Jovens quilombolas reforçam importância do voto consciente nas eleições

Nas eleições de 2026, mais de 188.000 eleitores autodeclarados quilombolas vão às urnas

Por Agência Brasil 24/08/2026 16h04
Jovens quilombolas reforçam importância do voto consciente nas eleições
Thauany tem 16 anos e votará pela primeira vez. - Foto: Acervo da família

No próximo dia 4 de outubro, o agricultor Joaquim Moreira, de 87 anos, o mais velho da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, em Santo Antônio do Descoberto (GO), irá à escola eleitoral em uma companhia especial.

Ele estará ao lado da neta, Thauany Silva, de 16 anos, que votará pela primeira vez. Ambos aguardam ansiosos pela data e já guardam cuidadosamente seus títulos de eleitor. “Sempre votei e vou votar de novo”, afirma Joaquim.

Empolgada com a estreia nas urnas, Thauany foi ao centro da cidade com a mãe, Mayara, assim que completou 16 anos, para garantir seu direito de cidadã.

Dobro de eleitores


Nas eleições de 2026, o número de eleitores autodeclarados quilombolas praticamente dobrou em relação ao pleito de 2024, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Eram 95.409 nas eleições municipais, saltando para 188.371 em 2026. Em Goiás, onde a família vota, o total subiu de 3.625 para 5.394.

Mayara Silva, mãe de Thauany, ensina aos filhos a importância de acompanhar as decisões políticas que impactam o cotidiano da comunidade. “Não tem como fechar os olhos para o fato de que tudo é política”, ressalta.

Thauany celebrou ao receber o título provisório de eleitora: “Quando a gente vota, estamos cuidando do futuro de todos nós, né?”, afirma.

"Até o ar que a gente respira"


O desejo de participar da democracia também motiva Franciele Silva, 27 anos, universitária de Direito e moradora da comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA). Com título de eleitor desde os 18 anos, ela lembra: “Eu tinha muita curiosidade sobre como era votar. Até o ar que a gente respira tem a ver com política. Minha mãe sempre me ensinou a lutar pelos meus direitos e da minha comunidade”.

Desde que ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Franciele passou a compartilhar informações sobre direitos e defesa do território com a comunidade. “Votar é fundamental”, enfatiza.

Franciele Silva vive na comunidade de Rio dos Macacos. Foto: Acervo de família

No Nordeste, está a maior concentração de eleitores quilombolas do país. Em 2024, eram 51.633; em 2026, serão 95.901, segundo o TSE. A região responde por mais da metade do eleitorado quilombola brasileiro.

Mais visibilidade


O crescimento do eleitorado quilombola está ligado ao aumento da visibilidade e da conscientização política nas comunidades tradicionais, avalia a professora Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

“Temos levado nossas pautas a diferentes espaços e encontrado parcerias”, explica. Segundo Bia, o engajamento dos eleitores quilombolas é resultado de ações de conscientização e letramento sobre o papel dos quilombolas como guardiões da floresta. “É fundamental entender a importância dos territórios para a biodiversidade. Esse sempre foi o trabalho das comunidades quilombolas”, acrescenta.

Bia Nunes, da Conaq, diz que é fundamental engajar os jovens.

Bia ressalta que a reivindicação por políticas públicas considera o papel coletivo das comunidades. “As pessoas começam a dimensionar esse trabalho e a entender a importância do voto e da escolha dos representantes.”

Ela destaca ainda que a população quilombola tem compreendido a necessidade de exigir dos governantes o compromisso com a proteção das pessoas e o avanço das titulações dos territórios quilombolas. Para isso, o engajamento dos jovens é essencial.

Bia defende mais campanhas do Estado brasileiro para estimular eleitores e candidatos quilombolas, lembrando que ainda há um contexto de vulnerabilidade, com pressões e ameaças de violência. “Eu mesma estou no programa de proteção porque, em 2020, sofri uma ameaça de morte quando era candidata.”

Consciência política

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A conscientização política nas comunidades quilombolas se dá por diferentes caminhos, como explica Rafael Costa, 32 anos, educador de alfabetização financeira da comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO). Ele observa crescimento do interesse por temas ligados à participação e representatividade política.

“Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam, estudam e passam a perceber a necessidade de políticas públicas”, contextualiza.

Rafael é educador financeiro.


Rafael reforça que as comunidades, historicamente marcadas pelo espírito de cooperação e altruísmo, precisam estar atentas para evitar golpes financeiros e desinformação. “A partir do momento em que se conscientizam sobre seu modo de vida e produção, desenvolvem também maior consciência política”, conclui.

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