Banco de sementes e agricultura orgânica: a resistência de Gia em Delmiro Gouveia

Na Feira da Agricultura Familiar, Cláudio Gonzaga mostrou que é possível cultivar qualidade sem agrotóxicos

Por Nichollas Judson* com Alagoas Rural 12/12/2025 14h02 - Atualizado em 12/12/2025 15h03
Banco de sementes e agricultura orgânica: a resistência de Gia em Delmiro Gouveia
Pequeno produtor Gia insiste no plantio e colheita de alimentos sem agrotóxicos no Sertão de Alagoas - Foto: Reprodução/Alagoas Rural

Na Feira da Agricultura Familiar de Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas, quem se aproxima da banca de Cláudio Gonzaga, o popular Gia, encontra uma verdadeira vitrine da agricultura orgânica.

Em meio ao clima árido, ele cultiva cacau, milho crioulo, feijão de arranca, hortelã, alecrim, banana-pão, banana-maçã e até morangos, todos 100% livres de veneno e hormônios.

Gia se orgulha de preservar espécies nativas e manter um banco de sementes crioulas, que garante independência de fornecedores comerciais. Ele afirma: “Eu gosto de dar valor à coisa que é nativa. Eu tenho a minha semente crioula, eu não vou precisar ir para uma loja comprar.”

Entre os destaques está a banana-pão, fruta em extinção que poucos ainda cultivam. Diferente da banana-da-terra, que só pode ser consumida cozida, a banana-pão pode ser comida crua ou cozida, o que a torna mais versátil e saborosa.

Mas o que mais chama atenção é a ousadia de plantar morango em pleno Sertão. Gia brinca com a fama de teimoso: “O povo diz que eu sou meio teimoso. Então, eu estou com mil pés desse morango plantado. O pessoal diz ‘está no sertão’, mas eu colhi hoje. Pode provar.”

A roça de Gia é um exemplo de agrofloresta: além das lavouras, há bode, galinha de capoeira, peixe e até artesanato feito com produtos da terra. Ele explica: “A gente não tem condições de botar um trabalhador, então cada dia eu faço um pouquinho de coisa. Lá tem de tudo um pouquinho.”

A família também participa do processo. A irmã de Gia agrega valor à produção com doces caseiros de mamão e goiaba, feitos com frutas da própria roça. O produtor ainda aproveita o coco seco para preparar receitas que duram até 15 dias sem perder a qualidade, reforçando a ideia de aproveitamento integral e sustentável.

Outro destaque é o cultivo de pimentão manteiga legítimo, uma variedade rara que está há mais de 30 anos na família. Gia explica: “Esse o senhor não acha para vender em loja. Eu tenho um banco de sementes que garante
que não se perca.”

Ele também mostra sua preocupação com a natureza ao recuperar plantas descartadas, como orquídeas jogadas fora, que transforma em substratos naturais. Esse trabalho ele compartilha em seu Instagram @produtosdogia,
ensinando técnicas simples e sustentáveis.

Com apenas quatro tarefas de terra, Gia prova que é possível produzir diversidade, qualidade e sustentabilidade no Sertão. Sua banca na feira é mais que um ponto de venda: é um espaço de resistência cultural e ambiental, onde cada produto carrega a mensagem de que é possível produzir com qualidade, respeitando a natureza e valorizando o que é nativo.

*Estagiário sob supervisão

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