Cooperativismo

Cooperativas e empresas se unem em prol da reciclagem no Brasil

As pesquisas indicam que 800 mil brasileiros ganham o seu sustento por meio da reciclagem do lixo

Por MundoCoop 14/05/2024 09h09
Cooperativas e empresas se unem em prol da reciclagem no Brasil
Cooperativas e empresas se unem em prol da reciclagem no Brasil - Foto: Reprodução

Sustentabilidade, reciclagem e o tratamento adequado de resíduos passou a ser um dos lemas mais importantes do movimento cooperativista. Não só em função dos benefícios que fazem para o planeta, a comunidade, mas pelas buscas de remunerações mais justas e a possibilidade de inclusão dos catadores.

As pesquisas indicam que 800 mil brasileiros ganham o seu sustento por meio da reciclagem do lixo, porém apenas 7,5% delas fazem parte das cooperativas de catadores. O número é pouco representativo, se levarmos em conta o tempo em que essas organizações atuaram, a partir da década de 90.

As cooperativas de catadores desenvolvem os seus processos operacionais em quatro etapas, que vão desde a coleta, triagem, características do material, prensagens e das vendas. Essas organizações são estruturadas em três patamares, que levam em conta a sua estrutura e produtividade.

Para se ter uma ideia, segundo um levantamento realizado pelo Sistema OCB, o Brasil tem a capacidade de faturar R$1 trilhão com reciclagem de resíduos e pode chegar a 30 milhões de cooperados em 2027. O anuário da OCB, de 2022, apontou que temos 4.880 cooperativas de reciclagem, das quais 2.535 estão no mercado há mais de 20 anos, reúne 18,9 milhões de cooperados e emprega 493 mil pessoas.

No entanto, há muito trabalho a ser feito no setor, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), afirma que produzimos 27,7 milhões de toneladas de resíduos recicláveis em 2021, entre eles os de plásticos, papel e papelão, vidros, metais e embalagens multicamadas.

O problema está longe de ser resolvido, já que cerca de 27% das cidades brasileiras, 1,5 mil municípios, sequer contam com uma coleta seletiva, impactando a destinação final dos resíduos e a extração de recursos naturais.

O Brasil ainda conta com cerca de 2,3 mil lixões a céu aberto, que precisam ser fechados, com a inclusão e reintegração dos catadores e catadoras que trabalham nesses locais.

O Abrelpe, aponta o índice de reciclagem nacional de apenas 4%, abaixo de países com grau de desenvolvimento econômico similar, como Chile, Argentina, África do Sul e Turquia.

Telines Basilio do Nascimento Júnior, o Carioca, diretor da Cooperativa de Coleta Seletiva da Capela do Socorro (Coopercaps), avalia que o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho para tornar a reciclagem inclusiva e socialmente bem-sucedida.

Ele explica que vivemos um cenário de exclusão social, falta de valorização em toda a cadeia, em um mercado que emprega em 70% mulheres, ainda em sua maioria, sem creches para os filhos.

É necessária uma movimentação social e empresarial, já que atualmente o setor envolve apenas a participação de 87% pessoas físicas, e 13% de empresas.

Entram em cena as cooperativas de reciclagem, que têm feito um trabalho expressivo no setor, injetando mais de R$17 bilhões em tributos nos cofres públicos, responsáveis por outros R$18 bilhões entrarem na economia, valores referentes ao pagamento de salários e outros benefícios destinados aos colaboradores.

Planos, programas, campanhas e decretos podem mudar o cenário das cooperativas de catadores


Com a ideia de mudar a situação, no ano passado foi lançado o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), que se propõe a reciclar mais de 100 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia em 2040, envolvendo a reciclagem, compostagem, biodigestão e recuperação energética.

Alguns decretos e Programas, como o Programa Pró-Catador, podem contribuir para uma maior inclusão socioeconômica de catadores e catadoras. Um deles é o do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que iniciou o cadastramento de cooperativas, associações de catadores e de catadoras de materiais recicláveis e reutilizáveis no Sistema Nacional de Informação sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (Sinir).

A iniciativa faz parte da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), que se refere aos serviços de coleta seletiva, triagem, tratamento, reciclagem, compostagem e adequação dos resíduos sólidos em todo o país.

A Câmara Temática da Reciclagem realizou em março, uma reunião para eleger sua nova coordenação e definir o plano de trabalho de 2024. Um dos principais temas abordados foi a questão previdenciária que envolve os profissionais do segmento de reciclagem.

