Ciência, tecnologia e inovação

Brasil entra na era dos games: regulamentação impulsiona indústria nacional

Para o professor e doutor em história da Universidade Federal Fluminense (UFF), Christiano Britto, especialista em games

Por Sputnik Brasil 21/10/2026 11h11
Brasil entra na era dos games: regulamentação impulsiona indústria nacional
Foto: © AP Photo / Frank Augstein

A regulamentação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, sancionada pelo governo Lula, inaugura uma nova fase para a indústria de games no Brasil. A medida traz incentivos à produção nacional, fomenta a formação profissional e estimula a expansão internacional, com o objetivo de fortalecer o potencial econômico do setor e criar um ecossistema próprio no país.

Para o professor e doutor em história da Universidade Federal Fluminense (UFF), Christiano Britto, especialista em games, a iniciativa representa um avanço importante para os produtores brasileiros, que buscam independência do mercado externo.

"Os produtores de videogames são muito preocupados com essa estabilidade, eles querem produzir no Brasil. E, frequentemente, ficam dependentes de um mercado externo que não lhes dá estabilidade e não lhes proporciona determinadas patentes e autorias. Esse marco legal dos videogames é fundamental para termos uma identidade produtiva e para termos uma circularidade técnica de aprendizagem", explica Britto.

O pesquisador ressalta que a iniciativa do Governo Federal atende ao desejo dos desenvolvedores brasileiros de consolidar um mercado interno forte, capaz de movimentar diversos setores produtivos e gerar empregos qualificados.

"Essa iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito positiva para a indústria produtora de videogames no Brasil. Ela é fruto de uma série de lutas, não foi ele que decidiu simplesmente, existe uma série de grupos como Abragames, a nível Brasil, nós temos também a Associação de Produtores de Videogames no Rio de Janeiro", afirma.

Profissionalização e fuga de talentos

Outro aspecto destacado por Britto, a partir de sua vivência com estudantes de diferentes idades, é a evasão de talentos para o exterior. Jovens interessados em se profissionalizar na área de games, diante da escassez de oportunidades no Brasil, acabam buscando espaço no mercado internacional.

"Como trabalho na UFF, onde tenho disciplinas de produção de roteiro de videogames, e um discurso constante é que, quando se pega uma garotada que está querendo trabalhar na área dos games, e nós que somos professores e temos contato com as escolas, a pessoa sabe, com 11 anos de idade, que ela quer ser produtora de videogames e chega a dizer: 'Terei que ir embora do país'", relata.

Segundo o especialista, investir na indústria de jogos pode oferecer ao Brasil um ativo estratégico mais valioso do que a exportação de commodities. O desenvolvimento científico e tecnológico impulsionado pelo setor agrega valor à economia e conecta diferentes áreas do conhecimento.

"Sou embaixador da Olimpíada Nacional de Empreendedorismo, que, na sua primeira edição, [teve] um milhão e 200 mil jovens. Então nós temos jovens querendo criar sua empresa. E para evitarmos uma colonização digital é necessário que o empreendedorismo, por exemplo, seja acompanhado de valor agregado. E o que traz valor agregado? Desenvolvimento científico", observa.

Games e novas perspectivas de mundo

Britto, autor do artigo "Inimigo que era aliado: a representação ambígua da União Soviética e do Exército Vermelho nos videogames Medal of Honor e Call of Duty", publicado na obra "A Segunda Guerra Mundial e seus momentos decisivos", destaca que o contato com os games amplia a formação dos estudantes e insere-os em dinâmicas que complementam o ensino formal.

"Frequentemente os alunos sabem de capitais e de tratados internacionais a partir dos videogames. Às vezes, tem um jogo de guerra. Claro que não é só videogame, tem também a mídia televisiva, mas é muito interessante isso. Essa garotada, que é do fundamental e do ensino médio, quando vê o Marco Legal, passa a enxergar que o Estado brasileiro está investindo em uma estrutura", conclui.

A expansão dos videogames no Brasil vai além do entretenimento. Em um cenário globalizado, a indústria injeta capital na economia, estimula a inovação e permite que o país construa e compartilhe sua própria narrativa cultural por meio dos jogos.

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