'Eu sou o caminho, a verdade e... a morte!' O Big Boss não disse, mas deixou no ar
A medalha perdida, ele recebeu como brinde; já o Nobel permanece como sonho obsessivo
Bem ao seu estilo, em tom de arrogância e prepotência, Donald Trump enviou mensagem ao governo da Noruega expressando o que sente após ser preterido durante a entrega do Prêmio Nobel.
- Não me sinto mais obrigado a pensar apenas na paz.
Foi um recado a um dos países que reagiram ao anúncio do presidente dos Estados Unidos, que decidiu se apoderar da Groelândia, território marítimo autônomo e vinculado à Dinamarca.
Agindo como uma criança que teve o pirulito negado, e sob o impulso de quem se julgava credor do laurel, Trump não se acanhou por receber o que não lhe pertencia - a medalha do Nobel da Paz entregue durante evento realizado na Casa Branca, em Washington.
Invocando a façanha de haver acabado com oito guerras - é o que ele diz - Donald ameaçava bombardear o Irã no exato momento em que a Real Academia de Ciências da Suécia ensaiava a outorga do Nobel em suas variadas categorias, incluindo a insígnia da Paz.
E enquanto Teerã pegava fogo com protestos e manifestações gigantes contra o governo de Ali Khamenei, chefe supremo do país islâmico, onde entre três mil e cinco mil insurretos acabaram mortos, Trump chegou a dizer que a 'ajuda' estava a caminho. O Oriente tremeu. Apesar disso, não houve ataques, nada de bombardeios.
Não ocorreu a matança, mas não por causa dos apelos de algumas nações árabes, como muitos imaginam. Em verdade, Trump não ordenou a ofensiva porque esperava pelo Nobel. E seria, claro, brutal contrassenso, terrível 'brincadeira de mau gosto', receber uma premiação em nome da paz dando início a uma guerra que tinha tudo para matar pessoas literalmente 'no atacado'.
Escanteado pela Academia Sueca, o don Vito Corleone de Washington ficou furioso, porém não esperneou, não explodiu com desabafos e críticas nos meios de comunicação. Contentou-se em despejar injusta e inoportuna reprimenda em cima de Maria Corina, vencedora do galardão da Paz.
Quem?
Justo a venezuelana que combateu pessoalmente o regime ditatorial de Nicolás Maduro, o troglodita que sucedeu Hugo Chaves e, sob acusação de vínculo com o narcotráfico, acabou sendo preso e sequestrado por agentes americanos que invadiram Caracas sob ordens do imperador sem trono.
Ninguém precisa de telepatia para manjar o que passou pela mente de Corina: "O cara é louco pelo Nobel da Paz, e já pegou o Maduro bombardeando Caracas. Sabe, vou lhe dar logo a medalha do meu Prêmio e rezar, suplicar a Deus pra induzi-lo a me esquecer". Antes tarde do que nunca.
Assim é a vida, o entorno, as decisões, as diabruras de Donald Trump. O presidente é um diversionista contumaz, mestre da desfaçatez, mas não consegue ocultar suas reais intenções porque não tem como.
Até tentou justificar a violenta operação contra Maduro alegando o combate ao narcotráfico, contudo o mundo inteiro sabia que o alvo do governo americano não era o regime nem seu ditador, e sim o petróleo da Venezuela (maior reserva do planeta). Quantos mortos? Dezenas...
Agora, ao mesmo tempo em que alega o 'perigo russo' ameaçando a Groelândia, ilha situada na região do Ártico e Atlântico, Trump quer porque quer se apoderar do território rico onde abundam terras raras e metais nobres, preciosidades que faltam aos Estados Unidos e sobram em 'solos concorrentes', como o da China.
Ante a reação dos países membros da OTAN e União Europeia, ordenou de pronto a aplicação de um tarifaço, enquanto forças navais de bandeira estadunidense se dirigiam para a região de uma improvável, por enquanto, mas sempre possível conflagração.
Em Davos, na Suíça, entretanto, Trump caiu na real e deu um passo atrás. Nada de ataques, nada de tarifaço. Em vez disso, inventou um 'acordo' com a OTAN para, sem disparos, abocanhar um pedaço da Groelândia. O melhor, é óbvio.
Em apenas um ano do segundo e turbulento mandato presidencial, Donald pintou e bordou. Com punições e ameaças que não poupam sequer aliados tradicionais e históricos, como Reino Unido e França, o marido da bela Melania ignora a ONU e não dá a mínima para o que o mundo chama de 'lei internacional'. No fundo, sabe que a China caminha célere para assumir a condição de maior potência do orbe, mas insiste em proclamar a supremacia dos Estados Unidos com base em sua ainda 'inigualável' capacidade de destruição.
Até aonde ele pode ir? Difícil estimar. Como teórico já provou ser capaz de mandar no mundo. Em devaneios, sonha com os líderes mundiais ajoelhados a seus pés. Ainda bem, quase sempre volta atrás em suas ameaças.
Cultiva a mania de grandeza como virtude sublime e adora lançar desafios. Sua ambição não tem limites. Antes de mirar a Groelândia, avisou que pretendia anexar o Canadá, outra potência petrolífera. O mundo teme que, numa de suas crises de inconformismo, cisme e ameace 'anexar' Moscou. Putin que se cuide. Não, Donald não é nenhum modelo de liderança, nenhum exemplo a seguir.
Muito pelo contrário.
E justamente por isso, ninguém deve se chocar se um dia ouvir de sua boca, em rasgo tonitruante, o que poderia ser sua temível e derradeira piada:
- Eu sou o caminho, a verdade e a morte!


