Ciência, tecnologia e inovação

Pesquisa investiga relação entre os nomes dos alimentos e o consumo

Motivação para o estudo surgiu ao perceber que fatores além do sabor influenciavam a aceitação de alimentos não convencionais

Por Agência Alagoas 12/01/2026 17h05 - Atualizado em 12/01/2026 19h07
Pesquisa investiga relação entre os nomes dos alimentos e o consumo
Nome atribuído a um alimento pode moldar a forma como ele é percebido pelo consumidor - Foto: Acervo de Projeto

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) tem ampliado o reconhecimento da produção científica local por meio do Prêmio de Excelência Acadêmica, que valoriza artigos publicados em periódicos de alto impacto nacional e internacional.

Entre os trabalhos contemplados está o estudo liderado pela pesquisadora Élida Santos, que analisou como a nomenclatura de produtos derivados da biodiversidade influencia as expectativas e a disposição dos consumidores para experimentá-los.

O artigo, intitulado 'From forest to table: The role of product naming in consumer expectations of biodiversity-derived foods', foi publicado na revista Food Quality and Preference e investiga a relação entre linguagem, percepção e consumo de plantas alimentícias silvestres (PAS).

Segundo a doutora em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos, a motivação para o estudo surgiu ainda durante o mestrado, ao perceber que fatores além do sabor influenciavam a aceitação de alimentos não convencionais.

“Durante esse período, trabalhei com avaliação sensorial de um fruto da Caatinga, e foi nesse processo que percebi que a aceitação não estava relacionada apenas às características do alimento, mas também às expectativas criadas em torno dele”, explicou a pesquisadora.

O trabalho partiu da hipótese de que o nome atribuído a um alimento pode moldar, de forma significativa, a forma como ele é percebido pelo consumidor. Os resultados confirmaram que produtos associados explicitamente às plantas alimentícias silvestres tendem a gerar expectativas mais negativas, especialmente entre pessoas sem familiaridade prévia com esse tipo de alimento.

“Identificamos que produtos associados às plantas alimentícias silvestres tendem a ser vistos como menos saborosos quando comparados àqueles que recebem nomes mais familiares”, afirmou Élida Santos. De acordo com o estudo, nomes que remetem a plantas convencionais ou a ambientes agrícolas despertam maior sensação de familiaridade e, consequentemente, aumentam a aprovação.

Outro fator relevante apontado pela pesquisa foi a neofobia alimentar, ou seja, a resistência ao consumo de alimentos desconhecidos, identificada como a variável que mais impacta negativamente a disposição dos consumidores. “Quando o produto não possui um nome familiar, a neofobia tende a ser uma barreira constante à sua receptividade”, destacou a pesquisadora.

Achados da pesquisa e ações educativas

Os resultados do estudo deram origem a iniciativas práticas voltadas à popularização do conhecimento científico. A partir do trabalho, foi criado o projeto de extensão ‘Explorando o mundo das PANC: descubra, experimente e divirta-se!’, que busca aproximar o público urbano de alimentos derivados da biodiversidade por meio de atividades lúdicas e educativas.

O projeto já foi apresentado em eventos como a ‘Semana Nacional de Ciência e Tecnologia’, no Museu de História Natural da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), além de ações em escolas e eventos científicos voltados à educação básica. “Em todos os momentos, o objetivo foi atingido: as pessoas provam os alimentos mesmo sem conhecê-los previamente e, em geral, gostam do que experimentam”, relatou a estudiosa.

A pesquisadora destacou ainda que essas experiências reforçam o potencial das plantas alimentícias silvestres como alternativas sustentáveis e culturalmente relevantes, especialmente em regiões com alta diversidade biológica, como Alagoas.

Fapeal e o fortalecimento da ciência em Alagoas

Para Élida Santos, o reconhecimento concedido pelo Prêmio de Excelência Acadêmica da Fapeal vai além da valorização individual: “O prêmio reconhece a qualidade, o impacto e a relevância das pesquisas desenvolvidas em Alagoas e fortalece os programas de pós-graduação do estado”, afirmou.

A jovem doutora também ressaltou que “o reconhecimento atesta a relevância do investimento público na ciência e valoriza o trabalho desenvolvido localmente, incentivando a formação de novos pesquisadores”.

Ao refletir sobre os próximos passos, a pesquisadora destacou que pretende aprofundar estudos interdisciplinares voltados às cadeias produtivas da sociobiodiversidade, especialmente na região da foz do Rio São Francisco.

“Pensar a valorização da biodiversidade passa, necessariamente, por compreender como as pessoas se relacionam com esses produtos no cotidiano”, refletiu a cientista.

Assim, a pesquisa dialoga diretamente com temas estratégicos para o desenvolvimento sustentável, como segurança alimentar, biodiversidade e cadeias produtivas locais, demonstrando que a valorização das espécies nativas passa igualmente por estratégias de comunicação e apresentação ao público, ao articular ciência do consumidor, etnobiologia e conservação ambiental.

Os demais autores do trabalho são Déborah Barbosa, Danúbia Gomes, Gabriela dos Santos, Roberta Caetano, Fabiane Queiroz, Nicholas Lima, Rafael Ricardo Vasconcelos e Patrícia Muniz.

Saiba mais

O Prêmio de Excelência Acadêmica integra o pacote de editais do programa “Mais Ciência Mais Futuro” do Governo de Alagoas, executado por meio de ações conjuntas da Secretaria de Estado da Ciência, da Tecnologia e da Inovação (Secti) e da Fapeal.