Ciência, tecnologia e inovação
Crânio infantil revela cirurgia realizada há 4 mil anos
Achado no Uzbequistão aponta possível procedimento de trepanação em criança de cinco anos e evidencia conhecimentos médicos avançados na Ásia Central
Arqueólogos encontraram em Djarkutan, no sul do Uzbequistão, o crânio de uma criança de aproximadamente 4.000 anos com claros sinais de intervenção cirúrgica, configurando o mais antigo registro de trepanação já identificado na Ásia Central.
A sepultura, pertencente a uma criança de cerca de cinco anos, foi descoberta ao lado dos restos mortais de outra criança mais nova. O crânio da mais velha apresenta uma abertura cirúrgica feita de maneira intencional, provavelmente utilizando ferramentas de pedra ou osso, segundo análise de uma equipe conjunta de universidades do Uzbequistão e da Itália.

A prática da trepanação, comum em várias culturas antigas, podia ter objetivos médicos — como tratar doenças neurológicas ou traumas — ou rituais, associando cura à espiritualidade. Em Djarkutan, a motivação para a cirurgia pode estar ligada tanto a questões de saúde quanto a interpretações simbólicas das enfermidades.
O achado surpreendeu pesquisadores pela raridade: intervenções cirúrgicas em crianças pequenas desse período são extremamente incomuns, indicando que alguns habitantes detinham conhecimento anatômico avançado e elevado status social para realizar procedimentos de alto risco.
Djarkutan era um dos principais centros urbanos da civilização do Oxus, caracterizada por agricultura irrigada, artesanato especializado e extensas redes de troca que conectavam o Uzbequistão ao Irã, Afeganistão e Vale do Indo. O sepultamento reforça a complexidade social e o domínio técnico da população local há quatro milênios.
Situada na região de Surkhan Darya, Djarkutan integrava um importante corredor cultural, por onde circulavam ideias, materiais e tecnologias muito antes da famosa Rota da Seda. A cirurgia craniana pode refletir tradições médicas locais ou influências externas, levantando questões sobre quem realizou o procedimento e seu papel na comunidade.
O projeto arqueológico, iniciado em 2024, reúne especialistas de diferentes áreas para reconstruir o cotidiano, as condições de saúde e as práticas funerárias de Djarkutan, além de estabelecer conexões com pesquisas realizadas no Irã.
Novos estudos paleogenéticos e antropológicos previstos para os próximos meses devem trazer respostas sobre a identidade dos protagonistas desse intrigante capítulo da pré-história asiática.