Outras iniciativas têm sido tomadas em vários estados brasileiros, entre eles o primeiro encontro de catadores, promovido pela Associação de Catadores de Material Reciclável de Antônio Pereira (Amrap) na cidade mineira de Ouro Preto.

Durante o evento, foram apresentados os balanços das atividades durante o ano, que chegaram a um faturamento de R$22 mil reais, a comercialização de 37 toneladas de material reciclável e um auxílio mensal de R$500 aos catadores dado pela Prefeitura de Ouro Preto.

Parcerias ajudam na inclusão e no trabalho das cooperativas


Um dos maiores programas de reciclagem inclusiva do Brasil é o Plataforma Reciclar Pelo Brasil – RPB, gerenciado pela Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT). Ele conta com a parceria de 18 empresas, beneficia 245 organizações e atua em 178 cidades. Já recuperou 114.969,90 toneladas, com uma receita de R$87.698.802,82, possibilitando uma renda média aos catadores e catadoras de R$1413,00. O Programa afetou 4.639 (2.529 mulheres e 2.110 homens) de cooperativas atendidas.

Para complementar foi criado o HUB da Cidadania, pela ANCAT em parceria com o Instituto Heineken, que se iniciou em agosto de 2023 na cidade de São Paulo. Até a atualidade, ele já atendeu 500 catadores, em sua grande maioria homens, que tem a catação como principal fonte de renda.

O projeto identificou, que boa parte da renda gerada com a venda de material tem origem no ferro velho, com 90% dos profissionais vendendo sua coleta nesses pontos. Outro projeto de destaque no setor é o Projeto Valoriza, lançado no ano passado, por meio de um piloto incubado pela Cooperativa COOPERLOL, na cidade paulista de Orlândia. O projeto assegura acordos mais justos e inclusivos aos catadores(as) autônomos na coleta e venda dos 56 materiais, oferecendo maior dignidade no trabalho e na renda destes profissionais.

O processo de implementação prevê a comercialização conjunta dos materiais com pagamento a vista, remuneração do curador pelo serviço de coleta seletiva municipal, remuneração adicional a partir de créditos de logística reversa, bem como a disponibilização de EPIs e uniformes aos catadores autônomos.

Roberto Rocha, Presidente da Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), conta que começou a trabalhar como catador aos 19 anos em São Paulo e acompanha de perto os avanços do movimento da reciclagem no país. Ele conta que já viu muita discriminação aos catadores e que hoje a mentalidade tem mudado. Além, dessa vitória, a outra tem sido o envolvimento das empresas na criação de alianças com as cooperativas de catadores.

Um dos exemplos é a parceria da ANCAT com o Sistema Coca-Cola, que pode alavancar a reciclagem no país, e contar com o investimento de R$7 milhões em ações como a criação de centrais para a coleta circular de PET em Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal.

Outras boas parcerias feitas pela empresa com as cooperativas foi a com a Coopercaps, cooperativa paulistana que fornece 300 toneladas de PET por mês para a SustentaPETE. Desde o início da iniciativa, mais de 100 mil toneladas do material foram recicladas. Roberto Rocha, explica que 95% dos materiais produzidos na cadeia da reciclagem passam pelas mãos dos catadores, que são os menos remunerados. “A ANCAT vem fazendo um trabalho para poder motivar e demonstrar a importância dos catadores na cadeia da reciclagem. Nós alimentamos a cadeia da reciclagem através do nosso trabalho, só que muitas vezes estamos na invisibilidade e não somos muito bem remunerados. A ideia é trabalhar outras parcerias para atender em todo o território brasileiro, fortalecendo mais cooperativas. É importante trazer os catadores como parte essencial dessa engrenagem por meio do ESG”, exemplifica.

Para o presidente da ANCAT a política nacional foi um dinamizador da relação das empresas com as cooperativas. Por meio dela, as cooperativas conseguiram mais investimento por meio do setor privado para a construção, compra de equipamentos, caminhões e estruturação.

Startup nordestina gera R$ 2 milhões em renda


A startup nordestina de impacto socioambiental, já contribuiu para a coleta de 800 toneladas de materiais recicláveis, gerando R$2 milhões em renda para cooperativas e catadores de materiais recicláveis. Ela nasceu no Nordeste e tem atuação na Bahia, Ceará, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Atualmente, a SOLOS tem atuado em conjunto com algumas das maiores empresas do Brasil. Ambev, Nubank, iFood, Braskem e Heineken fazem parte das marcas que têm investido em suas soluções. O objetivo dessas companhias é ampliar as taxas de reciclagem de suas embalagens, gerando maior conscientização sobre o tema.

