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Cientistas estariam buscando vida alienígena de maneira errada

O estudo indica que o fracasso do projeto está relacionado à sinais que passam despercebidos

Por Redação 26/03/2026 10h10
Cientistas estariam buscando vida alienígena de maneira errada
Projeto SETI - Foto: Reprodução

Um estudo recente do Instituto SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre em inglês) indica que sinais de possíveis civilizações extraterrestres podem estar chegando à Terra distorcidos e, por isso, passando despercebidos pelos sistemas atuais de detecção. A pesquisa foi publicada na revista The Astrophysical Journal.

Há décadas, o SETI busca vida inteligente fora da Terra analisando sinais de rádio de banda ultraestreita, emissões extremamente precisas que dificilmente seriam produzidas por fenômenos naturais. A estratégia parte da hipótese de que uma civilização tecnológica utilizaria esse tipo de sinal para anunciar sua presença no cosmos. No entanto, até hoje, nenhum sinal conclusivo foi identificado.

Segundo o novo estudo, o problema pode não estar na ausência dessas transmissões, mas na forma como elas chegam até nós. Pesquisadores indicam que o chamado “clima espacial”, conjunto de fenômenos como ventos estelares e ejeções de plasma, pode distorcer os sinais antes mesmo que eles deixem o sistema de origem.

De acordo com o astrônomo Vishal Gajjar, autor principal do estudo, um sinal originalmente concentrado em uma frequência muito precisa pode se espalhar por várias frequências ao atravessar o ambiente turbulento ao redor de sua estrela. “Se um sinal se alarga por causa do ambiente de sua própria estrela, ele pode ficar abaixo dos nossos limites de detecção, mesmo que esteja lá”, afirmou.

Para investigar o fenômeno, a equipe analisou sinais de rádio enviados por sondas espaciais humanas, como Mariner 4, Pioneer 6, Helios 1, Helios 2 e as sondas Viking. Os dados mostraram que esses sinais também sofreram alargamento espectral ao atravessar o ambiente do Sol, especialmente durante tempestades solares.

Com base nessas observações, os cientistas desenvolveram modelos que simulam o comportamento de sinais em outros sistemas estelares. Os resultados indicam que cerca de 70% dos sistemas provocariam algum nível de distorção em sinais estreitos, enquanto aproximadamente 30% poderiam causar alterações mais intensas. Em frequências mais baixas, o efeito tende a ser ainda mais significativo.

O estudo destaca que estrelas do tipo M, conhecidas como anãs vermelhas, que representam cerca de 75% das estrelas da Via Láctea, podem intensificar esse processo. Mais ativas que o Sol, essas estrelas criam ambientes propícios para distorções ainda maiores nos sinais.

Embora a chance de uma ejeção de massa coronal coincidir exatamente com a detecção de um sinal artificial seja considerada baixa (menos de 3%), os pesquisadores afirmam que, nesses casos, o alargamento pode ser até mil vezes maior do que em condições normais.

Diante disso, o estudo propõe mudanças nas estratégias de busca por inteligência extraterrestre, como a ampliação dos critérios de detecção e maior foco em frequências de rádio mais altas, menos suscetíveis à distorção. A pesquisadora Grayce C. Brown, coautora do trabalho, destaca que compreender esse efeito permite adaptar melhor os métodos de busca ao que efetivamente chega à Terra.

Os resultados não resolvem o chamado Paradoxo de Fermi, que questiona por que ainda não encontramos evidências de vida inteligente no universo, mas indicam que parte desse “silêncio” pode ser explicada por limitações na forma como buscamos esses sinais.