Execrado pelo PL e desafiado por Lira, JHC pode se aproximar do 'risco zero' nas eleições
Prefeito é destituído de forma acintosa e intimidado com ameaça de processo na Justiça
A repentina e hostil reação do comando nacional do PL contra o prefeito João Henrique Caldas, com ato que o destituiu da presidência do partido em Alagoas - uma punição extrema com cheiro de execração pública - atendeu a expectativa do deputado federal Arthur Lira, presidente estadual do PP, por mais que isso soe incongruente, vez que ambos pareciam conviver como 'bons aliados'.
A rigor, porém, não houve incongruência. O alinhamento de Arthur Lira com JHC prosperou enquanto o primeiro acreditou que o prefeito maceioense sairia candidato ao governo de Alagoas e sem invadir a disputa ao Senado, condição mais do que crucial para viabilizar o projeto pessoal de Lira de se eleger senador.
A espera durou meses e o deputado progressista até se compôs em dupla com o também federal Alfredo Gaspar, do União Brasil, confiante que a aliança convenceria JHC a disputar a sucessão de Paulo Dantas, do MDB, mas deixando as vagas do Senado livres.
Para reforçar a composição, o presidente nacional do PL, Waldemar Costa Neto, ouviu apelos e veio a Maceió há duas semanas num derradeiro esforço para fazer do prefeito o nome do PL para a sucessão estadual.
Com a data limite para o prefeito deixar o cargo se aproximando (quatro de abril) e sem qualquer manifestação de JHC sobre o mandato que pretende disputar, Lira concluiu (ou soube de fato) que João Henrique Caldas não sairá candidato a governador, ou sairá, mas lançando, também, sua esposa Marina Candia ao Senado.
O comando nacional do PL, que tem Lira como aliado e o apoia para senador, foi advertido para os 'novos' rumos da situação em Maceió, daí a decisão de banir João Henrique Caldas inapelavelmente.
A leitura desse cenário conduz à interpretação de que JHC não deve disputar o governo alagoano este ano. Ele próprio não o disse e só anunciará a decisão ao deixar a Prefeitura, mas sua expulsão do comando regional do PL indica que Waldemar Costa Neto deve ter sido informado, com elementos de comprovação, que o PL não teria, aqui em Alagoas, palanque para a eleição de governador e, por conseguinte, para a de presidente da República, não sob o comando de JHC. Ou teria, mas com um nome próprio de JHC ao Senado...
Isso pode explicar a forma abrupta, ostensiva e ameaçadora adotada pelo PL nacional ao remover o prefeito maceioense do comando da agremiação e em cujo ato advertiu que, se JHC adotasse qualquer medida interna em nome do partido (transferência de vereadores da capital para outra legenda, por exemplo) responderia a processo na Justiça.
Já a cisão de Lira com o prefeito também se evidenciou na mobilização que o deputado promoveu em Maceió na sexta-feira (20/3) para lançar sua pré-candidatura ao Senado e cuja nota marcante não foi a dimensão do evento, mas precisamente a ausência do prefeito JHC.
Lira sabe que Renan Calheiros é o favorito para a primeira vaga no Senado e acha que ficaria com a segunda cadeira, deixando Gaspar para trás, mas não teria chance concorrendo com Renan e JHC.
Sim, há tratativas e indicações para João Caldas filho se filiar e assumir o comando estadual do PSDB, a legenda tucana liderada pelo ex-governador e ex-senador Teotonio Vilela Filho.
A sigla é tradicional, já governou o Brasil com Fernando Henrique Cardoso na presidência, mas hoje está fragilizada, comanda uma só prefeitura e não tem vereadores, aqui em Alagoas.
Com tempo mínimo no rádio e televisão e sem estrutura nos municípios alagoanos, o fato é que o PSDB não teria como respaldar um projeto de candidatura ao governo, daí a ilação de que a opção partidária cogitada não sugere JHC disputando o governo, embora também não elimine tal possibilidade.
Se assim for, a conclusão irrecorrível é: Arthur Lira e o comando nacional do PL acabaram empurrando de vez JHC para uma composição com as forças governistas de Alagoas comandadas por Renan Calheiros, Paulo Dantas, Renan Filho, Marcelo Victor - todos do MDB - e Ronaldo Lessa (PDT), que já foi vice de JHC na Prefeitura de Maceió. É o que indica a lógica, mas ainda convém saber se o empurrão surtirá o efeito desejado.
Essa tendência, que só pode ser confirmada ou desfeita pelo prefeito, reforça um dos cenários descrito aqui neste Blog no texto 'Uma andorinha na mão ou cem gaviões no espaço - que escolha fará JHC até o início de abril?'. No final, o comentário assinala:
"Na visão de observadores políticos, JHC estaria diante de duas escolhas: 1- o cenário desafiador do tudo ou nada, saindo para governador; 2 - a opção 'zero risco' traduzida em um passarinho na mão (Senado) em vez de cem gaviões no espaço (governo).
"Mas, em se tratando do prefeito maceioense, os cenários não se esgotam aí, há alternativas eleitorais. Por exemplo: disputar o Senado e lançar sua companheira Marina Candia para deputada federal, compondo-se para isso com o grupo de Renan Filho; ou permanecer na Prefeitura até o final do mandato, lançando a esposa Marina Candia ao Senado e sua mãe, Eudócia Caldas, para disputar a Câmara dos Deputados, também em articulação com o bloco de Renan Calheiros".
Restam poucos dias para JHC abrir o jogo.
Vale lembrar: sem candidato ao governo (Gaspar toparia entrar para socorrer o aliado?) a festa de Lira rumo ao Senado poderá ter sido mero desperdício de energia e grana, restando-lhe o caminho da reeleição como forma de sobrevivência política e de preservação da imunidade parlamentar, sobretudo - cumpre ressaltar - se JHC decidir sair para senador em dupla com Renan Calheiros e composto com as forças governistas.
É aguardar pra conferir.


