Jaques, o líder, ou Renan, o amigo. Com quem Lula fica na peleja da dosimetria?
Senador alagoano execra golpistas e ironiza o que seria 'acordo da guilhotina com a cabeça'
Um acordo intramuros, negociado e firmado pelo líder do governo no Senado, o baiano Jaques Wagner (PT) e a oposição, deixou o presidente Lula numa situação profundamente incômoda. Pelo acerto, os governistas evitariam embate e facilitariam a aprovação do polêmico PL da Dosimetria, que reduz penas dos golpistas do 8 de Janeiro. Em troca, a oposição ajudaria a aprovar projeto que reduz isenção fiscal e turbina os cofres da União.
A proposta gestada na Câmara para reduzir as penas aplicadas pelo Supremo Tribunal aos golpistas que tentaram derrubar o governo do presidente Lula, havia sido aprovada com folga pelos deputados, mas, conforme todas as previsões, encontraria resistência inflexível no Senado.
Até que surgiu Jaques Wagner com a versão de que estaria autorizado a negociar e apoiar a fórmula concebida na Câmara para mitigar as punições aos envolvidos com a fracassada tentativa de derrubada do regime democrático, incluindo - e principalmente - o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Controvérsias, afirmações e desmentidos, críticas e aplausos, combustível interminável para os motores da mídia. Sob esse clima, a Dosimetria acabou aprovada no Senado com um toque de malandragem: mexeram no mérito da proposta, mas fizeram de conta que só houve mudança redacional. Assim sendo, o PL não precisaria mais voltar para reapreciação pelos deputados.
Cumprido o roteiro legislativo, compete agora ao presidente da República sancionar ou vetar a matéria aprovada.
Após a votação, dois personagens governistas produziram um choque de opiniões, um defendendo e o outro condenando a oferenda desimétrica: Jaques Wagner (PT) e Renan Calheiros (MDB), respectivamente.
Enquanto o senador baiano insiste em dizer que fez o que o governo queria, o alagoano desanca o projeto afirmando que "o que pacifica o país é golpista cumprir pena".
Em discurso da tribuna, afirmou Renan:
- Desde quando golpistas têm legitimidade para negociar anistia ou dosimetria? Seria o acordo da guilhotina com a cabeça. Se for, a nossa estaria, em qualquer circunstância, a prêmio. Para golpistas não há perdão judicial, não há anistia congressual nem indulto presidencial. Além de inconstitucional, é imoral e rejeitada pela sociedade.
E então, com quem Lula vai ficar - com o líder petista no Senado ou com o aliado e amigo de longas batalhas políticas?
O presidente já tomou uma posição, muito clara, sem margem para 'interpretações': nada de dosimetria. Após acompanhar à distância a tramitação e aprovação do projeto nas duas Casas, Lula reagiu de pronto: "Não houve acordo nenhum, o governo não foi comunicado. E se o governo não foi informado, não houve acordo". Ao mesmo tempo, o presidente adiantou que, tão logo chegue às suas mãos, o projeto descabido será vetado.
Jaques Wagner pisou na bola ou simplesmente ignora as posições do presidente e do governo que representa no Senado. Lula jamais daria aval a um acordo para afrontar um julgamento do Supremo Tribunal, ainda mais apoiando uma proposta para beneficiar os golpistas que tentaram derrubar o seu governo e tinham no roteiro do golpe o assassinato do próprio presidente, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Renan Calheiros agiu, mais uma vez, como um fiel aliado, parceiro e solidário ao presidente Lula, mas também como um parlamentar coerente, defensor da legalidade, do estado democrático de direito e um combatente de causas que interessam ao governo e à Nação, como a derrubada da PEC da Blindagem e o projeto de isenção do Imposto de Renda - que ele relatou no Senado - beneficiando 15 milhões de contribuintes brasileiros.


