Economia

Pix do Brasil pode se tornar alternativa regional ao SWIFT, avalia especialista

O presidente Lula declarou recentemente que não irá mudar o Pix para agradar os interesses estadunidenses

Por Sputnik Brasil 07/04/2026 12h12
Pix do Brasil pode se tornar alternativa regional ao SWIFT, avalia especialista
Lula - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) tem um novo alvo em sua mira: o Pix, sistema brasileiro que permite pagamentos instantâneos por meio de um código de identificação.

Segundo documento do USTR, empresas norte-americanas manifestaram preocupação com o suposto tratamento preferencial dado ao Pix pelo Banco Central do Brasil (BC). Lançado em novembro de 2020, o Pix, na visão do órgão, poderia impactar negativamente provedores internacionais de serviços de pagamento eletrônico.

“O Pix pertence ao Brasil e ninguém vai nos obrigar a mudá-lo por causa do serviço que presta à sociedade brasileira”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Salvador, Bahia.

Em entrevista à Sputnik, o economista mexicano Josafat Hernández, doutor em Filosofia, destacou que compreender a relevância dos sistemas de pagamento exige entender o papel dos Estados Unidos nesse cenário. Atualmente, os EUA controlam o ecossistema global de transferências por meio da Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (SWIFT), que regula mais de 11.500 instituições financeiras em mais de 200 países.

“Assim, os Estados Unidos têm a capacidade de pressionar diferentes países a excluí-los desse sistema internacional de pagamentos, que também opera em conformidade com o dólar”, afirmou Hernández.

Segundo ele, isso confere à economia norte-americana poder para controlar fluxos de capital, transações bancárias entre bancos e países e, de certa forma, minar a soberania monetária de outras nações.

Como exemplo, em 2022, EUA e União Europeia decidiram excluir sete bancos russos do SWIFT, como parte de sanções ao país, que respondeu com o Mir – sistema russo equivalente a Visa e MasterCard – além de sistemas nacionais como o UnionPay da China e o JCB do Japão.

Posteriormente, Moscou criou o Sistema Nacional de Cartões de Pagamento (NSPK), com o objetivo de centralizar o processamento de pagamentos e lançar um cartão russo próprio.

Para o doutor em economia Oscar Rojas, países que desenvolvem sistemas próprios de pagamento buscam, sobretudo, soberania monetária.

“Na medida em que os países possuem seus próprios mecanismos e não utilizam terceiros, especialmente os norte-americanos, isso demonstra a conquista de soberania e autonomia nesse aspecto, o que lhes proporciona níveis de segurança nacional [...]. O neocolonialismo, do século XX até o presente, tem sido controlado pela imposição de sistemas financeiros internacionais”, afirmou Rojas à Sputnik.

Passo necessário rumo à multipolaridade

Em um mundo cada vez mais multipolar, Rojas defende a adoção de sistemas de pagamento que priorizem outras moedas.

“Se eu, como um país do Sul Global, por exemplo, decidir negociar com outros países do Sul Global, o que uma moeda do Norte Global teria que fazer no meio? Dessa perspectiva, a soberania monetária e financeira consiste em se libertar desses intermediários e, claro, eliminar o risco – que já vimos – de seu uso indiscriminado como mecanismo de bloqueio econômico”, refletiu.

Segundo o especialista, isso reforça a necessidade de que Estados-nação busquem independência e que suas moedas possam participar do mercado global.

Josafat Hernández concorda e observa que investir em tecnologia para sistemas de pagamento é um passo fundamental para a soberania monetária.

“O sistema Pix do Brasil incomodou tanto os Estados Unidos porque se mostrou um sistema de pagamento muito eficiente e barato, que poderia ser uma verdadeira alternativa regional ao sistema SWIFT norte-americano, e acredito que isso poderia minar a hegemonia do dólar”, concluiu Hernández.

Por Sputnik Brasil