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Relíquia cósmica: astrônomos identificam galáxia que nunca chegou a nascer

Cientistas descrevem Cloud‑9 como uma rara janela para o chamado "Universo escuro"

Por Sputnik Brasil 07/01/2026 16h04 - Atualizado em 07/01/2026 16h04
Relíquia cósmica: astrônomos identificam galáxia que nunca chegou a nascer
Cloud‑9 se destaca por não apresentar estrelas - Foto: © Foto / NASA, ESA. G. Anand/STScI, and A. Benitez-Llambay/Univ. of Milan-Bicocca; Image processing: J. DePasquale/STScI

Cloud‑9, um objeto enigmático localizado a 14,3 milhões de anos-luz da Terra, surge como o candidato mais convincente para uma galáxia que nunca chegou a formar estrelas. Composta apenas de hidrogênio neutro e matéria escura, trata-se de uma rara relíquia dos primórdios do Universo.

O objeto, recém-identificado no espaço profundo e batizado de Cloud‑9, tornou-se o mais forte candidato já observado para uma galáxia que interrompeu seu desenvolvimento ainda nos estágios iniciais. Próxima à galáxia espiral M94, Cloud‑9 se destaca por não apresentar estrelas e parecer composta quase inteiramente de matéria escura envolta em hidrogênio neutro.

Em estudo publicado no The Astrophysical Journal Letters, astrônomos descrevem Cloud‑9 como uma rara janela para o chamado "Universo escuro", já que a maior parte da massa cósmica é formada por matéria escura — invisível e difícil de detectar. Enquanto galáxias costumam reunir estrelas, gás e um halo de matéria escura que sustenta sua gravidade, Cloud‑9 parece ter parado antes de completar esse processo, preservando apenas os elementos mais primordiais.

Esta imagem mostra a localização da Nuvem-9, que está a 2.000 anos-luz da Terra. A cor magenta difusa representa dados de rádio do Very Large Array (VLA), um radiotelescópio terrestre, que mostram a presença da nuvem.







Modelos de formação galáctica sugerem que halos de matéria escura surgem cedo no Universo, criando bolsões gravitacionais que acumulam hidrogênio neutro, capaz de eventualmente formar estrelas. A descoberta inicial de Cloud‑9 ocorreu em um levantamento de rádio com o telescópio FAST, na China, que detectou uma concentração de hidrogênio frio, compacto e não ionizado — características compatíveis com uma Nuvem de H I Limitada pela Reionização (RELHIC), prevista em simulações, mas raramente observada.

Esses objetos são difíceis de identificar porque tendem a perder gás ao longo do tempo ou se confundem com detritos cósmicos. Além disso, observações anteriores de nuvens semelhantes revelaram sinais de rotação ou pequenas populações estelares, o que as afastava da categoria de RELHICs genuínos. Por isso, a equipe liderada por Gagandeep Anand realizou novas medições com o Green Bank Telescope e o Very Large Array.

As observações detalhadas mostraram que Cloud‑9 é uma esfera de hidrogênio neutro com cerca de 4.900 anos-luz de diâmetro e massa equivalente a um milhão de sóis, sem qualquer rotação detectável. Para manter essa estrutura estável, seriam necessárias aproximadamente 5 bilhões de massas solares em matéria escura. Imagens profundas do Telescópio Espacial Hubble confirmaram a ausência de estrelas, descartando até mesmo galáxias anãs extremamente tênues como Leo T.

A ausência de estrelas reforça a interpretação de que Cloud‑9 representa um "fracasso" na formação galáctica — um bloco primordial que nunca atingiu o limiar necessário para iniciar a formação estelar. Para os pesquisadores, esse fracasso é revelador, pois valida previsões teóricas sobre estruturas dominadas por matéria escura que permaneceram praticamente inalteradas desde o início do Universo.

Embora existam outros candidatos a RELHIC, Cloud‑9 se destaca por cumprir todos os critérios conhecidos e por ter sua distância bem estabelecida graças à proximidade com M94, localizada na constelação dos Cães de Caça, a cerca de 16 milhões de anos‑luz da Terra, o que torna a detecção mais robusta.

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