A luta de classes mudou de forma, mas não deixou de existir

Diferentes váriações das lutas de classes e como elas se manifestam

Por Portal Brasil Popular 30/01/2026 14h02 - Atualizado em 30/01/2026 14h02
A luta de classes mudou de forma, mas não deixou de existir
As várias formas de manifestações das lutas de classes - Foto: Reprodução

Por muito tempo, a luta de classes foi identificada quase exclusivamente com o chão da fábrica: patrões de um lado, trabalhadores do outro, disputando salários, jornadas e direitos. Essa imagem marcou o século XX, ajudou a construir conquistas históricas. No entanto, o mundo mudou — e com ele, a forma como essa luta se expressa na sociedade contemporânea.

Isso não significa que as classes sociais tenham desaparecido ou que as contradições do capitalismo tenham sido superadas. A desigualdade continua, a concentração de riqueza se aprofunda e o trabalho segue sendo explorado. O que mudou foi o centro do conflito, que hoje se deslocou para a disputa pelo modelo de desenvolvimento e pelo projeto de sociedade.

Hoje, a luta de classes não se resume apenas à relação direta entre capital e trabalho formal. Ela se manifesta na forma como a economia é organizada, em quem controla os recursos financeiros, em quem controla os instrumentos virtuais, serviços terceirizados, em quem define as prioridades do investimento público e privado e quais vidas são consideradas descartáveis ou protegidas. O confronto sai do espaço restrito da produção e se espalha pelo território, pela política, pela cultura e pela vida cotidiana.

Esse novo cenário incorpora dimensões antes tratadas como secundárias, mas que hoje se mostram centrais: gênero, raça, geração, meio ambiente, movimentos sociais, identidade, território e formas diversas de viver. Mulheres, juventudes, povos indígenas, população negra, comunidades tradicionais e periféricas passaram a evidenciar que a exploração econômica se articula com múltiplas opressões históricas. Não se trata de fragmentar a luta, mas de ampliá-la de forma estratégica e com unidade, tendo como centro um modelo de desenvolvimento e um projeto de sociedade socialista que agrupe todas essas novas formas. Aqui pode e deve se apresentar a economia de base familiar, popular e solidária como método que expresse e faça valer e funcionar essa unidade. Devemos revelar, inclusive, como o capitalismo atua estrategicamente de maneira desigual sobre diferentes corpos e territórios de forma a separá-los em seus potenciais de unidade.

Ao mesmo tempo, o centro do poder econômico se deslocou do capital produtivo para o capital financeiro. A financeirização do capitalismo transformou o dinheiro em fim em si mesmo, desconectando-o da produção de bens, do trabalho e das necessidades reais da população. Bancos, fundos de investimento e grandes grupos financeiros passaram a comandar decisões que afetam países inteiros, definindo políticas públicas, níveis de endividamento e limites para direitos sociais.

Assim, a luta de classes não acabou — ela se reconfigurou. Continua sendo uma luta entre interesses antagônicos, mas agora o conflito se dá entre um modelo que subordina tudo à lógica da rentabilidade financeira e outro que defende um desenvolvimento voltado para a vida, para o território, para a democracia e para a justiça social. O debate é sobre que país queremos construir, que economia queremos fortalecer e sobre que valores. No centro dessa disputa está a pergunta fundamental: o desenvolvimento deve servir ao mercado financeiro capitalista ou às necessidades humanas? Não se trata mais de burgueses X operários.

Responder a essa questão é, hoje, uma das expressões mais profundas da luta de classes.

Delso Oliveira Andrade

Janeiro de 2026 2ª quinzena

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