Ciência, tecnologia e inovação

Nova corrida espacial vira aposta estratégica para países latino-americanos

Empresas privadas e missões menores ampliam participação de países emergentes na área espacial

Por Redação 28/05/2026 14h02 - Atualizado em 28/05/2026 14h02
Nova corrida espacial vira aposta estratégica para países latino-americanos
Especialistas avaliam que a região pode se tornar referência em tecnologia, observação espacial e nanosatélites. - Foto: Instagram / rubin_observatory

Enquanto potências mundiais disputam influência e recursos na nova corrida espacial, a América Latina tenta consolidar seu espaço em áreas estratégicas como observação astronômica, nanosatélites,tecnologia espacial e logística para lançamentos. Especialistas apontam que, mesmo distante da disputa por bases na Lua ou em Marte, a região reúne vantagens naturais, capital humano e potencial tecnológico capazes de ampliar sua relevância no setor.

A nova corrida espacial deixou de ser apenas uma competição científica entre governos e passou a envolver interesses econômicos, mineração espacial e atuação de empresas privadas. Nesse cenário, cresce o chamado "News Space", modelo baseado em negócios espaciais mais acessíveis, impulsionados por startups, microssatélites e tecnologias de menor custo.

Segundo o pesquisador César Bertucci, ligado à Universiade de Buenos Aires, o desenvolvimento espacial latino-americano ainda é bastante desigual.

“a ‘corrida’ espacial não está inserida na competição entre Estados. O nível de desenvolvimento espacial da região apresenta uma grande diversidade, com países mais e menos avançados”, afirmou à DW.

Apesar das limitações, especialistas enxergam oportunidades importantes no crescimento do setor privado espacial. Para Gustavo Medina, o NewsPace reduziu barreiras que antes restringiam missões espaciais apenas às grandes agências internacionais.

“O NewSpace abre um grande leque de oportunidades. Outra questão é se os países emergentes, especialmente na América Latina, serão capazes ou terão a visão de aproveitá-las”, destacou.

A equipe liderada por Medina lançou em 2024 a missão Colmena 1, enviada a partir do Cabo Canaveral, nos Estados Unidos. Embora os robôs não tenham conseguido pousar na Lua por problemas externos, o projeto conseguiu validar tecnologias desenvolvidas no méxico.

“enviamos uma missão além da órbita lunar, a mais de 400 mil quilômetros da Terra, validando nossa tecnologia. Isso era impossível há 20 anos. Era algo que apenas grandes agências espaciais como Nasa, Jaxa [Japão] ou ESA podiam fazer”, relatou.

Os planos continuam avançando. Para 2028, está prevista a missão Colmena 2, voltada à prospecção mineral lunar com enxames de microrrobôs.

Geografia estratégica atrai interesse global

Além da tecnologia, a localização geográfica da América Latina é vista como uma vantagem competitiva importante.

O Centro Espacial de Alcântara, no Brasil, é considerado um dos melhores pontos do planeta para lançamentos espaciais devido à proximidade com a Linha do Equador, fator que reduz custos operacionais.

Já países como Chile e Argentina possuem céus considerados ideias para observação astronômica profunda, atraindo grandes investimentos internacionais em observatórios científicos.

A astrofísica Lauren Flor Torres afirma que a região não deve ser vista apenas como fornecedora de território para projetos estrangeiros.

“Não nos limitamos simplesmente a ’emprestar o céu’ ou o território”, afirmou.

Ela cita como exemplo o Observatório Vera Rubin, financiado com capital estrangeiro, mas estruturado para beneficiar também pesquisadores locais.

“a América Latina deixa de ser apenas um anfitrião logístico para se consolidar como um centro global de inteligência e desenvolvimento tecnológico”, ressaltou.

Uma corrida espacial voltada para problemas reais.


Diferentemente das grandes potências, o foco latino-americano está menos ligado à conquista de outros planetas e mais à aplicação prática da tecnologia espacial na Terra.

Nanosatélites, por exemplo, podem ser usados para monitorar queimadas, secas, desmatamento e atividades agrícolas, além de auxiliar em previsões climáticas e no gerenciamento ambiental.

“A nossa é uma corrida com os pés na Terra. Não precisamos de foguetes gigantes neste momento para provar capacidade; precisamos usar o espaço como ferramenta estratégica para resolver problemas urgentes aqui embaixo”. resumiu Torres.

Medina concorda: “não precisamos de astronautas indo à Lua. Prefiro mil engenheiros capazes de desenvolver uma atividade espacial comercial”.

Desafios incluem fuga de talentos e falta de continuidade

Apesar do potencial, especialistas alertam que a região ainda enfrenta obstáculos históricos, como a evasão de pesquisadores e a falta de investimentos contínuos em ciência e tecnologia.


“A evasão de talentos é historicamente um grande problema na América Latina. Na Argentina foi particularmente grave, e no México também tem impacto”, alerta Medina.

Segundo Lauren Flor Torres, o avanço do setor depende de políticas públicas duradouras e menos vulneráveis às mudanças políticas.

“Só se conseguirmos desvincular o investimento em ciência e tecnologia da polarização política poderemos garantir que os projetos espaciais na América Latina não sejam esforços isolados de quatro anos, mas a base de um desenvolvimento econômico e educacional sólido para as próximas gerações”, conclui.