Agro
Juros altos e crédito restrito levam produtores a cortar investimentos para a próxima safra
Produtores em diferentes regiões do país já sinalizam que pretendem diminuir a área cultivada, especialmente de soja, como forma de conter riscos em um cenário de incertezas econômicas
Diante de juros elevados, aumento do endividamento, crédito mais restrito e alta nos custos de insumos como fertilizantes, o agronegócio brasileiro adota uma postura mais cautelosa para a próxima safra. A pressão sobre as margens e o encarecimento do financiamento têm levado produtores a rever planos e adiar investimentos, com impacto direto na área plantada.
Entre as decisões mais relevantes está a redução do plantio. Produtores em diferentes regiões do país já sinalizam que pretendem diminuir a área cultivada, especialmente de soja, como forma de conter riscos em um cenário de incertezas econômicas.
É o caso de Anna Paula Nunes, produtora de grãos e cana-de-açúcar em Boa Esperança do Sul (SP). Ela afirma que deve reduzir em pelo menos 30% a área dedicada à soja na próxima safra. No último ciclo, cultivou 950 hectares; agora, a previsão é plantar cerca de 600 hectares.
Segundo a produtora, a insegurança quanto ao mercado tem pesado na decisão. A recente queda no preço do ATR (Açúcar Total Recuperável), que impacta diretamente o valor da cana, também influencia o planejamento na região. “A ideia é fazer um plantio mais enxuto, bem feito, e acompanhar o comportamento do mercado antes de avançar”, afirma.
O movimento de cautela também se reflete nos investimentos em tecnologia. A Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, realizada em Ribeirão Preto, registrou queda de 22% na intenção de negócios em relação ao ano anterior. Mesmo com R$ 11,4 bilhões movimentados entre vendas e prospecções em 2026, produtores demonstraram maior hesitação na hora de fechar contratos.
A própria Anna visitou a feira, mas preferiu não concluir negociações. “Vi máquinas que me interessam, deixei conversas em andamento, mas decidi esperar para avaliar melhor antes de investir”, disse.
Para o empresário e produtor rural Artur Monassi, o cenário atual está entre os mais desafiadores dos últimos anos. Ele aponta o aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial no setor como sinal de alerta. “A produção agrícola depende de margens positivas. Hoje, o produtor precisa investir milhões sem garantia de retorno, o que torna o risco muito elevado”, afirma.
Segundo ele, a retração nas vendas também tem levado fabricantes de máquinas a adotar medidas como férias coletivas e cortes de pessoal para preservar margens. Esse movimento, no entanto, pode gerar efeito colateral no futuro, com possível alta nos preços por redução da oferta. “É uma ciranda perigosa. Podemos voltar a ver inflação nos equipamentos por falta de produto”, avalia.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento mostram que, no último ano, o Brasil ampliou em 2,4% a área de soja e em 2,3% o total de grãos cultivados. A expectativa agora é de desaceleração, com a primeira estimativa oficial da próxima safra prevista para os próximos meses.
A cautela também chegou ao sistema financeiro. Bancos e cooperativas de crédito têm adotado critérios mais rigorosos na concessão de crédito rural, diante do aumento da inadimplência e dos pedidos de recuperação judicial.
Segundo Vitor Moraes, superintendente do Sicredi, o momento exige maior proximidade com o produtor. “Não basta mais oferecer crédito. É preciso analisar fluxo de caixa, prever cenários de clima e preços e, em muitos casos, estruturar operações que ajudem a reduzir riscos”, explica.
Na mesma linha, Nielder Honorato, da Caixa Econômica Federal, afirma que as instituições estão mais envolvidas na avaliação dos projetos financiados. “Há uma preocupação maior com o resultado do investimento e com a sustentabilidade da operação no longo prazo”, diz.
*Com informações do Globo Rural


