Agro
Queda de preços da cana tira quase R$ 1 bilhão da economia de AL
A safra 2025/2026 terminou com números inesperados para o setor sucroenergético alagoano. A produção de cana cresceu, mas o faturamento caiu.
O balanço financeiro oficial da safra ainda não foi divulgado pelo Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Alagoas (Sindaçúcar-AL).
No entanto, levantamento realizado pelo Blog do Edivaldo Júnior aponta que a cadeia produtiva da cana-de-açúcar pode ter perdido cerca de R$ 872 milhões em faturamento com a venda de açúcar e etanol no ciclo 2025/2026.
A estimativa, apesar de feita com base nos dados oficiais do Sindaçúcar-AL, Consecana e Cepea/Esalq, não é completa, pois não leva em consideração a venda de energia cogerada ou picos de comercialização registrados durante a safra. O levantamento apensa considerou os volumes produzidos e os preços médios do açúcar e do etanol ao longo das duas últimas safras.
O dado Os cálculos indicam que o faturamento bruto do setor passou de aproximadamente R$ 6,16 bilhões na safra 2024/2025 para cerca de R$ 5,28 bilhões na safra encerrada em maio deste ano.
A redução ocorreu apesar do crescimento da moagem de cana em 1,71%, saindo de 17,49 milhões para 17,79 milhões de toneladas.
O problema esteve no mercado. Ao longo da safra, o setor enfrentou forte queda nas cotações internacionais do açúcar, redução do ATR — indicador que define o pagamento da cana aos fornecedores — e equilíbrio nos preços do etanol em parte do ciclo.
A produção de açúcar caiu 12,06%, passando de 1,61 milhão para 1,42 milhão de toneladas. Já a produção de etanol cresceu 19,27%, saltando de 405,6 milhões para 483,8 milhões de litros.
O impacto atingiu toda a cadeia produtiva. As usinas perderam receita e os fornecedores independentes e cooperados sofreram ainda mais com a combinação de menor produção e redução na remuneração da cana.
Levantamentos anteriores já apontavam perdas de até R$ 600 milhões apenas entre fornecedores e cooperados.
Mas os efeitos vão além da porteira.
Menos dinheiro circulando no setor significa menos investimentos em renovação de canaviais, compra de insumos, contratação de serviços, transporte, comércio e geração de renda nos municípios que dependem da atividade.
Por isso, a perda estimada de quase R$ 1 bilhão não representa apenas uma redução no faturamento das empresas do setor. Representa uma desaceleração econômica em uma das cadeias produtivas mais importantes de Alagoas.
O cenário ajuda a explicar a mobilização das entidades representativas dos produtores, que buscam apoio dos governos estadual e federal para enfrentar a crise e evitar que os reflexos sejam ainda maiores na próxima safra.
Como foi feito o cálculo
A estimativa de faturamento foi elaborada pelo Blog do Edivaldo Júnior com base nos volumes oficiais de produção divulgados pelo Sindaçúcar-AL, nos dados do Consecana e nas séries de preços do Cepea/Esalq para açúcar e etanol ao longo das safras 2024/2025 e 2025/2026.
Safra 2024/2025
* Cana processada: 17,49 milhões de toneladas
* Açúcar produzido: 1,613 milhão de toneladas
* Etanol produzido: 405,6 milhões de litros
* Preço médio do açúcar: R$ 3.095 por tonelada
* Preço médio do etanol: R$ 2,86 por litro
* ATR médio: 139,10 kg por tonelada de cana
* Valor médio da tonelada de cana: R$ 163,53
* Faturamento estimado: R$ 6,16 bilhões
**Safra 2025/2026**
* Cana processada: 17,79 milhões de toneladas
* Açúcar produzido: 1,418 milhão de toneladas
* Etanol produzido: 483,8 milhões de litros
* Preço médio do açúcar: R$ 2.658 por tonelada
* Preço médio do etanol: R$ 3,12 por litro
* ATR médio: 133,19 kg por tonelada de cana
* Valor médio da tonelada de cana: R$ 137,07
* Faturamento estimado: R$ 5,28 bilhões
O que explica a perda
* Açúcar: queda média de 14,1% nos preços
* ATR: redução de 4,25%
* Tonelada de cana: queda de 16,2%
* Receita total do setor: retração estimada de R$ 872 milhões
O dado que mais chama atenção é que a produção de etanol cresceu 19,3% e o biocombustível ficou mais valorizado durante boa parte da safra. Mesmo assim, o ganho não foi suficiente para compensar a forte queda do açúcar, principal produto da pauta exportadora do setor sucroenergético alagoano.
Na prática, Alagoas moeu mais cana, produziu mais etanol, mas terminou a safra com menos dinheiro circulando na economia. Esse é o retrato mais claro da crise enfrentada por fornecedores, cooperados, transportadores, prestadores de serviços e pelas próprias usinas ao longo do ciclo 2025/2026.


