando o histórico de proximidade entre Big Techs e estruturas estatais. Casos como o da Cambridge Analytica e as revelações de Edward Snowden mostram a existência de pressões e mecanismos de vigilância ligados ao uso de dados.

Mesmo diante de resistências iniciais das empresas, há frequentes pressões institucionais para o compartilhamento de informações, reforçando o protagonismo dessas corporações na política da informação e nas decisões de Estado.

Ao mesmo tempo, a relação não é unidimensional. O uso de dados pode atender a interesses legítimos, como políticas públicas ou planejamento econômico. No entanto, a capacidade de coleta e análise coloca essas empresas em posição estratégica, na qual interesses comerciais e estatais podem se sobrepor.

O resultado é um cenário de limites indefinidos sobre o uso de dados, em que conveniência e risco coexistem — e cuja regulação se torna uma questão central para as sociedades contemporâneas.

Quanto à proteção da infraestrutura em situações de guerra, como no Irã, não existe uma governança internacional capaz de coordenar essa defesa, segundo o pesquisador. “O que temos são acordos de cooperação entre companhias e Estados nacionais para tentar manter essa infraestrutura.”

Esses arranjos, segundo Micelli, ainda dependem da “boa vontade”, do reconhecimento da importância dos cabos e da capacidade de resposta pontual — não de uma autoridade global estruturada.

Essa ausência se deve, em parte, ao fato de a rede global de cabos ter sido vista historicamente como um conjunto de interesses empresariais ou regionais, e não como uma questão estratégica de segurança internacional. “Isso sempre dependeu desses interesses e da disposição de agir”, resume.

Para Micelli, o momento atual evidencia a necessidade de cooperação internacional mais ampla. Manter essa infraestrutura — vital para comunicação, economia e inovação — exigiria um nível de coordenação global que hoje parece distante.

Ele destaca ainda o caráter ambíguo da internet: ao mesmo tempo em que ampliou o acesso, negócios e integração, trouxe desafios como vigilância, uso indevido de dados e impactos sociais ainda em debate.

“Estão coletando os nossos dados? É muito difícil dizer. Ou, mesmo se estiverem sendo coletados, será que há dolo nisso? Estão sendo reunidos para melhorar métricas da rede ou para outros fins? Essas questões não são triviais.”