Cooperativismo

Cultivo de cevada avança no Brasil para reduzir dependência de importações

Cooperativa Agrária amplia parcerias no Paraná e em São Paulo para aumentar a oferta nacional do cereal e prevê que 70% da matéria-prima consumida venha de produtores brasileiros nos próximos cinco anos

Por Redação 14/10/2026 11h11
Cultivo de cevada avança no Brasil para reduzir dependência de importações
Cultivo de cevada avança no Brasil para reduzir dependência de importações - Foto: Reprodução

O cultivo de cevada destinada à produção de malte cervejeiro está avançando para novas regiões do Brasil. A expansão busca reduzir a dependência de importações, já que o país consome cerca de 800 mil toneladas do cereal por ano e ainda precisa comprar do exterior metade desse volume.

À frente desse movimento está a Cooperativa Agrária, pioneira na cultura e responsável por duas das maiores maltarias do país. A estratégia combina o desenvolvimento de novas variedades de cevada com parcerias com cooperativas de diferentes regiões, ampliando as áreas de plantio durante o inverno.

“Nosso objetivo para os próximos cinco anos é que 70% do nosso consumo seja de cevada nacional”, afirma James Dondolini, gerente comercial da Agrária.

Para acompanhar o crescimento da oferta, a cooperativa também amplia sua capacidade industrial. A unidade de Entre Rios, em Guarapuava, no Centro-Sul do Paraná, pode produzir aproximadamente 340 mil toneladas de malte, e passa por uma expansão de 80 mil toneladas. Já a Maltaria Campos Gerais (MCG), mantida em parceria com as cooperativas Bom Jesus, Capal, Castrolanda e Frísia, tem capacidade de cerca de 240 mil toneladas.

Conhecimento acumulado desde os anos 1970


A expansão da cevada exige mais do que encontrar novas áreas para o plantio. O cereal precisa de condições climáticas específicas para atingir a qualidade necessária à produção de malte, e os grãos devem atender aos padrões exigidos pelas grandes cervejarias.

A Agrária cultiva cevada desde a década de 1970, quando a produção em Guarapuava atendia à demanda da maltaria da Antártica, posteriormente adquirida pela cooperativa. Desde então, a Fundação Agrária de Pesquisas Agropecuárias (FAPA) desenvolve cultivares voltadas à qualidade cervejeira, além de variedades destinadas à alimentação animal.

Esse conhecimento passou a ser compartilhado com cooperativas parceiras. Uma das primeiras frentes de expansão foi nos Campos Gerais do Paraná e no Sul de São Paulo. Em 2024, a inauguração da Maltaria Campos Gerais permitiu que a produção regional passasse a ser processada na própria unidade.

Parcerias ampliam cultivo em São Paulo e no Paraná


Para abastecer a maltaria de Guarapuava, a Agrária também firmou acordos com a Cooperativa Integrada, no Norte do Paraná, e com a Cooperativa Holambra, em Paranapanema, no interior paulista.

Segundo Bruno Dondolini, gerente agrícola da Agrária, o avanço depende do desenvolvimento de variedades adaptadas às condições de cada região, com maior resistência a doenças. A cooperativa oferece suporte técnico aos produtores e garante a compra de toda a produção, tornando a cevada uma alternativa de renda durante o inverno.

A iniciativa acompanha a expansão da cultura no Paraná. Em 2026, a área plantada no estado chegou a 118 mil hectares, recorde histórico. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de uma colheita de 550 mil toneladas, aproximadamente 88% da produção brasileira. Parte desse volume, porém, não atende às exigências da indústria cervejeira.

Cevada ganha espaço no Norte do Paraná


Em Mauá da Serra, a Cooperativa Integrada começou a testar o cultivo em 2022, com apenas cinco hectares em uma área demonstrativa na propriedade do cooperado Umberto Uemura. Na safra seguinte, a iniciativa já reunia 16 produtores e quase 800 hectares.

Atualmente, a cultura ocupa 5.500 hectares distribuídos em 43 áreas. Neste inverno, chegou também a Arapongas, Rolândia e Tamarana, onde três produtores associados cultivaram aproximadamente 350 hectares na primeira safra da região. A variedade utilizada foi a Princesa, desenvolvida pela FAPA.

O produtor Raul José Cocatto, que colheu 141 sacas por alqueire em sua primeira experiência com o cereal, destaca a facilidade de manejo e a resistência da cultura às chuvas em comparação com o trigo.

Outro aspecto observado é o volume de palha deixado no solo após a colheita. A cobertura favorece o plantio posterior e pode contribuir para melhorar as condições do solo para a soja, cultivada no verão.

A expectativa é que a matéria orgânica acumulada aumente a produtividade da oleaginosa. Além disso, as raízes da cevada ajudam a reciclar nutrientes de camadas mais profundas do solo, que podem ser aproveitados pela cultura seguinte.

A produção do Norte paranaense será recebida e processada pela unidade da Integrada em Mauá da Serra, com compra garantida pela Agrária e destinação à maltaria de Entre Rios.

Recebimento exige estrutura especializada


Para trabalhar com a cevada cervejeira, a unidade da Integrada precisou adaptar equipamentos, treinar funcionários e investir em análises laboratoriais específicas. O cereal exige controle de parâmetros como teor de proteína, presença de toxinas e outras características que influenciam a qualidade do malte.

De acordo com Arthur Ribeiro da Silva, gerente da unidade de Mauá da Serra, o investimento na preparação foi de aproximadamente R$ 500 mil.

O processo exige cuidados especiais desde o recebimento. Os grãos precisam ser separados por lote para manter a homogeneidade da matéria-prima. Na secagem, temperatura e aeração devem ser controladas para preservar a capacidade de germinação, cuja taxa precisa ficar próxima de 95%.

Quando os grãos não atingem os padrões exigidos pela indústria cervejeira, podem ser destinados à produção de ração, que oferece remuneração menor ao produtor.

Sudoeste do Paraná é a próxima fronteira


A Agrária já estuda ampliar o cultivo para o Sudoeste paranaense, onde mantém campos experimentais há cerca de dez anos. O trabalho busca identificar variedades e técnicas de manejo adequadas às condições climáticas locais.

A cooperativa prioriza áreas com altitude superior a 700 metros e temperaturas mais baixas durante a noite no período de enchimento dos grãos, em setembro. Essas condições são consideradas importantes para garantir a qualidade do malte.

Rastreabilidade acompanha toda a cadeia


Além da qualidade do cereal, a Agrária exige rastreabilidade da produção desde a semente até a entrega do malte à indústria. O sistema identifica o talhão cultivado, o produtor responsável e a unidade de processamento, além de incluir o cálculo da pegada de carbono ao longo da cadeia.

A exigência acompanha as metas de redução de emissões estabelecidas por grandes empresas compradoras de malte. Para James Dondolini, a tendência é que a demanda por esse tipo de controle aumente nos próximos anos, tornando a rastreabilidade um requisito cada vez mais importante para os fornecedores.