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Cientistas da Fiocruz avançam no desenvolvimento de vacina completa contra a Malária

Pesquisa identifica proteínas do parasita que podem ampliar a proteção contra diferentes espécies e fases da doença

Por Agência Brasil 02/07/2026 08h08
Cientistas da Fiocruz avançam no desenvolvimento de vacina completa contra a Malária
Pesquisa indica potencial para um imunizante com proteção mais ampla contra diferentes espécies da doença - Foto: Agência Brasil

Cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deram um passo decisivo rumo ao desenvolvimento de uma vacina mais completa contra a malária. Pesquisadores identificaram um conjunto inédito de fragmentos de proteínas do parasita Plasmodium, capazes de viabilizar um imunizante que proteja contra diferentes espécies do protozoário e atue em várias fases da doença. A descoberta foi publicada nesta quarta-feira (1º) na revista Nature.

O estudo apostou em uma abordagem inovadora para entender como o sistema imunológico reconhece o parasita causador da malária. Em vez de focar apenas na produção de anticorpos, como ocorre nas vacinas atuais, a equipe investigou o papel dos linfócitos T CD8+, células de defesa capazes de identificar e destruir diretamente as células infectadas.

“Há mais de 50 anos se busca desenvolver uma vacina contra a malária e, só recentemente, tivemos aprovados imunizantes com eficácia limitada, voltados principalmente para o P. falciparum e para crianças. Um dos principais desafios sempre foi encontrar bons alvos vacinais”, explica a pesquisadora Caroline Junqueira, da Fiocruz Minas, coordenadora do estudo.

Segundo ela, o diferencial da pesquisa foi mostrar que as células T CD8+ também desempenham papel central no combate ao parasita e identificar quais proteínas são reconhecidas pelo sistema imune.

A investigação foi realizada em etapas. Inicialmente, os cientistas identificaram 453 peptídeos, pequenos fragmentos de proteínas do parasita, derivados de 166 proteínas, exibidos na superfície das células infectadas e reconhecidos pelos linfócitos T CD8+. A maioria desses fragmentos provém de proteínas chamadas housekeeping, essenciais para a sobrevivência do parasita.

“Essas proteínas são necessárias em todos os estágios do ciclo de vida do parasita e altamente conservadas entre diferentes espécies. Isso as torna alvos muito interessantes para uma vacina universal”, explica Caroline. Na prática, uma vacina baseada nesses alvos teria mais chances de funcionar de forma ampla, atingindo o parasita em diferentes momentos da infecção e em suas diversas variantes.

Resposta imune

Na etapa seguinte, a equipe testou se esses peptídeos realmente eram reconhecidos e combatidos pelo sistema imune. Os resultados mostraram que células de pacientes infectados, tanto por P. vivax quanto por P. falciparum, reagiram aos antígenos identificados.

Além disso, a resposta foi observada em outras três espécies de Plasmodium, incluindo aquelas que infectam primatas e camundongos. “Confirmamos a resposta imunológica em cinco espécies diferentes e em múltiplos hospedeiros, incluindo humanos naturalmente infectados, humanos submetidos à infecção experimental e modelos animais, tanto em camundongos quanto em primatas”, detalha Caroline.

Os testes foram realizados em amostras humanas e em modelos experimentais. Em primatas e camundongos, os antígenos também induziram resposta de células T, inclusive em órgãos-chave como o fígado, onde ocorre a etapa inicial da infecção, e no sangue. Em modelos animais, alguns desses alvos demonstraram efeito protetor, reduzindo a carga do parasita.

“Não é só reconhecimento: vimos indícios de proteção, o que é fundamental para o desenvolvimento de uma vacina”, ressalta a pesquisadora.

Diferencial

Atualmente, as vacinas disponíveis contra a malária têm eficácia parcial e são direcionadas principalmente ao P. falciparum, atuando na fase inicial da infecção. Além disso, sua proteção tende a diminuir com o tempo.

O novo estudo aponta para um caminho diferente: uma vacina capaz de atuar em múltiplos estágios do parasita, tanto no fígado quanto no sangue, e eficaz contra diferentes espécies.

“Hoje, as vacinas não cobrem completamente todas as fases da infecção. Nosso trabalho mostra que esses antígenos estão presentes em vários momentos, o que atende a uma demanda importante da Organização Mundial da Saúde”, afirma Caroline.

Apesar do avanço, ainda há um longo caminho até o desenvolvimento de um imunizante. Os achados precisam passar por novas etapas de validação e testes clínicos.