Aliança de Renan Filho com Lira é impossível, até porque eleitor rejeitaria mistura destemperada
Ex-governador disputará sucessão com apoio nunca visto, e 'fechado' com o presidente Lula
É uma hipótese que alimenta rumores e especulações, mas fica nisso. Sem chance nenhuma de avançar para entendimento. Nada de dividir palanque. É Renan Filho de um lado e Arthur Lira, do outro, O ex-governador, senador licenciado e atual ministro dos Transportes (um dos mais bem avaliados do governo Lula) não aceita discutir qualquer tipo de aproximação e muito menos de composição política com Arthur Lira.
Ele acabou de firmar essa posição em entrevista ao jornal O Globo. Ou seja, Renan e Arthur são personagens distintos, cada um com histórico político e de vida diferenciado. Inconfundíveis, por assim dizer.
Renan Filho foi prefeito, deputado federal e governador de Alagoas, eleito e reeleito. Onze anos exercendo cargo executivo, de comando, caneta com tinta na mão, e jamais foi alvo de denúncia. Algo raro na política brasileira. Cada vez mais esclarecido, o eleitor alagoano logo se deu conta de que a sociedade estava diante de um político de postura nova e carreira promissora. Jovem, capaz e avesso a contatos e atitudes 'fora do compasso'. Joga aberto, às claras, sem intramuros.
Com a mídia atraída por sua ações e capacidade de trabalho, muito cedo ganhou projeção em todo o País e até viu seu nome considerado para disputar a presidência da República - ideia defendida pelo presidente nacional do MDB, deputado Baleia Rossi, na sucessão de 2022, que acabou conferindo o 3º mandato presidencial a Lula.
Arthur Lira pode ser definido como a 'antítese' de Renan Filho. Com mais tempo de atuação, sua trajetória tem sido marcada por controvérsias e episódios polêmicos. O mais conhecido deu margem à Operação Taturana, na Assembleia Legislativa, onde Lira e outros 10 deputados foram investigados pela Polícia Federal sob acusação de desvios de recursos públicos. Todos acabaram condenados.
A carreira política de Lira, contudo, foi salva por um habeas-corpus expedido pelo Tribunal de Justiça alagoano. O caso poderia ter abreviado sua trajetória política, mas o processo terminou anulado (não arquivado) pelo Superior Tribunal de Justiça.
Deputado federal, Lira conviveu com queixas e acusações, teve processos abertos no Supremo Tribunal e, presidindo a Câmara, se destacou como principal protagonista do 'orçamento secreto', esquema bilionário de liberação de emendas parlamentares sem nenhum tipo de controle. O ralo acabou sendo proibido pelo Supremo Tribunal Federal.
Renan Filho pertence, desde sempre, ao MDB, partido histórico de memoráveis lutas contra o regime militar e em destemida defesa da democracia. Como governador, resgatou Alagoas de uma crise econômica que parecia interminável. Viabilizou o Estado atraindo indústrias e investimentos diversificados, construindo cinco grandes hospitais e várias UPAs, implantando dezenas de escolas de tempo integral e transformando por completo a segurança pública.
Alagoas deixou de liderar a criminalidade nacional e hoje é um dos estados com menor taxa de crimes violentos letais. Algo impensável antes de sua investidura no comando do Executivo estadual. Também pontificou com grandes obras estruturantes, incluindo rodovias, pontes, viadutos, habitações.
Já Arthur Lira, que lidera o PP em Alagoas, é uma negação de tudo isso. Em termos de realizações, de projetos, de obras e ações efetivas, nada ou quase nada tem para mostrar. Seu histórico é vazio e revela falta de compromisso com o Estado. Como presidente da Câmara, cargo alcançado com apoio de segmentos sem referência no Congresso, nada de relevante fez por Alagoas. Seu desempenho foi absorvido pelo jogo das emendas parlamentares milionárias, alvo de intervenção do STF.
E quando teve a chance de ajudar milhões de contribuintes com isenção do Imposto de Renda, engavetou o projeto enviado pelo presidente Lula para, conforme amplamente noticiado, induzir o governo a negociar vantagens para seu grupo. O descaso motivou uma providencial intervenção do senador Renan Calheiros, que apresentou um projeto paralelo no Senado, cuja tramitação ágil obrigou Lira a desengavetar a proposta originária do Planalto. Resultado: a isenção saiu 'na marra' com Renan Calheiros comemorando a vitória de seu empenho pessoal.
Em resumo, é isso. Renan Filho e Artur Lira são, como se pode ver, figuras diferentes, facilmente identificáveis. E inconciliáveis. Em relação ao processo eleitoral, aqui em Alagoas, Renan Filho tem posição definida: é pré-candidato ao governo e está pronto para marchar mais uma vez com Lula na sucessão presidencial. Deve inclusive participar da discussão sobre a escolha do vice do petista.
Com o nome posto no tabuleiro da sucessão estadual, Renan Filho tem o respaldo das forças governistas que reúnem o governador Paulo Dantas (MDB), o senador Renan Calheiros, o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT), o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor (MDB), cerca de 20 deputados estaduais, dois federais, dois senadores, mais de 80 prefeitos e centenas de vereadores. Rolo compressor. Isso, sem falar na adesão poderosa do presidente Lula, cuja reeleição tem seu apoio espontâneo e programático.
E como não sabe se o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PL) sairá ou não candidato a governador ou a senador, o ministro e correligionário de Lula, que volta ao Senado em abril, para poder concorrer, disse na entrevista a O Globo que nunca pediu para JHC ficar de fora da disputa pelo governo. Também frisou que considera bem-vindo o apoio de Arthur Lira a Lula, mas lembrando que o deputado do PP não votou no presidente na última sucessão. Lira mira uma das vagas no Senado, já buscou o apoio de Lula e tentou sem êxito construir um entendimento com o MDB alagoano.
Com disposição, Renan Filho está pronto e ansioso para se engajar na reeleição do senador Renan Calheiros e, junto ao comando do MDB, ainda irá decidir se o partido lançará ou não um nome próprio para a segunda vaga de senador ou se apoiará outro postulante. Mas uma coisa é certa: no projeto de campanha desenhado por Renan Filho, Arthur Lira é opção fora de cogitação.


