Agro

Exportações de carne bovina podem cair com menor demanda da China

Abiec prevê redução de 10% nos embarques em 2026 e alerta para impactos no mercado interno

Por Redação 19/07/2026 14h02
Exportações de carne bovina podem cair com menor demanda da China
Abiec prevê queda nas exportações e alerta para impactos no mercado interno da proteína bovina - Foto: Reprodução

A indústria brasileira de carne bovina deve enfrentar um cenário mais desafiador no segundo semestre de 2026, com redução da demanda internacional e pressão sobre os preços de exportação. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o setor deve embarcar 10% menos proteína bovina em comparação com 2025, quando foram exportadas 3,5 milhões de toneladas.

A previsão ocorre após o esgotamento da cota de importação da China para a carne bovina brasileira em 2026. Com a redução da participação do principal comprador, a entidade avalia que haverá menor pressão de compra no mercado internacional, afetando os valores recebidos pelas indústrias.

Entre janeiro e junho deste ano, as exportações alcançaram 1,7 milhão de toneladas, crescimento de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025. O faturamento chegou a US$ 9,8 bilhões, alta de 36,2%, enquanto o preço médio recebido aumentou quase 18%, chegando a US$ 5,7 mil por tonelada.

“Vimos um movimento de vendas muito positivo para a China, mas com as cotas fez diminuir o ritmo de vendas. Quando o mundo sabe que não tem um grande comprador disponível como a China, todas as negociações diminuem a pressão de preço”, disse Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Segundo Perosa, a queda nas vendas externas e nos preços internacionais deve atingir toda a cadeia produtiva. O executivo destacou que o impacto poderá chegar ao mercado interno, embora uma possível redução inicial dos preços ao consumidor possa ser limitada pela diminuição da produção.

“Em um primeiro momento, pode ter arrefecimento do preço no mercado interno, mas os custos não diminuíram. Deve haver diminuição da produção e, com isso, o preço volta a subir, pois tem menos oferta. É um efeito rebote que estamos vendo”, disse.

O presidente da Abiec explicou que a formação dos preços da carne bovina no Brasil depende diretamente do desempenho das exportações. Segundo ele, as vendas externas ajudam a equilibrar o mercado e garantem melhor remuneração para determinados cortes.

“A exportação complementa e faz um mix que nos permite não fazer elevação aguda de preços no mercado interno”, completou.

Além dos impactos provocados pela redução das compras chinesas, o setor acompanha as negociações com a União Europeia. A indústria avalia que existe possibilidade de interrupção das vendas para o bloco europeu a partir de setembro, caso o Brasil não consiga atender às exigências relacionadas à comprovação técnica de não uso de antimicrobianos nos animais destinados ao mercado europeu.

Apesar de representar cerca de 6% do volume e do faturamento das exportações brasileiras, a União Europeia é considerada estratégica pela formação de preços e pela reputação da carne nacional.

“É um mercado com alto valor agregado, que importa cortes que não têm destinação na Ásia e é importante nesse mix. As exportações para lá ajudam a tirar pressão para formação de preço aqui”, afirmou Perosa.

De acordo com a Abiec, uma eventual interrupção das vendas para a Europa poderia durar pelo menos dois anos, período necessário para acompanhar o ciclo de vida dos bovinos e comprovar o atendimento às exigências do mercado europeu.

O cenário também aumenta a pressão sobre os frigoríficos brasileiros. A entidade afirma que muitas empresas enfrentam margens negativas devido à menor demanda externa, custos elevados e dificuldades para manter a rentabilidade.

"Hoje, a maioria das indústrias está trabalhando no vermelho. Claro que elas vêm de alguns anos positivos, mas o momento atual é de margens negativas", afirmou o presidente da Abiec.

Segundo a associação, algumas empresas já adotaram medidas como férias coletivas, redução do ritmo de abate, programas de layoff e ajustes no quadro de funcionários para enfrentar o período de menor demanda internacional.

A recuperação das margens, segundo a entidade, dependerá da abertura de novos mercados e da retomada das exportações para destinos estratégicos como China e União Europeia.