Economia
Novos comportamentos impulsionam negócios autorais de moda em Alagoas
Em 2025, mais de 1.800 empresas foram abertas no ramo do vestuário e acessórios
O mercado da moda passa por uma reconfiguração no Brasil, impulsionada por mudanças no comportamento do consumidor após a pandemia da Covid-19. Segundo dados do Sebrae, o setor segue entre os mais relevantes da economia criativa, com predominância de micro e pequenas empresas, que representam mais de 90% dos negócios da área. Em 2025, mais de 1.800 empresas foram abertas no ramo do vestuário e acessórios.
Nesse novo cenário, conforto, funcionalidade, identidade e relacionamento com o cliente passaram a pesar mais do que tendências passageiras.
Em Alagoas, onde o clima quente é predominante, o verão deixou de ser apenas uma estação e se consolidou como diferencial competitivo. A partir da moda autoral, empreendedores locais vêm transformando território, materiais e estratégia em oportunidades de negócio, conectando criatividade e gestão para atender um consumidor mais atento ao uso real das peças.
Economia do mar e moda autoral
Na Barra de São Miguel (AL), a empreendedora Shirley Alencar encontrou no próprio litoral a base criativa do Shiá Studio. O ateliê produz brincos, colares, bolsas e acessórios a partir de cascas de mariscos, conchas e palhas, materiais que muitas vezes seriam descartados.
“O verão me inspira a criar peças mais leves, frescas e com cores que lembram o mar e a areia. Tudo precisa ser confortável e combinar com o clima quente da nossa terra”, afirma Shirley.
A relação com o território vai além da estética. Segundo ela, a escolha dos materiais também carrega um posicionamento ambiental e social. “As conchas de massunim, sururu e ostras na maioria das vezes viram lixo, mas elas carregam história. Transformar isso em acessórios é uma forma de valorizar o que vem da nossa terra.”
Para Shirley, inovar na moda autoral não significa romper com o passado, mas ressignificá-lo. “A inovação está em fazer diferente com o que já existe. É pegar uma técnica antiga, como o macramê, e criar peças novas, com significado, mostrando que o feito à mão ainda tem muito valor.”
Inovação para além da tendência
A estilista e consultora de moda Mannu Melo, que atua com gestão estratégica de marcas autorais e projetos ligados à cultura e território, avalia que falar de inovação exige olhar menos para tendências de moda e mais para o comportamento do consumidor.
“O consumo mudou muito da pandemia para cá. A gente vive um pós-guerra diferente, com tudo mais acelerado e muita tecnologia envolvida. Pensar apenas em tendência estética é um erro”, analisa.
Segundo ela, o pequeno empreendedor tem uma vantagem competitiva nesse cenário. “A gente consegue recalcular rota o tempo inteiro. Inovar hoje é observar o comportamento da sociedade e entender como as pessoas estão vivendo.”
Mannu destaca que o consumidor passou a priorizar peças funcionais, pensadas para o dia a dia. “As pessoas estão repensando a vida noturna e priorizando o dia. A moda precisa acompanhar isso, com roupas que funcionem para o café, para o trabalho, para a rotina.”
O clima quente também entra como ativo estratégico. “Tecidos naturais, como o linho, são um diferencial competitivo. Eles não retêm calor. Muitas vezes a pessoa acha que roupa sem manga é mais fresca, mas dependendo do tecido, passa mais calor do que alguém usando manga comprida de tecido natural.”
Linho e estratégia no verão
Em Maceió, a leitura do comportamento do consumidor também orienta as decisões da Fire, marca de moda masculina criada por Julio César Barroso de Lima, conhecido como Julio Badu, de 24 anos. Vindo de uma família com forte atuação na confecção, ele percebeu ainda jovem uma lacuna no mercado.
“Eu tinha 17, 18 anos e sentia falta de um estilo mais leve, mais jovem, que combinasse com o nosso clima. A Fire nasceu dessa necessidade”, conta.
A marca começou com shorts estampados e, ao longo dos anos, ampliou o portfólio para peças casuais, sociais e moda litorânea, sempre com foco em conforto e respirabilidade. O linho se tornou um dos principais pilares da marca.
“O linho está sempre em alta aqui no Nordeste. É um tecido fresco, elegante e que funciona para o dia inteiro. A gente trabalha com produção própria, o que permite ter preço competitivo e acompanhar as tendências de forma mais rápida”, explica Julio.
Criada em 2018, a Fire cresceu apoiada no posicionamento digital. “Enquanto muita gente precisou se reinventar, a gente já estava no e-commerce e nas redes sociais.” Hoje, a empresa registra crescimento médio de 40% no faturamento de 2023 para 2024 e projeta alta de até 100% no faturamento em dezembro de 2025, impulsionada pela alta estação e pela abertura de uma segunda loja.
Sebrae amplia oportunidades para quem empreende na moda
Para Marina Gatto, analista do Sebrae Alagoas, a moda autoral e o artesanato são estratégicos para o desenvolvimento econômico dos territórios. “Quando o empreendedor transforma identidade cultural em produto, ele gera renda, fortalece comunidades e cria negócios com mais valor agregado.”
Segundo ela, o Sebrae atua para qualificar esses empreendedores, ampliar acesso a mercado e estruturar marcas que respeitem o território e tenham competitividade.
Já Carol Ávila, analista do Sebrae com atuação no setor da moda, destaca que o relacionamento com o cliente se tornou central no pós-pandemia. “Entender o comportamento do consumidor e construir uma relação próxima é fundamental para inovar. Hoje, não basta vender produto, é preciso gerar conexão.”
O Sebrae oferece consultorias, capacitações e acompanhamento em áreas como gestão, finanças, posicionamento de marca e relacionamento com o cliente, apoiando micro e pequenos empreendedores, e contribuindo para transformar criatividade em negócio sustentável.
No mercado da moda, entender o comportamento do consumidor e estruturar o negócio se tornou tão importante quanto o produto. Em Alagoas, o verão reforça esse movimento e amplia as oportunidades para quem empreende com planejamento e apoio especializado.


