Ciência, tecnologia e inovação

Estrutura oculta na Via Láctea pode mudar o que sabemos da galáxia

Pesquisadores canadenses criaram uma das imagens mais detalhadas já feitas do campo magnético galáctico e identificaram uma estrutura incomum no Braço de Sagitário.

Por Redação 21/05/2026 14h02
Estrutura oculta na Via Láctea pode mudar o que sabemos da galáxia
Estudos apontam que estruturas magnéticas invisíveis ajudam a sustentar a galáxia e influenciam sua evolução ao longo do tempo. - Foto: Reprodução/ Phys.org

Uma descoberta feita por pesquisadores da Universidade de Calgary, no Canadá, pode transforamar o entendimento científico sobre a estrutura da Via Láctea. Ao analisar o campo magnético da galáxia com um novo radio telescópio, os cientistas identificaram uma torção magnética incomum na região do Braço de Sagitário, revelando detalhes inéditos sobre a dinâmica galáctica.

Os resultados foram publicados neste mês em dois estudos nas revistas científicas The Astrophysical Journal e The Astrophysical Journal Supplement Series. As pesquisas apresentam tanto um novo banco de dados para a comunidade científica quanto um modelo que tenta explicar como o campo magnético da Via Láctea mudou ao longo do tempo.


Segundo a professora do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Calgary, Jennifer Brown, compreender esse campo invisível é essencial para entender a própria estabilidade da galáxia.


“Sem um campo magnético, a galáxia entraria em colapso sobre si mesma por causa da gravidade”, afirmou. “Precisamos saber como é o campo magnético da galáxia agora, para criar modelos precisos que prevejam como ele vai evoluir.”


Para desenvolver o estudo, os pesquisadores utilizaram um novo telescópio instalado no Dominion Radio Astrophysical Observatory, na Colúmbia Britânica, estrutura operada pelo Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá. O equipamento permitiu observar o céu do Hemisfério Norte em diferentes frequências de rádio, oferecendo um nível de detalhamento considerado inédito.


“A cobertura ampla realmente permite chegar aos detalhes sobre a estrutura do campo magnético”, explicou a doutora Anna Ordog, autora principal de um dos estudos.


As informações coletadas passaram a integrar o Global Magneto-Ionic Medium Survey, iniciativa internacional voltada ao mapeamento detalhado do campo magnético da Via Láctea. O levantamento fornece aos cientistas uma visão mais precisa das estruturas invisíveis que atravessam a galáxia.


A equipe utilizou um fenômeno chamado rotação de Faraday para detectar essas estruturas. O efeito acontece quando ondas de rádio atravessam regiões preenchidas por elétrons e campos magnéticos, sofrendo alterações em sua trajetória.


“Você pode pensar nisso como refração. Um canudo em um copo d’água parece torto por causa de como a luz interage com a matéria”, explicou Rebecca Booth, doutoranda e autora principal do segundo estudo. “A rotação de Faraday é um conceito semelhante, mas envolve elétrons e campos magnéticos no espaço interagindo com ondas de rádio.”


Ao analisar essas mudanças, os cientistas conseguiram rastrear regiões magnéticas ocultas espalhadas pela galáxia. Uma das descobertas mais relevantes envolve o chamado Braço de Sagitário, onde o campo magnético parece mudar completamente de direção.


“Se você pudesse olhar para a galáxia de cima, o campo magnético geral estaria no sentido horário”, disse Brown. “Mas, no Braço de Sagitário, ele está no sentido anti-horário. Não entendíamos como a transição ocorria. Então, um dia, Anna trouxe alguns dados, e eu pensei: ‘Meu Deus, a reversão é diagonal!’”


A partir dessa observação, Rebecca Booth desenvolveu um modelo tridimensional capaz de explicar o fenômeno identificado pela equipe.


“Meu trabalho apresenta um novo modelo tridimensional para a reversão do campo magnético. Da Terra, isso apareceria como a diagonal que observamos nos dados”, afirmou.


Os pesquisadores acreditam que a descoberta pode ajudar a compreender de forma mais profunda como as galáxias evoluem e como estruturas magnéticas influenciam a organização do universo ao longo de bilhões de anos.