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Estudo detalha diferenças entre sintomas da febre do Oropouche e da dengue

Existem diferenças importantes, nem sempre facilmente identificadas pela equipe clínica

Por Agência Brasil 01/02/2026 10h10 - Atualizado em 01/02/2026 18h06
Estudo detalha diferenças entre sintomas da febre do Oropouche e da dengue
Febre do Oropouche ganhou notoriedade nacional em 2024 - Foto: Reprodução

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros durante um surto de febre do Oropouche no país em 2024 busca auxiliar no diagnóstico e diferenciação dos sintomas entre essa doença e a dengue, especialmente em regiões onde ambas circulam simultaneamente.

Intitulado Perfis clínicos e laboratoriais da doença do vírus Oropouche no surto de 2024 em Manaus, Amazônia Brasileira e publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases, o estudo aponta que os sintomas da febre do Oropouche são bastante semelhantes aos da dengue.

No entanto, segundo Maria Paula Mourão, médica pesquisadora da Rede Colaborativa de Vigilância Ampliada e Oportuna (Revisa), existem diferenças importantes, nem sempre facilmente identificadas pela equipe clínica.

"No Oropouche, a dor de cabeça costuma ser mais intensa, as dores articulares são mais frequentes e as manchas na pele tendem a ser mais disseminadas. Também observamos alterações laboratoriais mais significativas, como aumento discreto de enzimas do fígado e diferenças na resposta do sistema imunológico", explica Maria Paula em entrevista à Agência Brasil.

"Já na dengue, é mais comum a diminuição das plaquetas, além de maior risco de sangramentos e choque. Mesmo assim, só os sintomas não são suficientes para diferenciar com segurança uma doença da outra", acrescenta.

De acordo com a pesquisadora, é difícil para a população e até mesmo para profissionais de saúde distinguirem as duas doenças apenas pelos sintomas.

Por isso, ela ressalta: o mais importante não é a diferenciação, mas garantir um cuidado e tratamento eficientes para os sintomas apresentados.

"Mais importante do que saber o nome da doença é reconhecer rapidamente sinais de gravidade, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, confusão mental ou piora progressiva do estado geral, e buscar atendimento médico imediatamente", alerta.

Ela reforça que gestantes, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas precisam de atenção redobrada ao apresentarem febre, mesmo que os sintomas iniciais sejam leves. "Nesses grupos, a recomendação é procurar avaliação médica precoce e não esperar a piora do quadro".

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Mosquito maruim, transmissor da febre do Oropouche. Foto: Conselho Federal de Farmácia/Divulgação

Linhagem de maior virulência

O estudo, resultado do trabalho da Rede de Vigilância em Saúde Ampliada (Revisa) com apoio do Instituto Todos pela Saúde (ItpS), acompanhou pessoas com doença febril aguda atendidas na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), em Manaus (AM).

Os pacientes foram monitorados por até 28 dias, com avaliações clínicas, exames laboratoriais e testes específicos para dengue, Oropouche e outras arboviroses.

Durante o acompanhamento, os pesquisadores concluíram que o surto em Manaus foi provocado por uma linhagem reordenada do vírus Oropouche, já detectada em anos anteriores, mas com características de maior virulência e replicação, o que pode explicar a intensidade e o alcance do surto de 2024.

"Identificamos que o vírus que circulou em Manaus em 2024 pertence a uma linhagem já presente no Brasil, mas que passou por modificações genéticas ao longo do tempo. Isso sugere transmissão local contínua", detalha a pesquisadora.

Ela explica que essas mudanças podem ter contribuído para a intensidade do surto, mas não são o único fator: questões ambientais, climáticas e a presença do vetor também desempenham papel importante.

Combate a focos do mosquito da dengue. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A febre do Oropouche

A febre do Oropouche é causada por um vírus transmitido principalmente pelo mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, presente em todo o país.

Após picar uma pessoa ou animal infectado, o vírus permanece no inseto por alguns dias. Quando o mosquito pica uma pessoa saudável, pode transmitir o vírus.

Bárbara Chaves, pesquisadora do Instituto Todos pela Saúde (ItpS), explica que dengue e febre do Oropouche são arboviroses, ou seja, doenças causadas por vírus transmitidos por insetos.

"A dengue é uma doença bastante conhecida pelos brasileiros, com alta incidência no país, principalmente devido à abundância do mosquito transmissor, o Aedes aegypti. O clima favorável e o ambiente urbano facilitam a proliferação dessa espécie", ressalta.

Já a febre do Oropouche ganhou notoriedade nacional a partir de 2024, quando passou a ser notificada em outros estados.

"O aumento de casos pode estar relacionado a fatores como mudanças no uso da terra, desmatamento e desenvolvimento agrícola", esclarece Bárbara.

Segundo a pesquisadora, a redução dos casos de ambas as doenças depende do aprimoramento do diagnóstico e do monitoramento.

"No caso da dengue, a incidência pode ser reduzida com o combate ao mosquito transmissor, eliminando criadouros. Há estratégias já adotadas em algumas cidades, como o método Wolbachia, que consiste em inserir a bactéria Wolbachia em mosquitos para impedir o desenvolvimento dos vírus, além da vacina contra o vírus", detalha.

No caso do Oropouche, o combate é mais complexo, pois o mosquito transmissor se reproduz em ambientes naturais, úmidos e ricos em matéria orgânica em decomposição.