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Lagarto africano evoluiu em Fernando de Noronha

Animal desenvolveu estratégia reprodutiva rara e encara desafios na ilha

Por Redação com Metrópoles Ciência 12/06/2026 10h10
Lagarto africano evoluiu em Fernando de Noronha
Mabuia-de-Noronha - Foto: The Conversation

Quem visita o arquipélago de Fernando de Noronha logo percebe a presença constante de um pequeno lagarto que circula por trilhas, áreas urbanas e formações rochosas. Conhecida como mabuia-de-Noronha, a espécie chama a atenção não apenas pela abundância, mas também por sua história evolutiva singular e por uma estratégia reprodutiva considerada uma das mais lentas entre seus parentes.

Pesquisas recentes revelaram que esse lagarto apresenta características reprodutivas incomuns, provavelmente desenvolvidas ao longo de milhões de anos em um ambiente insular relativamente estável. No entanto, as mesmas adaptações que favoreceram sua sobrevivência no passado podem representar um desafio diante das transformações ambientais atuais.

Origem africana em território brasileiro


Apesar de habitar uma ilha brasileira, a mabuia-de-Noronha possui parentes próximos em linhagens originárias da África. A principal hipótese dos pesquisadores é que os ancestrais da espécie chegaram ao Atlântico Sul por dispersão transoceânica, possivelmente transportados em massas flutuantes de vegetação levadas por correntes marítimas.

Após alcançarem o arquipélago, esses animais permaneceram isolados por um longo período, evoluindo sob condições bastante diferentes das encontradas no continente africano.

A influência da vida em ilhas


Ambientes insulares costumam funcionar como verdadeiros laboratórios naturais da evolução. Com menos espécies, menor presença de predadores e recursos limitados, as populações desenvolvem adaptações específicas para sobreviver.

Nessas condições, produzir muitos descendentes nem sempre é a estratégia mais eficiente. Em vez disso, algumas espécies investem mais energia em poucos filhotes, aumentando suas chances de sobrevivência em ambientes onde a competição por recursos é intensa.

Poucos ovos e reprodução espaçada


Ao analisar indivíduos observados em campo, exemplares preservados em coleções científicas e animais mantidos em zoológicos, os pesquisadores identificaram um padrão reprodutivo bastante particular.

A reprodução ocorre principalmente durante a estação seca e nem todas as fêmeas se reproduzem todos os anos. Os dados indicam que muitas delas podem gerar descendentes apenas a cada dois ou três anos.

Quando ocorre a reprodução, cada fêmea produz apenas dois ovos por postura, número considerado extremamente baixo para lagartos desse grupo. Em compensação, os ovos são relativamente grandes em comparação ao tamanho do corpo da mãe, demonstrando elevado investimento em cada filhote.

Mudanças ambientais preocupam pesquisadores


Durante grande parte de sua história evolutiva, a mabuia-de-Noronha viveu em um ambiente com poucos predadores naturais. Entretanto, a ocupação humana trouxe novas ameaças ao arquipélago.

Atualmente, a espécie convive com predadores introduzidos, como gatos domésticos, ratos, garças e o teiú, além dos impactos causados pela urbanização e pelo aumento da circulação de pessoas.

Espécies com reprodução lenta costumam apresentar maior dificuldade para recuperar suas populações após perdas significativas. Por isso, especialistas alertam que características que foram vantajosas no passado podem reduzir a capacidade de adaptação diante das mudanças rápidas observadas atualmente.

Embora não existam indícios de risco imediato para a espécie, os pesquisadores destacam que compreender sua biologia e seu comportamento reprodutivo é essencial para monitorar sua situação e orientar futuras ações de conservação.