A sutileza do assessor que ousou advertir o chefão Trump recorrendo ao 'quem avisa, amigo é'

Terror do 11 de Setembro se impõe como memória trágica do atentado às Torres Gêmeas de NY

Por Blog do Romero 09/03/2026 19h07
A sutileza do assessor que ousou advertir o chefão Trump recorrendo ao 'quem avisa, amigo é'
Muito coerente e sensato, Trump inicia guerra logo após criar Conselho de Paz - Foto: Reprodução

"Tem algo de errado com o chefe", resmungou John Pignatari, assessor pessoal de Donald Trump, enquanto ligava para a recepção do Cap Juluca, luxuoso hotel do Caribe, pedindo que fechassem sua conta.

Curtia merecidas férias quando soube do bombardeio das forças conjuntas dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Às pressas, pediu a conta interrompendo o passeio com a mulher, Úrsula, e dois filhos.

Na manhã seguinte estava de volta a Washington. Já se informara que o presidente estava na Casa Branca e se dirigiu para lá. Queria ouvir do próprio Trump uma explicação que 'justificasse' a agressão.

Donald acabara de se reunir com o secretário de Defesa, Pete Hegseth, quando Pignatari adentrou ao gabinete e foi logo interpelando, valendo-se da velha amizade com o presidente.
- Boss, o que foi isso? Bombardear o Irã, iniciar uma guerra sem sequer ter conseguido acabar com a da Rússia contra a Ucrânia?

Trump não demonstrava mau humor, a situação no Oriente estava sob controle, mas ele franziu o cenho e aconselhou que o assessor se contivesse.

- Calma lá, já fizemos isso com dezenas de países, inclusive com o próprio Irã. Portanto, é só mais uma incursão bélica sem nenhum risco de revés, sem risco até mesmo de perdas consideráveis.

- Mas, chefe é guerra...
- E daí?
- O senhor por acaso está com problema de memória?
- Não estou entendendo a razão do questionamento. Aonde quer chegar?
- Meu presidente, bradou John amaciando a voz, o senhor iniciou uma guerra imediatamente após criar o Conselho Internacional da Paz. Tremenda incoerência. Contradição flagrante. Aliás, não seria o caso de mudar logo o nome para Conselho de Guerra? Agora entendo porque o Lula, no Brasil, ante seu chamado para aderir ao Conselho, manjou o 'ensaio de rabo' e rapidinho desconversou...

- Fui obrigado. O Irã representa uma ameaça aos Estados Unidos, à própria Europa, ao mundo. Então, decidi cortar o mal pela raiz. Claro, tem Israel, ali vizinho, com armas de guerra e até bomba atômica. São nossos amigos, irmãos, e temos que apoiá-los diante de qualquer ameaça. Intervenção rápida, passa logo, poucas mortes.

Pignatari percebeu que Trump falava sério, se esforçava para exibir firmeza, mas não se conteve e continuou fustigando.

- Boss, a resposta de Israel ao Hamas foi compreensível, apesar do troco desproporcional. Afinal, foram mil e poucos judeus mortos contra mais de 80 mil palestinos chacinados e destruição total da Faixa de Gaza. Mas o Irã não fez nada, não atacou Israel e muito menos os EUA. Já me informei e soube que o mundo está contra essa guerra e quem apoia, quem adere, o faz por medo de retaliação.

Trump esboçou um sorriso irônico enfatizado pelo 'biquinho', seu inconfundível cacoete facial. Às vezes se sentia contrafeito, mas gostava desse tipo de diálogo porque ouvia John Pignatari dizer o que nenhum outro assessor, secretário ou conselheiro ousava sequer imaginar. Numa Casa Branca repleta de aduladores, ninguém tinha peito para contrariar o chefe, ainda mais abordando um assunto literalmente explosivo.

- O governo do Khamenei estava massacrando seu próprio povo, reprimindo protestos de rua com tiros e bombas, e isso exigia um basta. Foi o que fiz. Além disso, não podemos permitir que o Irã avance com seu projeto para fabricar armas nucleares. Terrível ameaça a Israel e ao mundo. Estou batalhando pela paz mundial. Não suporto injustiça e onde houver governo injusto eu transformo em alvo de mísseis, drones e bombardeios massivos.

- Vá lá, chefe, mas precisava atacar no exato momento em que autoridades do Irã e americanas negociavam um acordo de paz? Me permita, mas uma atitude dessas não coloca em xeque sua palavra e sua credibilidade? O que hoje o mundo pensa de um presidente que cria um Conselho de Paz, cobra adesões e, em vez de buscar a paz, começa uma guerra? Faz sentido?

Não fazia nenhum sentido, Trump tinha noção disso, mas o bilionário financista voltara à Casa Branca com a cabeça dominada por uma ideia insana: "Não existem líderes, líder sou eu, e vale o que decido e faço. Quem discordar eu puno com sequestro, como fiz com Nicolás Maduro, ou castigo com tarifaço, como fiz com vários países, inclusive o Brasil de meu amigão Lula. Cadeia e punição econômica. Quem não aderir à minha cartilha, eu prendo e arrebento, como dizia certo general brasileiro!".

