O que mudou na nova fase da disputa para governador entre Renan Filho e JHC
Fora dos cargos, ex-prefeito sofre críticas e ex-governador fatura soma de obras marcantes
A nova etapa da corrida ao governo de Alagoas, marcada pela temporada de convenções iniciadas no dia 20/7, já permite avaliar o que há de ganhos e perdas entre os principais concorrentes.
Renan Filho (MDB), senador, ex-governador e ex-ministro dos Transportes, eleitor e aliado do presidente Lula, enfrenta um João Henrique Caldas (PSDB), ex-prefeito de Maceió, um tanto acuado e sem assumir candidato à sucessão presidencial, o que deixa seus eleitores 'sem jeito' e incomodados.
Cada um exibe a condição de 'ex', visto que tiveram de renunciar para poder concorrer, e é justamente essa condição que mostra um contabilizando ganhos e o outro sofrendo contínuos desgastes. Tudo por conta do que fizeram ou deixaram de fazer.
O saldo de Renan Filho é positivo porque expõe o somatório de suas obras - que não são poucas - como governador em dois mandatos consecutivos e como ministro (dos Transportes) responsável por grandes investimentos em projetos de infraestrutura, muitos deles aqui em Alagoas.
O ex-prefeito JHC, por sua vez, atraiu atenção dos maceioenses, graças sobretudo a obras de embelezamento urbano, mas sua saída da Prefeitura escancarou problemas na administração e, por conseguinte, na cidade.
Um dos principais, com graves implicações, diz respeito às finanças do município. A julgar pelos pronunciamentos feitos na Câmara Municipal, mormente pelos vereadores Galba Neto e Rui Palmeira (nenhum rebatido pelo ex-prefeito ou por seu sucessor Rodrigo Cunha), a Prefeitura está sem dinheiro para pagar regularmente aos credores, e isso atinge até a coleta do lixo - para citar apenas o impasse mais emblemático.
Em contraposição, Renan Filho toca a campanha avivando a memória popular e lembrando tudo que fez pela educação, saúde, segurança, sistema rodoviário, requalificação das grotas de Maceió, Arco Metropolitano, e cujo ponto de largada foi um rigoroso ajuste fiscal.
Enquanto o ex-governador e ministro faz uma campanha aberta, marcada pelo contato franco e livre com a mídia, o que favorece a divulgação de seus feitos, JHC emprega o silêncio como 'tatica' e assim evita entrevistas com jornalistas independentes, o que enseja questionamentos e mexe negativamente com a cabeça das pessoas.
Exemplos: valeu a pena gastar R$ 266 milhões com a compra de um hospital que já existia e, portanto, já era da cidade? Faz sentido empregar R$ 180 milhões na requalificação do Salgadinho, mas sem atacar o desafio mais crucial, isto é, a poluição do riacho? Como responsável pela nomeação dos dirigentes do IPREV, o ex-prefeito não deveria se manifestar sobre o aporte de R$ 117 milhões (dinheiro dos aposentados e pensionistas) feito no sistema fraudulento do Banco Master?
Silenciar não socorre JHC e a população, com razão, rejeita o silêncio diante dessas questões. São temas graves que estão funcionando como combustível do processo eleitoral e obviamente desgastando cada vez mais a imagem do novel tucano.
Renan Filho faz um caminho inverso. Aproveita reuniões, eventos e contatos de campanha para martelar um ponto essencial de sua trajetória como governador e ministro: a construção de grandes hospitais em Maceió e no interior, de numerosas escolas de tempo integral, de Unidades de Pronto Atendimento, de rodovias (novas e duplicadas), de viadutos e pontes. Também adianta o que pretende fazer e fala da valorização do funcionalismo, de inúmeros concursos públicos realizados e de programas sociais como o CRIA das creches e o Escola 10, além das ações efetivas de combate à fome.
Outro dado relevante: Renan operou uma transição sucessória tranquila, legando ao governador Paulo Dantas uma situação financeira estável com dinheiro e crédito para investir, o que manteve a dinâmica dos projetos voltados para os avanços sociais.
JHC, em seu turno, escalou para deixar na chefia da Prefeitura o vice Rodrigo Cunha, um aliado que abriu mão de dois anos de Senado a favor de Eudócia Caldas, mãe do prefeito, mas repassou um município com as finanças em situação crítica, mesmo tendo recebido um aporte bilionário da Braskem e tomado empréstimos que somam cerca de R$ 1 bilhão.
Pois bem, todo esse emaranhado de problemas tem contribuído para erodir a fama de 'bom gestor' que João Caldas filho cultivou enquanto dirigiu a Municipalidade. E isso, comparando com o otimismo que domina as forças governistas, também influi negativamente no humor da tropa oposicionista.
A rigor, pode-se dizer que o cenário mudou também porque o ex-governador e ministro do governo Lula deu lugar a um candidato que tem grande reserva de capital político para continuar crescendo com mais intensidade à medida que a campanha eleitoral avançar.
O embate sucessório está mudando igualmente por um erro tático primário de JHC, que resolveu atacar o governo muito bem avaliado de Paulo Dantas. Elementar: não se bate em time que está vencendo.
Primeiro, criticou uma falta de energia elétrica ocasional no Hospital Geral do Estado (HGE) e depois queixou-se da violência em Alagoas.
A crítica chamou a atenção por atingir o governador, que não está disputando nenhum cargo, e por isentar a gestão de Renan Filho, o que acaba fortalecendo o próprio concorrente direto.
O erro crasso das intervenções descabidas consistiu em produzir respostas da mídia e do próprio Paulo Dantas - uma lembrando as crises do PAM Salgadinho durante a gestão do próprio JHC, e a outra evocando a terrível onda de crimes que Alagoas viveu durante o governo do PSDB, novo partido do ex-prefeito.
Pró Renan Filho, há ainda o peso da mobilização das forças governistas, após a convenção do MDB marcada para cinco de agosto, mas essa é outra história.
