Cooperativismo

Cooperativas avançam para oferecer telefonia móvel com marca própria

Nova lei autoriza atuação direta no setor e abre caminho para planos de celular e internet; organizações apostam em preços competitivos e expansão da cobertura rural

Por Redação 21/10/2026 13h01
Cooperativas avançam para oferecer telefonia móvel com marca própria
Cooperativas avançam para oferecer telefonia móvel com marca própria - Foto: (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil)

As cooperativas brasileiras começam a ampliar sua atuação no mercado de telecomunicações e se preparam para oferecer serviços como telefonia móvel com marca própria. A movimentação ganhou força após a sanção da Lei nº 15.324, em janeiro deste ano, que autorizou essas organizações a atuar diretamente no setor.

Antes da mudança, as cooperativas podiam oferecer serviços aos associados por meio de empresas coligadas, mas o modelo gerava insegurança jurídica e limitava os investimentos. Com a nova legislação, elas podem incluir a prestação de serviços de telecomunicações em seus estatutos e atuar em segmentos como telefonia fixa e móvel, banda larga e TV por assinatura.

Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), as cooperativas estarão sujeitas às mesmas regras das demais empresas do setor e poderão disputar clientes cooperados ou não.

Uma das pioneiras nesse movimento é a Coprel, do Rio Grande do Sul, que se tornou, em agosto, a primeira cooperativa brasileira a adaptar seu estatuto à nova legislação. A organização atua no setor elétrico desde a década de 1960 e já oferece serviços de telecomunicações por meio de uma empresa coligada.

A operação atende 92 municípios do norte gaúcho com telefonia celular e internet banda larga, utilizando uma rede própria de fibra óptica. Em 21 dessas cidades, a cobertura alcança todo o território municipal, inclusive áreas rurais.

A Coprel informou que está na fase final da obtenção das autorizações necessárias para atuar diretamente no mercado de telecomunicações e que espera concluir o processo nos próximos dias. Os planos para a nova etapa devem ser detalhados posteriormente.

Cooperativas apostam em operadoras virtuais


Outra organização que pretende aproveitar a mudança é a Coopercompany, cooperativa de plataforma com atuação nacional. A estratégia é lançar uma marca própria de telefonia móvel por meio do modelo MVNO, sigla em inglês para operadora móvel virtual.

Nesse formato, a empresa oferece serviços de telefonia e internet móvel sem precisar construir uma infraestrutura própria de antenas e torres. Em vez disso, utiliza a rede de operadoras já estabelecidas.

Atualmente, a Coopercompany compra serviços de outras empresas e os disponibiliza aos cooperados, mas ainda não possui uma marca própria de telefonia móvel. Segundo o diretor-presidente da organização, Igor Sigiani, a intenção é ampliar a oferta de serviços aproveitando a infraestrutura existente.

“Construir rede é complexo. No MVNO, colocamos a identidade cooperativista e vamos fazer essa entrega para os nossos cooperados”, afirmou.

A cooperativa negocia com Vivo, TIM e Claro para viabilizar a operação. Para Sigiani, o modelo permite expandir a atuação nacional com rapidez, mantendo o foco no relacionamento com os associados e na oferta de serviços com preços competitivos.

Mercado já reúne milhões de linhas


O modelo de operadoras móveis virtuais já está consolidado no Brasil. Segundo os dados apresentados no levantamento, o país conta com 18,3 milhões de linhas nesse formato e 147 empresas credenciadas para oferecer os serviços.

Entre as companhias que utilizam o modelo estão Magazine Luiza, Nubank e Correios. Além das grandes operadoras, a Unifique também atua como fornecedora de infraestrutura e serviços para operações virtuais.

Com a mudança na legislação, as cooperativas passam a ter condições de disputar esse mercado diretamente, desde que cumpram as exigências regulatórias.

A Ciclos, cooperativa de plataforma do Espírito Santo, também planeja expandir sua atuação. A organização já atende 23 mil pessoas com telefonia móvel e pretende estruturar uma operação própria de MVNO para alcançar 40 mil linhas.

A base de associados pode favorecer esse crescimento. No Espírito Santo, a entrada de cooperados na Ciclos ocorre por meio do Sicoob, sistema de crédito cooperativo que reúne mais de um milhão de associados no estado. Nacionalmente, o sistema conta com 10,2 milhões de clientes, segundo os dados apresentados.

A integração entre cooperativas de diferentes segmentos pode facilitar a oferta de novos serviços a públicos que já mantêm vínculos com organizações do mesmo sistema, seja nas áreas financeira, energética ou de outras atividades.

Conectividade rural é uma das principais apostas


A expansão das telecomunicações em áreas rurais e localidades remotas aparece entre as principais oportunidades para o cooperativismo. Essas regiões frequentemente enfrentam dificuldades de cobertura ou apresentam menor atratividade econômica para as operadoras tradicionais.

Segundo Hugo Andrade, coordenador de ramos da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), ainda é cedo para estimar a participação das cooperativas no mercado e o número de usuários que poderão ser atendidos.

“A expectativa é uma atuação complementar ao mercado tradicional, com potencial especialmente relevante em áreas rurais, remotas e localidades de menor atratividade econômica, onde as cooperativas já possuem presença territorial, relacionamento com as comunidades e, em alguns casos, infraestrutura instalada”, afirmou.

As cooperativas de distribuição de energia podem aproveitar parte da estrutura que já possuem para ampliar a oferta de internet e conectividade. A demanda por banda larga rural, inclusive, já foi identificada entre associados e comunidades atendidas por essas organizações.

Recursos do Fust podem impulsionar o setor


A nova legislação também abre caminho para que as cooperativas acessem instrumentos de financiamento destinados às telecomunicações, como o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust).

Gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o fundo financia projetos de expansão da conectividade, especialmente em regiões isoladas ou com baixa cobertura, incluindo iniciativas voltadas a escolas e postos de saúde.

A Coprel já possui experiência com recursos do Fust por meio de sua empresa coligada. Um projeto de R$ 32 milhões levou internet a 64 escolas públicas do interior do Rio Grande do Sul, beneficiando mais de 4,5 mil estudantes e permitindo a implantação de aproximadamente 480 quilômetros de rede.

Outra solicitação, no valor de R$ 54,7 milhões, prevê a instalação de mais 636 quilômetros de redes para atender 105 escolas rurais, com benefícios estimados para cerca de 31 mil alunos.

Em nota, a Anatel afirmou que espera que as cooperativas ampliem a oferta de serviços em regiões e segmentos pouco atendidos pelas prestadoras atuais. A agência destacou que não haverá restrições geográficas para a atuação dessas organizações, que poderão competir em todos os mercados, desde que respeitem as regras aplicáveis ao setor.