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Iniciativa chinesa em IA pode descentralizar o poder das big techs

Por Sputnik Brasil 29/07/2026 12h12
Iniciativa chinesa em IA pode descentralizar o poder das big techs
Foto: © AP Photo / Ng Han Guan

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma revolução corporativa e passou a ser peça-chave na disputa geopolítica contemporânea. Enquanto os Estados Unidos buscam conter o avanço tecnológico da China, Pequim responde com a criação da WAICO (Organização Mundial de Cooperação em IA), reunindo países como Brasil e Rússia entre os fundadores.

Segundo Renato Peneluppi Jr., analista político e doutor em administração pública pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, a WAICO surge como organismo multilateral para democratizar a discussão sobre os impactos da IA no Sul Global.

"É um processo interessante que a China está liderando ao propor uma sede para criar multilateralismo e participação coletiva no destino da IA. O mais relevante é que não se trata de uma imposição de regras pela China, mas de um convite aos demais países do Sul Global para participarem, apontarem riscos e criarem normativas conjuntas", explica.

Peneluppi destaca as diferenças de abordagem entre China e Estados Unidos no desenvolvimento da IA. Enquanto Pequim adota uma perspectiva centrada no ser humano, os EUA, por meio das big techs, mantêm foco no mercado e no setor privado.

"Os EUA buscam pautar a IA com uma visão de mercado e liberal. A China, por outro lado, propõe uma perspectiva mais coletivista e multilateral, incluindo outras nações e mantendo o ser humano no centro da discussão. Esse é um contraponto importante", afirma o analista.

Novos empregos serão gerados com o avanço da IA

Peneluppi, que reside em Pequim e preside o Conselho dos Cidadãos Brasileiros na China, ressalta que o 15º Plano Quinquenal chinês prevê a criação de cerca de 12 milhões de empregos anuais devido ao avanço da IA — um desafio relevante para o país.

"O debate sobre trabalho é intenso na China. O plano quinquenal aponta a necessidade de gerar 12 milhões de empregos anuais, número equivalente aos jovens que ingressam no mercado. A China vê a IA como instrumento para geração de empregos, não como ameaça", destaca.

O pesquisador também relata como a IA já faz parte do cotidiano chinês, desde automóveis autônomos para transporte de passageiros até operações de mineração realizadas por robôs, reduzindo riscos para trabalhadores.

"A China utiliza a IA para criar novas oportunidades de emprego. Em 2023, visitei uma mina de carvão onde toda a mineração e transporte de cargas pesadas, atividades de alto risco, já eram realizadas por robôs, com apoio do 5G", observa Peneluppi.

Iniciativa coloca o Sul Global no centro do debate sobre IA

Para Peneluppi, a WAICO representa uma oportunidade para que países do Sul Global participem ativamente das discussões geopolíticas sobre inteligência artificial, atualmente dominadas por poucos atores.

"O Sul Global, por meio da WAICO, dá um passo importante para disputar a IA como ativo estratégico. Hoje, muitas empresas privadas já detêm mais poder sobre a IA do que várias nações do Sul Global. O desafio é transformar a IA em ferramenta de emancipação, evolução e desenvolvimento nacional", conclui.

Com a transformação constante da economia global, a inteligência artificial tornou-se fundamental não apenas para setores produtivos, mas também para o campo político. O domínio dessa tecnologia confere vantagens geopolíticas decisivas, tornando a cooperação multilateral essencial para mitigar monopólios e buscar o equilíbrio do poder internacional.