Cooperativismo

Cooperativas de crédito projetam crescimento mais moderado no Brasil

Setor superou R$ 1 trilhão em ativos em 2025, mas juros elevados e inadimplência devem desacelerar expansão; Norte e Nordeste aparecem como mercados com potencial de avanço

Por Redação 19/10/2026 13h01
Cooperativas de crédito projetam crescimento mais moderado no Brasil
Cooperativas de crédito projetam crescimento mais moderado no Brasil - Foto: (Foto: Marcos Tosi / Gazeta do Povo)

As cooperativas de crédito brasileiras devem continuar crescendo nos próximos anos, embora em ritmo inferior ao registrado na última década. Após sucessivos anos de expansão acima de 20%, o setor enfrenta um cenário de juros elevados, pressão sobre a renda das famílias e aumento da inadimplência. Mesmo com esses desafios, representantes do segmento avaliam que ainda há espaço para ampliar sua participação no sistema financeiro nacional.

Em 2025, o cooperativismo de crédito ultrapassou R$ 1 trilhão em ativos e reuniu mais de 21 milhões de associados, segundo os dados apresentados no setor. A participação das cooperativas no sistema financeiro brasileiro, porém, permanece em torno de 8%.

Para Cesar Bochi, CEO do Sicredi, uma das principais instituições do segmento, esse percentual está longe de representar o limite de expansão. Fundada há 124 anos no Rio Grande do Sul, a cooperativa dobrou sua base de associados em cinco anos, passando de 5 milhões, em 2021, para mais de 10 milhões em fevereiro de 2026.

“Temos muito espaço ainda, estamos longe do teto”, afirmou o executivo.

Apesar das perspectivas positivas, Bochi prevê um crescimento mais próximo de 10% ao ano no cenário econômico atual, abaixo dos índices superiores a 20% observados no período anterior. Segundo ele, o momento exige cautela para preservar os recursos dos associados e garantir a sustentabilidade das operações.

Referências internacionais mostram potencial


O espaço para expansão fica mais evidente quando o Brasil é comparado a países onde o cooperativismo de crédito tem participação expressiva no mercado financeiro. Na França, instituições cooperativas e mutualistas, como Crédit Agricole, BPCE e Crédit Mutuel, concentram juntas mais de 60% do setor, conforme os números citados no levantamento.

Nos Estados Unidos, as cooperativas de crédito reúnem mais de 145 milhões de membros e administram mais de US$ 2,5 trilhões em ativos, distribuídos por cerca de 4,2 mil instituições. Essas organizações atuam em áreas como financiamento imobiliário, crédito para veículos e empréstimos pessoais.

A Irlanda também aparece como referência, com ampla adesão ao modelo cooperativista. Para Tiago Schmidt, presidente da Sicredi Pioneira, a presença expressiva dessas instituições está relacionada à percepção de valor que os associados encontram no sistema.

Bochi ressalta, contudo, que a expansão das cooperativas brasileiras segue uma lógica diferente da adotada por bancos digitais. Em vez de priorizar apenas o crescimento acelerado por canais virtuais, o modelo busca preservar o atendimento próximo e o relacionamento de longo prazo com os associados.

Indicação ajuda a ampliar a base de associados


A recomendação de clientes é apontada pelo Sicredi como um dos principais motores de crescimento. Segundo Bochi, a confiança construída no relacionamento com os associados contribui para atrair novos participantes.

Embora tenha surgido ligado ao agronegócio, o sistema oferece atualmente cerca de 300 produtos e serviços destinados a diferentes públicos, de pequenos produtores e empreendedores a grandes empresas e pessoas físicas de diversas faixas de renda.

Em 2025, a carteira de crédito do cooperativismo cresceu 13,1%, acima dos 8,5% registrados pelo restante do Sistema Financeiro Nacional, de acordo com os dados citados no material. A comunicação institucional e a divulgação de experiências positivas também são utilizadas para ampliar a presença das cooperativas em regiões onde o modelo ainda é menos difundido.

Norte e Nordeste concentram oportunidades


A distribuição regional dos associados evidencia uma diferença significativa na presença do cooperativismo. Enquanto 26,3% da população da Região Sul está associada a cooperativas, no Nordeste o percentual informado é de apenas 1,6%.

Para Gustavo Freitas, diretor de Crédito e Segmentos do Sicredi, a expansão da fronteira agrícola e a migração de produtores têm contribuído para levar a cultura cooperativista do Sul para outras regiões, especialmente o Centro-Oeste e o Norte. O Nordeste também é apontado como um mercado com potencial de crescimento.

Schmidt avalia que ampliar o conhecimento sobre o funcionamento das cooperativas é fundamental para fortalecer o modelo em localidades onde sua presença ainda é limitada.

Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), citado no material, aponta que a presença de uma cooperativa de crédito em um município está associada a uma redução de aproximadamente 25% no acesso da população local a programas de assistência social. O dado é apresentado como um possível reflexo dos efeitos econômicos da atividade cooperativa, embora a interpretação exija considerar a metodologia e o contexto da pesquisa.

Recursos permanecem nas comunidades


Outro argumento favorável ao modelo é a possibilidade de manter parte maior dos recursos financeiros circulando na própria região. Schmidt cita os 21 municípios atendidos pela Sicredi Pioneira, na Serra Gaúcha, como exemplo dessa dinâmica.

Segundo o dirigente, quase 26% dos recursos financeiros existentes nessas localidades estão depositados na cooperativa. Ele também estima que, caso a instituição não atuasse nesses municípios, um banco tradicional poderia ter obtido R$ 91 milhões em lucros fora da região.

Em encontro com cerca de 60 jornalistas e formadores de opinião de 17 estados, realizado em Nova Petrópolis (RS), considerada o berço do cooperativismo de crédito brasileiro, o Sicredi apresentou dados do Banco Central sobre os benefícios econômicos gerados para seus associados.

De acordo com os números divulgados, a instituição proporcionou R$ 31 bilhões em benefícios econômicos diretos em 2025. O valor corresponde a uma economia média de R$ 3 mil por associado ao longo do ano, atribuída a condições de crédito mais favoráveis e à remuneração das aplicações financeiras.

Mesmo diante de um cenário econômico mais restritivo, as lideranças do setor projetam a continuidade da expansão. A expectativa é avançar de forma sustentável, com atenção especial às regiões brasileiras onde o cooperativismo ainda tem menor participação.