Agro
Indústria testa motores a etanol para reduzir custos e emissões no campo
Aposta nos biocombustíveis para veículos pesados vem crescendo à medida que os custos de produção e a demanda por operações mais sustentáveis aumentam
Em meio ao aumento dos custos provocado por tensões no Oriente Médio — que elevaram os preços dos combustíveis fósseis — e à crescente pressão sobre a rentabilidade do produtor rural brasileiro, fabricantes de máquinas agrícolas apresentaram na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), alternativas voltadas à descarbonização. Entre elas, os motores movidos a etanol ganharam destaque, impulsionados pela forte produção nacional, especialmente com o avanço do etanol de milho.
Apesar do interesse, a tecnologia ainda está em fase de testes, etapa anterior à validação comercial. Entre as empresas, a Valtra é a única que já projeta um cronograma para lançamento. Segundo Cláudio Esteves, diretor de vendas da marca — que integra o grupo AGCO ao lado da Massey Ferguson e da Fendt —, os equipamentos já ultrapassaram 10 mil horas de testes em lavouras de cana-de-açúcar.
De acordo com ele, a fase atual envolve ajustes finos, como a curva de potência, e a expectativa é de entrada mais consistente no mercado a partir de 2029.
A Massey Ferguson também avança no desenvolvimento de tratores movidos a etanol, com potência entre 200 e 300 cavalos, e apresentou na feira o motor AGCO Power, desenvolvido integralmente pela engenharia da empresa no Brasil.
Já a Fendt aposta, por enquanto, na eletrificação. A marca já comercializa tratores elétricos na Europa e nos Estados Unidos e avalia a possibilidade de trazer essa tecnologia ao Brasil. Segundo Marcelo Traldi, vice-presidente da Fendt e Valtra na América do Sul, o desafio ainda está na infraestrutura de recarga.
Ele destaca que, embora a solução elétrica esteja pronta, a empresa busca alternativas que equilibrem eficiência energética, redução de consumo e viabilidade operacional no campo. O vice-presidente global da Fendt, Torsten Dehner, afirma que os modelos elétricos desenvolvidos na Alemanha podem gerar economia de até 20% no uso de combustível, enquanto a companhia também investe em versões híbridas.
Na Case IH, do grupo CNH, os estudos com etanol começaram em 2024. Durante a Agrishow, a empresa apresentou o motor Cursor 13, desenvolvido no Brasil em parceria com a FPT Industrial. Segundo Paulo Arabian, vice-presidente de vendas agrícolas da CNH para a América Latina, os testes já indicam resultados positivos.
Uma colheitadeira operou durante toda a safra passada sem interrupções, enquanto um trator acumulou cerca de 800 horas de uso com etanol. Os testes seguem nesta safra, agora com uma colheitadeira de uma linha, com expectativa de desempenho ainda melhor, especialmente em consumo.
Arabian ressalta que não há uma única solução para a transição energética no agronegócio. Segundo ele, o futuro será baseado na combinação de diferentes fontes, como eletrificação, biometano, etanol e biodiesel, adaptadas às diversas realidades produtivas.
A Case Construction também desenvolve uma pá-carregadeira movida a etanol, já testada em ambiente industrial e em fase de avaliação em propriedades rurais, com foco na redução de custos para o setor sucroenergético.
Outra empresa que investe na tecnologia é a Jacto, referência em equipamentos de pulverização. De acordo com o CEO Carlos Haushahn, o projeto ainda está em testes e sem previsão de lançamento. Ele destaca que o avanço do etanol de milho pode ampliar o uso do combustível, mas aponta desafios técnicos, como o poder calorífico necessário para atender à demanda de torque das máquinas.
As fabricantes, no entanto, ainda não divulgam dados detalhados sobre consumo ou desempenho alcançado nos testes.
*Com informações do Globo Rural