O assessor, único com direito a intimidades na Casa Branca, pensou em escancarar outras contradições, mas se conteve. Trump comemorava bombardeios, mortes e destruição em Teerã como se tivesse enfrentando uma potência bélica, um inimigo à altura. Com declarações a todo instante, cantava vitória sem atentar para o fato de que atacava o país islâmico em conjunto com força presencial de Israel e, por cima, usava bases militares de países do Golfo. E ainda pedia apoio a países europeus. O pior foi que bastou uma semana de conflito para o comando militar ianque no Oriente reconhecer que já estava desabastecido...

Pignatari conhecia o presidente, seu pensamento, sua psicologia e, sobretudo, sua mania de força e grandeza. Sabia que não ia convencê-lo de nada, mas cumpria seu dever de alertá-lo, de chamar a atenção para suas contradições e para riscos graves que estavam sendo menosprezados. Com essa convicção, insistiu percebendo que Trump tinha compromisso e dava sinais de que ia sair.

- Chefe, até entre os nossos tenho ouvido piadas e provocações quando se fala de suas intervenções em nome da paz ou para fazer justiça. Recorrentemente, as pessoas dizem: 'Trump foi rápido no gatilho ao reagir para punir a repressão do governo iraniano contra seus manifestantes, mas, por que não faz o mesmo com o governo de Vladimir Putin, que há quatro anos massacra o povo da Ucrânia com bombardeios, mortes e destruição?'

- Menos a verdade! - reagiu o presidente chutando não o 'pau da barraca' e sim um vaso ornamental de porcelana, presente recebido do ditador Kim Jong-un na visita à Coreia do Norte durante seu primeiro mandato presidencial.

- Não tenho medo de Putin, mas conclui que o problema lá é da Organização do Tratado do Atlântico Norte, é da OTAN, portanto, é nó para a Europa desatar. Comigo não tem essa de 'buraco mais embaixo nem mais em cima'. Coisa nenhuma. Já apliquei sanções econômicas à Russia. Agora, tenho que admitir que uma intervenção armada, um confronto EUA x Rússia poderia ser o fim de tudo...

O assessor John Pignatari sentiu que Trump tergiversou, saiu pela tangente sem querer admitir a verdade mais terrível - a de que a Rússia não é Irã nem Venezuela e tem potencial nuclear capaz de acabar com o mundo várias vezes, se isso fosse possível, claro.

Então, para encerrar o diálogo interpelativo, o auxiliar voltou-se de novo para a questão do Irã e lançou um último alerta ao chefão.

- Boss, não esqueça que o ataque ao Irã envolveu o Líbano e, por conseguinte, o Hezbollah, organização terrorista como o palestino Hamas, e isso representa sério risco para a segurança dos americanos. Essa gente não respeita sequer a própria vida, são extremistas loucos capazes de tudo. É um risco mexer com eles.
- Risco? Que risco pode oferecer um bando de malucos armados...
- Digo isso - falou Pignatari de mansinho - pensando nas 2.700 vítimas...
- Como assim, o que está querendo insinuar? O que quer dizer?
- Já esqueceu as Torres no chão?
- Torres no chão? Torres é sobrenome de famílias no Brasil... Não sei do que se trata. Seja claro, direto - ordenou Trump um tanto confuso, a memória falhando.
- Boss, já esqueceu o 11 de Setembro, a hecatombe, a desgraça sangrenta que ceifou milhares de vidas americanas em pleno coração de New York?
Silêncio absoluto.
O rosto avermelhado de Trump ficou lívido, branco como vela. A lembrança do pavoroso atentado de 2001 deixou o presidente ranzinza sem palavras e sem reação. Em ambiente de silêncio tumular, vestiu o paletó e saiu às pressas dizendo que precisava cumprir agenda, começando com reunião formal junto ao Conselho de Guerra no Pentágono.

EM TEMPO - A guerra de Trump fez o Irã bloquear o Estreito de Ormuz, por onde passa mais de 20% do petróleo mundial, causando elevação dos preços dos combustíveis até nos EUA.
O estrategista Trump cometeu um pequeno erro de cálculo, achando que a guerra acabaria em dois ou três dias.
Até agora, as forças americanas e de Israel mataram algumas dezenas de militares iranianos, de um contingente superior a 600 mil soldados, e que pode, com novas convocações, atingir um milhão de combatentes...

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Sobre o blog

Iniciou-se no Jornalismo como redator do Diário de Pernambuco. Foi editor do Diário da Borborema (PB) e do Jornal de Alagoas. Exerceu os cargos de secretário de Comunicação da Prefeitura de Maceió e do Estado de Alagoas.

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