Careca da direita quer anistia, mas Renan rebate: "O que pacifica o país é golpista cumprindo pena"

Beneficiário do regime militar, Esperidião Amin insiste em anistiar Bolsonaro e seus cúmplices

Por Romero Vieira Belo 12/01/2026 06h06 - Atualizado em 12/01/2026 07h07
Careca da direita quer anistia, mas Renan rebate: 'O que pacifica o país é golpista cumprindo pena'
Esperidião Amin acha pouco reduzir penas e defende anistia geral para golpistas - Foto: Reprodução

Seu sobrenome é Amin, mas sem vínculo familiar com o homônimo africano (Idi Amin Dada, antigo ditador de Uganda e um dos maiores déspotas da história). Catarinense, Esperidião Amin se fez político ao lado do regime militar do pós-64, integrou a velha Arena e sempre esteve unido à direita cansada de guerras e derrotas.

Foi tudo em Santa Catarina: prefeito, governador, deputado e senador, sua condição política atual. Ângela Amin, sua mulher, hoje deputada, também fez da política o principal meio de vida.

Aos 78 anos, o senador Amin foi indicado relator do projeto da dosimetria, aprovado na Câmara e no Senado, mas vetado agora pelo presidente Lula. Bolsonarista, sempre considerou 'insuficiente' reduzir penas dos golpistas que tentaram implodir a democracia, derrubar Lula e devolver o poder a Bolsonaro. Ao assumir a relatoria, adiantou logo que defendia anistia para todo mundo.

Muito bem. Com o veto de Lula, Amin voltou a sonhar e apressou-se em apresentar novo projeto, sem dosimetria, sem comutação de penas, e sim com anistia ampla, geral e irrestrita. Justificativa: é o instrumento para 'pacificar o país'.

A tramitação da proposta de perdão total aos golpistas ainda depende de decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, mas Amin adianta no texto: "Propomos a anistia ampla e irrestrita de todos os que participaram de manifestações com motivação política ou eleitoral, ou as apoiaram, por quaisquer meios, inclusive contribuições, doações, apoio logístico ou prestação de serviços e publicações em mídias sociais e plataformas, relacionadas ao dia 8 de janeiro de 2023".

Trata-se, claro, de um incentivo, vigoroso estímulo ao golpismo. O que o projeto de Amin expressa, em sentido prático, é: "Se perder eleição e não aceitar o governo eleito, derrube-o, use a força, esqueça essa de democracia, de estado de direito. Se fracassarem, não serão punidos. Haverá anistia". Na essência, a proposta atenta contra o regime democrático. Exatamente como fizeram, com ações práticas e violentas, os bolsonaristas inconformados com a vitória de Lula nas urnas em 2022.

Para entender melhor o personagem, vale lembrar que Amin é um radical no que faz e defende. Exemplo: como deputado federal pelo PP, em 2016, apresentou emenda a um projeto de lei que originalmente combateria a corrupção, mas acrescentando que, se aprovado, todos os políticos com mandato seriam imediatamente perdoados (tornar-se-iam inimputáveis) por qualquer crime cometido há mais de 180 dias". Tão logo apresentada, a chamada 'emenda Amin' foi considerada por um procurador do Ministério Público Federal como "até mais grave que a anistia ao caixa dois. É a anistia na prática para todo e qualquer crime das pessoas com foro especial”.

Bolsonarista convicto, Amin agora fala em 'pacificar o país' com uma anistia que, de acordo com todas as pesquisas de opinião realizadas até aqui, contraria a vontade da maioria dos brasileiros. E o desplante assume caráter de afronta quando o bolsonarista ignora as decisões do poder que interpreta e aplica a Constituição - o Judiciário.

Descabelado, cabeça raspada e brilhante - lembra o personagem Kojak, interpretado pelo ator Telly Savallas no cinema - o Amin catarinense não é um patriota, nada fez pelo povo brasileiro, mas, não há como negar, serve direitinho para mostrar que o bolsonarismo também tem o seu 'careca radical, ousado e implacável'.

Ainda bem, o careca da direita enfrenta séria resistência no Senado. Renan Calheiros, por exemplo, não aceita sequer conversar sobre o projeto da Dosimetria, vetado por Lula, quanto mais discutir anistia. Para o senador alagoano, reduzir as penas de Bolsonaro e demais condenados pelos ataques do 8 de Janeiro configura "golpe parlamentar".

Renan diz e reitera que o Supremo Tribunal respeitou as prerrogativas de Bolsonaro e demais réus pelos atentados em Brasília, não cabendo, pois, qualquer revisão dos julgamentos. 

Convicto de que "formas de anistia enfraquecem a democracia ao invés de fortalecê-la", o ex-presidente do Congresso e ex-ministro da Justiça bate pesado nos adeptos do perdão defendido por Amin:

"As polianas que invocam pacificação onde não há conflagração se esquecem que o perdão aos facínoras de 1964 gerou os golpistas de hoje. O que pacifica o país é golpista cumprir pena", sentencia o presidente do MDB de Alagoas.

Blog do Romero

Política, governo, análises conjunturais, entrevistas e abordagens eleitorais

News title
Pesquise no blog
Sobre o blog

Iniciou-se no Jornalismo como redator do Diário de Pernambuco. Foi editor do Diário da Borborema (PB) e do Jornal de Alagoas. Exerceu os cargos de secretário de Comunicação da Prefeitura de Maceió e do Estado de Alagoas.

Arquivo