Saville Alves, sócia e líder de negócio da SOLOS conta que a companhia apoia territórios e marcas a superarem seus desafios de economia circular, promovendo o descarte correto das embalagens pós-consumo, através das suas frentes de conteúdos e experiências, sistemas inteligentes de coleta e gestão de resíduos de eventos de grande porte.

“Atuamos para que o cidadão descarte corretamente os resíduos recicláveis, os territórios tenham infraestruturas e logísticas de coleta mais eficientes, as cooperativas ganhem empoderamento financeiro e a indústria garanta adicionalidade de massa reciclada, diminuindo o uso de matéria-prima virgem. Assim fazemos a vida de todos os melhores: dos catadores às tartarugas marinhas”, exemplifica.

Essas iniciativas da SOMOS têm sido fundamentais para o país, já que somos o quarto maior gerador de lixo do planeta e reciclamos apenas 5%. A sócia e líder de negócio da SOLOS lembra que é preciso profissionalizar essa cadeia, cortar as informalidades e contradições.

“Entendemos que o cooperativismo tem um papel importante para transpormos essa realidade. Na SOLOS, consideramos as cooperativas de reciclagem nossos fornecedores-chave, pois a partir da contratação delas é possível garantir a coleta, separação e reintrodução na indústria das embalagens pós-consumo. Através da organização das cooperativas é possível garantir direitos para os trabalhadores, é possível ter acesso a recursos que dêem melhores condições de trabalho. Temos diversas operações entre SOLOS e Cooperativas que vemos essa melhoria acontecer”, lembra.

Ela dá como um dos exemplos, a Cooperaguary, uma cooperativa que teve contato em 2018, em um galpão, de piso de terra batida, sem telhado, localizado na periferia de Salvador. “Ao longo de quatro anos de trabalho em conjunto, ela além de ter conseguido melhorar a infraestrutura, passou a participar do programa Ser + da Braskem, está em vias de receber um novo galpão com capacidade 10x maior, se regularizou e tem contrato com o poder público. Isso demonstra o amadurecimento que juntas geramos”, conta.

A Startup já conseguiugerar mais de R$3,6 milhões de reais para os catadores e cooperativas de reciclagem, fruto do pagamento pelos serviços ambientais dessas organizações e pelo aumento do volume de cargas que chegam para elas a partir de nossas operações em conjunto. “Junto com o empoderamento financeiro vêm uma série de elementos fundamentais: dignidade, melhoria da gestão, aumento do quadro de cooperados. Para nós os aprendizados também são inúmeros: a logística do mercado de reciclagem, variações nos preços, o perfil das indústrias compradoras, os desafios de estocagem”, finaliza.

Prolata recicla 8,7 mil toneladas e tem parceria com 74 cooperativas de catadores


Outra organização que tem investido na parceria com as cooperativas de reciclagem é a Prolata, uma entidade sem fins lucrativos com foco na reciclagem de embalagens de aço.

Atualmente, ela tem parceria com 74 cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis, que estão espalhadas por 17 dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

Thais Fagury é presidente-executiva da Associação Brasileira de Embalagem de Aço (Abeaço) e da Prolata Reciclagem, diz que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei 12.305/2010, prioriza a participação de Cooperativas ou de outras formas de associação de catadores e catadoras de materiais recicláveis para execução de logística reversa.

“O Prolata Cooperativas é um dos pilares para norteamento e execução das atividades da Prolata O pilar cooperativo concentra os investimentos do Prolata em ações socioambientais. Para tanto, a cadeia de valor de embalagens de aço se comprometeu a realizar investimentos junto às Cooperativas, com o objetivo principal de aumentar a capacidade das cooperativas receberem e criarem embalagens de aço por meio de investimentos em regularização, gestão, produtividade, saúde, segurança e capacitação das cooperativas”, conta.

Atualmente, o Programa conta com a parceria de 80 cooperativas em todo o território nacional, atendendo mais de 1.900 catadores.

“O trabalho em conjunto com as cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis é de suma importância, já que, além da premissa ser preconizada pela própria PNRS, as cooperativas são os atores principais para a triagem e segregação dos resíduos de embalagens. No caso da Prolata, o trabalho de apoio com objetivo de formalizar as cooperativas parceiras também tem sido um diferencial para que elas consigam avançar, principalmente, em novas parcerias”, finaliza Fagury.