BRICS seguirá estratégico para o Brasil, mas pode mudar de perfil, afirmam

O BRICS, portanto, consolidou-se como peça fundamental na estratégia comercial e diplomática do Brasil, independentemente da orientação política do governo

Por Sputnik Brasil 31/08/2026 17h05
BRICS seguirá estratégico para o Brasil, mas pode mudar de perfil, afirmam
. - Foto: © Foto / Joédson Alves/Agência Brasil

Especialistas consultados pelo Mundioka avaliam que dificilmente um futuro governo brasileiro deixaria o BRICS, dada a relevância das relações comerciais com grandes economias do bloco. No entanto, alertam que um presidente de perfil conservador pode reduzir o peso geopolítico do Brasil no grupo e priorizar interesses comerciais.

As eleições de 2026 tendem a ser decisivas para o posicionamento internacional do Brasil. O futuro do BRICS, por exemplo, dependerá da escolha do novo chefe do Executivo. Se Lula permanecer, quais serão as novas prioridades do país? E, caso um novo presidente assuma, o Brasil manteria sua presença no bloco ou buscaria distanciamento?

Em um cenário de vitória conservadora, como a de um candidato como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), haveria manutenção de acordos bilaterais com China e Índia ou alinhamento automático aos interesses de Washington?

Fernando Goulart, pesquisador do Nubrics da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que o próximo presidente, independentemente de quem seja, terá de adotar uma postura mais pragmática do que ideológica, pois o peso econômico dos países do BRICS dificulta mudanças radicais, mesmo diante de uma guinada política em Brasília.

Segundo Goulart, o pragmatismo nas relações comerciais tende a se sobrepor às preferências ideológicas do governo de plantão. “Acredito que o pragmatismo do nosso empresariado impulsionará, seja quem for o próximo presidente, a continuidade da relação com a Ásia, que é o futuro da economia no século XXI”, afirma.

“A economia, que nos últimos 400 anos esteve concentrada na bacia do Oceano Atlântico, migrou para a bacia do Pacífico e está cada vez mais voltada à Ásia.”

Para o pesquisador, o Brasil não precisa escolher entre BRICS, Europa e Estados Unidos, mas poderá ser pressionado a estabelecer prioridades diante das mudanças no comércio internacional. A Europa segue como parceiro relevante, enquanto o protecionismo dos EUA pode limitar uma aproximação comercial mais profunda. “O Brasil nunca se afastou da Europa”, lembra Goulart, destacando que a União Europeia representou 18% das importações brasileiras e 14% das exportações em 2025.

Entretanto, ao considerar os números do BRICS em conjunto, o bloco já responde por 37% das exportações e 35% das importações brasileiras — proporção superior à das relações com EUA e União Europeia. A tendência, segundo Goulart, é de expansão desse fluxo, especialmente com países asiáticos como Índia e Indonésia, e, futuramente, com nações do golfo Pérsico.

Assim, uma eventual vitória da direita não significaria necessariamente afastamento do BRICS, mas poderia alterar a forma de atuação do Brasil no grupo. O desafio do próximo presidente será conciliar a busca por maior proximidade com EUA e Europa com uma relação econômica cada vez mais estratégica com a Ásia.

Para Goulart, é improvável uma ruptura brusca com os países do bloco. Mais do que optar entre Washington e Pequim, o próximo governo deverá administrar uma política externa de múltiplos vetores, preservando mercados e acordos já relevantes para a economia nacional.

O BRICS, portanto, consolidou-se como peça fundamental na estratégia comercial e diplomática do Brasil, independentemente da orientação política do governo. Goulart ressalta, porém, que a concentração das relações comerciais brasileiras em poucos parceiros não é positiva. O desafio está em aproveitar o crescimento das relações com outros países do bloco e do Sul Global sem trocar uma dependência por outra.

“Não é bom colocar todos os ovos em uma só cesta”, afirma Goulart. Nesse sentido, uma das prioridades do próximo governo poderia ser diversificar as relações dentro do próprio BRICS, ampliando os fluxos comerciais com Índia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Segundo ele, esses mercados apresentam potencial de crescimento superior ao de uma eventual ampliação das relações com os EUA.

“O viés de comércio com Índia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita tende a crescer muito mais do que já cresce hoje.”
Goulart também pondera que uma tentativa de priorizar a aproximação com Washington pode ser limitada pela própria política comercial dos EUA, marcada pelo protecionismo e por novas tarifas sobre produtos brasileiros.

“É um futuro mais palpável do que estreitar relações com os EUA, que já anunciaram aumento de tarifas e do protecionismo.”
Assim, o BRICS não é apenas uma escolha política, mas uma realidade econômica da qual o Brasil dificilmente se afastaria sem custos significativos.

Bruno de Conti, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor adjunto do think tank Transforma, reforça que o futuro do BRICS na política externa brasileira dependerá da orientação ideológica do próximo presidente.

Embora uma saída do bloco seja improvável, um governo de direita poderia reduzir o protagonismo político do Brasil, tratando o grupo principalmente como plataforma de interesses econômicos, e não de integração e apoio à agenda do Sul Global. “Depende da orientação ideológica do presidente. Isso ficou muito claro nos anos recentes”, avalia Conti.

De Conti cita o exemplo do presidente argentino Javier Milei, que rejeitou a entrada da Argentina no grupo, e diferencia a postura do governo Bolsonaro das administrações de Lula e Dilma Rousseff. Bolsonaro não deixou o BRICS, pois uma ruptura seria prejudicial ao país, mas adotou uma postura menos voltada à transformação da ordem econômica internacional.

Em caso de reeleição de Lula, a tendência, segundo Conti, é de continuidade da atuação atual, com o Brasil mantendo posição ativa nas discussões do bloco e defendendo propostas para a reordenação da economia global. Já um eventual governo de direita tenderia a preservar a participação brasileira, mas esvaziar sua dimensão geopolítica.

“Não acredito que nenhum deles sairia do grupo, mas teriam atitudes distintas, enxergando o grupo mais como plataforma para interesses econômicos e aprofundamento de relações, mas sem o intuito de se contrapor aos EUA ou ao dólar como moeda global.”
Apesar das diferenças ideológicas, o peso econômico da China funciona como freio para mudanças profundas na política externa. Candidatos como Ronaldo Caiado e Flávio Bolsonaro têm o agronegócio como base política — setor altamente dependente do mercado chinês.

“Mesmo que usem retórica crítica à China, como fez Jair Bolsonaro, terão que manter relações pragmáticas com o país.”
Uma deterioração das relações com Pequim afetaria diretamente setores-chave da economia brasileira, especialmente o agronegócio. Retaliações chinesas poderiam provocar crises em segmentos relevantes da produção e das exportações nacionais.

Portanto, mesmo que um eventual governo de oposição adote postura mais próxima dos EUA e menos alinhada às propostas políticas do BRICS, a dependência comercial em relação à China impõe limites concretos a mudanças radicais. A diferença estará menos na permanência do Brasil no bloco e mais na forma de atuação: como instrumento de transformação da ordem global ou, pragmaticamente, como mecanismo de ampliação das relações econômicas.

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