Ciência, tecnologia e inovação

Pesquisa premiada pelo Estado analisa impacto dos alimentos ultraprocessados na dieta

achados chamam atenção por terem sido observados mesmo quando as refeições foram cuidadosamente pareadas

Por Agência Alagoas 26/01/2026 16h04 - Atualizado em 26/01/2026 17h05
Pesquisa premiada pelo Estado analisa impacto dos alimentos ultraprocessados na dieta
Foco da pesquisa é o consumo de alimentos ultraprocessados - Foto: Acervo pesquisadora

A produção científica desenvolvida em Alagoas amplia sua contribuição para o debate nacional e internacional sobre saúde pública e alimentação. Um exemplo é a pesquisa conduzida pela pesquisadora Bárbara Galdino, que investigou os efeitos do consumo de alimentos ultraprocessados no comportamento alimentar. O estudo foi reconhecido recentemente pelo Governo de Alagoas com o Prêmio de Excelência Acadêmica.

A pesquisa “A Meal with Ultra-Processed Foods Leads to a Faster Rate of Intake and to a Lesser Decrease in the Capacity to Eat When Compared to a Similar, Matched Meal Without Ultra-Processed Foods” analisou como o grau de processamento dos alimentos influencia a velocidade de ingestão e a sensação de saciedade após as refeições.

Os resultados apontaram que refeições compostas por alimentos ultraprocessados são consumidas mais rapidamente e promovem menor redução da capacidade de comer novamente, em comparação a refeições similares preparadas com alimentos in natura ou minimamente processados.

Segundo a nutricionista, os achados chamam atenção por terem sido observados mesmo quando as refeições foram cuidadosamente pareadas quanto à densidade energética, fibras e macronutrientes.

“Isso sugere que o efeito não está apenas na composição nutricional, mas no grau de processamento dos alimentos, que altera a forma como comemos e como nosso organismo responde à refeição”, explica Bárbara Galdino.

Evidências sobre o ritmo alimentar e a saciedade

A pesquisa demonstrou que refeições com ultraprocessados exigem menor número de mastigações e mordidas, reduzindo o tempo necessário para que os sinais fisiológicos de saciedade sejam ativados. Como consequência, o consumo tende a ser maior antes que o organismo reconheça a sensação de plenitude.

Para a cientista, esse padrão ajuda a compreender por que esses alimentos favorecem o consumo excessivo no cotidiano: “Quando a ingestão acontece de forma muito rápida, o corpo não tem tempo suficiente para responder adequadamente. Isso mantém o indivíduo mais propenso a continuar comendo, mesmo após a refeição”, destaca.

O estudo também dialogou com aspectos comportamentais do ambiente alimentar contemporâneo, marcado por refeições rápidas, consumo distraído e alta disponibilidade de produtos industrializados. Características como textura macia, elevada palatabilidade e facilidade de consumo favorecem o que a literatura científica descreve como ‘hiperfagia passiva’ — fator associado ao aumento do risco de obesidade e outras doenças crônicas.

Ciência, formação acadêmica e articulação institucional

Desenvolvida a partir de uma trajetória acadêmica que envolve diferentes instituições e grupos de pesquisa, a investigação contou com a atuação de Bárbara Galdino como pesquisadora vinculada ao Laboratório de Nutrição e Metabolismo (Lanum), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e ao Laboratório de Imunobiologia da Inflamação (Labiin), da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

De acordo com a nutricionista, essa articulação foi fundamental para assegurar rigor metodológico e robustez científica ao trabalho. “A integração entre universidades e laboratórios permite somar expertises, infraestrutura e diferentes abordagens investigativas, fortalecendo todas as etapas do estudo”, avalia.

Atualmente doutoranda em Saúde e Nutrição pelo Programa de Pós-Graduação da Ufop, Bárbara afirma que essa formação multidisciplinar contribuiu para que os resultados dialogassem tanto com a pesquisa acadêmica quanto com a prática clínica e a formulação de estratégias de promoção da saúde.

Os achados do estudo oferecem subsídios importantes para políticas públicas, diretrizes alimentares e ações de educação nutricional. Segundo a pesquisadora, evidências como essas reforçam a necessidade de ações regulatórias voltadas à redução do consumo de ultraprocessados e à valorização de práticas alimentares mais conscientes.

“Aspectos como o ritmo das refeições, a mastigação adequada e a atenção plena durante a alimentação precisam ser considerados como parte das estratégias de enfrentamento da obesidade”, ressalta Bárbara Galdino.

O papel da Fapeal no fortalecimento da pesquisa em saúde

A nutricionista destaca que o apoio da Fapeal, por meio do Prêmio de Excelência Acadêmica, vai além do reconhecimento dos estudiosos. Instituído para valorizar a publicação discente em periódicos de alto impacto, o prêmio integra uma política da Fundação voltada ao fortalecimento da pós-graduação stricto sensu em Alagoas, estimulando a produção científica qualificada e a consolidação dos programas de pesquisa.

“O financiamento à ciência é essencial para a produção de conhecimento seguro e de qualidade. O suporte da Fapeal fortalece a formação do pesquisador, amplia a visibilidade da ciência produzida em Alagoas e contribui diretamente para o avanço da pesquisa em nutrição e saúde no estado”, enfatiza.

Ao refletir sobre os próximos passos, a pesquisadora destaca que ainda há lacunas importantes a serem exploradas, especialmente em estudos de longo prazo que avaliem o consumo crônico de alimentos de formulações industriais em diferentes contextos populacionais. Para ela, ampliar esse olhar é fundamental para compreender, de forma mais completa, como as escolhas alimentares afetam a saúde ao longo da vida.

“A ciência precisa continuar investigando não apenas o que comemos, mas como comemos. É nesse detalhe, muitas vezes invisível, que estão pistas importantes para melhorar a qualidade de vida da população”, conclui Bárbara Galdino, reforçando a importância de iniciativas como as da Fapeal, que seguem investindo na ciência como ferramenta de transformação social.