Agro
Alta dos fertilizantes reduz vantagem competitiva do agro brasileiro
Dependência de importações e avanço dos preços pressionam produtores e podem frear expansão do setor
O aumento dos preços dos fertilizantes no mercado internacional tem reduzido uma das principais vantagens competitivas do agronegócio brasileiro em relação aos Estados Unidos. A forte dependência de importações, agravada pelas dificuldades no transporte marítimo provocadas pelas tensões no Oriente Médio, preocupa produtores e especialistas, que apontam riscos para a expansão do setor.
A disponibilidade de terras amplas e de menor custo permitiu ao Brasil ampliar significativamente sua área agrícola nas últimas décadas, conquistando espaço no mercado internacional, especialmente nas exportações para a China. No entanto, a alta dos insumos ameaça esse cenário favorável.
Cerca de um terço do fluxo mundial de fertilizantes passou a enfrentar restrições no estreito de Hormuz desde o início do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Enquanto os norte-americanos produzem grande parte dos fertilizantes que utilizam, os agricultores brasileiros dependem das importações e já reduziram as compras para a próxima safra.
"A lucratividade não existe", afirmou Murilo Rabelo Martins Pereira, agricultor de Goiás. "Expansão é algo que todo mundo está revendo nesse momento."
Produtor de soja, milho e tomate em uma área de 800 hectares, Pereira explicou que o aumento dos custos de produção tornou arriscada a ampliação das atividades, mesmo diante de propostas para arrendamento de novas terras.
Para a economista agrícola Joana Colussi, da Universidade Purdue, a tendência é de desaceleração do crescimento do setor. Segundo ela, os produtores devem concentrar recursos na compra de fertilizantes, sementes e combustíveis, reduzindo investimentos em expansão.
O desenvolvimento da agricultura brasileira ganhou força com o crescimento da demanda chinesa, impulsionando a conversão de áreas de pastagem em lavouras de soja e milho. Esse movimento colocou Brasil e Estados Unidos em competição direta pelo mercado internacional.
As disputas comerciais entre Washington e Pequim também favoreceram o Brasil. As tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump estimularam a China a diversificar seus fornecedores, ampliando as compras da produção brasileira.
No entanto, para a safra 2026/27, o cenário é mais desafiador. O analista da Expana, Murphy Campbell, avalia que os produtores brasileiros enfrentam uma situação mais delicada devido ao calendário agrícola, já que o período de aquisição de fertilizantes coincide com a escalada dos preços.
O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes como o DAP e a ureia nitrogenada, o produto mais utilizado na agricultura mundial. Para reduzir essa vulnerabilidade, a Petrobras retomou operações em algumas fábricas de fertilizantes e projeta atender a cerca de 35% da demanda nacional de nitrogenados nos próximos anos.
Apesar do aumento dos custos, os preços da soja e do milho tiveram valorização limitada, reflexo dos elevados estoques globais acumulados após grandes colheitas recentes. Esse desequilíbrio tem comprimido as margens dos agricultores, principalmente daqueles que dependem dos insumos importados.
Dados do setor mostram que, até o fim de maio, os produtores brasileiros de soja haviam adquirido aproximadamente metade do volume necessário de fertilizantes para a safra 2026/27, percentual inferior ao registrado historicamente para o período.
Uma menor utilização de fertilizantes pode comprometer a produtividade das lavouras e ampliar as dificuldades financeiras dos produtores. "Eles estão superalavancados", afirmou Bruno Fonseca, analista do Rabobank no Brasil.
A expectativa é de que os preços dos fertilizantes permaneçam elevados pelos próximos seis meses, em razão das incertezas no Oriente Médio. Diante desse cenário, muitos produtores já revisam investimentos.
"Este ano a gente tinha planejado fazer a troca de colheitadeiras. Nós abortamos, olhamos o cenário e decidimos não fazer", concluiu Murilo Rabelo Martins Pereira.


