Trump não dá a mínima pra miséria, tiranias, direitos humanos, drogas. Mas tem uma obsessão...
Decadência do 'império americano' é o que realmente exaspera o financista da Casa Branca
Com um PIB perto de 29 trilhões de dólares, os Estados Unidos ainda lideram a economia mundial, mas a China se aproxima dos 20 trilhões de verdinhas e, no ritmo atual, em menos de 10 anos assumirá o posto de maior potência econômica do planeta.
Para a grande maioria das pessoas, inclusive dos EUA, a provável mudança hegemônica faz parte, não incomoda. Para o herói Donald Trump, porém, a arrancada da China não afeta apenas a posição do gigante americano, atinge e detona o orgulho de uma nação 'invencível'. E isso o imperador não suporta.
A derrubada de Nicolás Maduro, após invasão e sequestro com cenas hollywoodyanas em Caracas, pode parecer o desfecho da preocupação de Trump com um regime tirânico, com narcotráfico e afronta aos direitos humanos observados na Venezuela. Mas o buraco, topado de óleo, é muito mais embaixo.
Com os EUA perdendo a corrida econômica para a China, o financista da Casa Branca começou a se mexer para reverter o atual cenário. E os alvos, isso é óbvio, são os países com riquezas potenciais. Petróleo e metais nobres de terras raras.
Lembra do 'tarifaço' contra o Brasil? Lula e Bolsonaro eram apenas figurantes do enredo. Trump apostava que a pressão faria Lula se render oferecendo aos EUA, por exemplo, a exploração de terras raras. Mas o petista reagiu, invocou soberania, e Trump desistiu. Fez mais. Esqueceu rápido a condenação de Bolsonaro e sem perder tempo deu de ombros para as próprias acusações dirigidas ao Brasil. Não bastasse, ainda escolheu a assembleia geral da ONU para declarar uma 'química' entre ele e o mandatário brasileiro.
O que Trump quer, da Venezuela, é o petróleo. O país de Maduro tem a maior reserva do planeta: 304 bilhões de barris, contra apenas 68 bilhões dos Estados Unidos. Sem falar que Caracas vinha direcionando seu óleo para, isso mesmo, para a China.
Antes de Donald, o governo americano já havia caído em cima do Iraque nos tempos de Saddam Hussein. Ali, o estoque de petróleo é o 4º do mundo: 145 bilhões de barris. Mais recentemente o alvo foi o Irã com 157 bilhões de barris.
Sim, o mundo ainda não esqueceu: antes mesmo de assumir a presidência em janeiro passado, Trump já falava em 'anexar' o Canadá. Por quê? O que tem lá no território vizinho aos EUA além de florestas e madeiras? Apenas 168 bilhões de barris de petróleo...
E quanto à tirania, será que a ação de governantes tiranos incomoda o grande humanista?
Claro, Donald Trump é muito sensível e não suporta violação dos direitos humanos. Nenhuma concessão a ditadores, a governos que massacram populações pobres e desassistidas. Espera, será que é assim mesmo? Por que então as tropas de elite ianques não invadem e derrubam governantes de nações opressoras a exemplo do Congo, Guiné, Chade, Gabão, Moçambique e tantas outras africanas? Sabe qual a reserva de petróleo por lá? Zero.
Com relação ao narcotráfico, a posição de Trump é bem mais incômoda para ele próprio. Afinal, nenhum país consome tanta maconha quanto os Estados Unidos, considerados um 'gigante da indústria global de cannabis'. E o que faz o inquilino da Casa Branca para reprimir o consumo descontrolado nos limites dos EUA? O que faz o governo Trump para impedir a entrada de drogas no país?
O consumo corre solto lá dentro, mas também na vizinhança, pois o México, com poderosos cartéis, são outro exemplo de manutenção do narcotráfico em alta escala e, acintosamente, nas barbas do governo estadunidense.
É isso.
Obcecado com a difícil conjuntura econômica americana, Trump também ignora outra realidade terrível: a mortal agressão da Rússia contra a Ucrânia. Com Maduro não teve conversa - invasão, sequestro e ponto final. E com Putin? Moscou está destruindo Kiev, bombardeando e matando a população civil ucraniana, e nada de Trump berrar.
No Leste europeu, Putin não passa de um James Bond às avessas, mas convencido que de que tem licença para atirar e matar - quem, quando e onde quiser. Sem resistência, sem objeção. E como o velho Trump, a ONU também só faz gastar saliva.
Em verdade, até que houve uns contatos, uns telefonemas, uns ensaios de Trump falando em trégua, em acordo de paz entre Rússia e Ucrânia. Sério. Mas apenas enquanto durou a campanha pelo Nobel da Paz.
Depois que o prêmio saiu para a venezuelana Maria Corina Machado (opositora de Maduro), Donald deu de ombros, lavou as mãos. Derrotado como pacifista adepto de soluções a bala, o poderoso chefão ainda acabou usando tom áspero ao referir-se à Corina após a operação que prendeu e sequestrou Maduro e sua mulher.
Próxima vítima? A Groelândia - sem narcotráfico, sem violação aos direitos humanos, sem tirania - ainda assim entrou na mira do comando tático que tomou de assalto o poder na Venezuela. A ilha integra a região da Dinamarca e é riquíssima em terras raras e metais nobres. Mas não custa lembrar que a Colômbia tem só 1,3 bilhão de barris de petróleo e, apesar disso, Trump já avisou que sua tropa de elite também está de olho na rapaziada de Bogotá.


