Agro
Dólar mais baixo pressiona preços do café no Brasil
Câmbio ganha protagonismo nas vendas e exige novas estratégias do produtor diante de volatilidade e mercado interno aquecido
A comercialização do café brasileiro atravessa uma fase de transformação, em que o câmbio passou a exercer influência decisiva não só na formação de preços, mas também na estratégia de venda dos produtores. Historicamente orientado pela bolsa internacional, o setor agora demanda uma análise mais ampla, na qual o comportamento do dólar pode tanto impulsionar quanto travar negociações, além de abrir espaço para alternativas no mercado interno.
O café é negociado globalmente com base na ICE Futures US, com valores definidos em dólar. No Brasil, o preço recebido pelo produtor resulta da conversão dessa cotação para reais, o que faz com que variações cambiais impactem diretamente o mercado interno, mesmo quando a bolsa apresenta oscilações mais moderadas.
Nos últimos dias, o dólar registrou forte volatilidade, saindo da faixa de R$ 5,20, recuando para níveis próximos de R$ 4,97 e operando ao redor de R$ 5,00 em 27 de abril. Apesar de parecer um movimento limitado, a oscilação tem alterado o comportamento dos agentes do setor.
Segundo o economista e analista de mercado de café Thiago Rosa, o impacto direto do câmbio sobre o preço da saca, combinado com a bolsa, gira entre R$ 50 e R$ 60. No entanto, o efeito mais significativo está na dinâmica do mercado. A queda do dólar, somada à redução de cerca de 7% no diferencial de preço, resultou em perda real próxima de R$ 80 por saca, reduzindo o interesse dos exportadores e deixando o ambiente mais retraído.
Na prática, isso se reflete em menor demanda e maior dificuldade de negociação. Com compradores menos ativos, o produtor enfrenta um cenário mais travado, em que a decisão de venda depende não apenas do preço, mas do momento cambial.
Esse contexto reforça uma mudança de comportamento. Em períodos de dólar mais baixo, há tendência de retenção da oferta, enquanto picos da moeda criam janelas rápidas de comercialização. Ao mesmo tempo, a leitura do mercado se torna mais complexa, já que bolsa e câmbio nem sempre seguem a mesma direção.
Mercado interno ganha relevância
Apesar da forte influência externa, parte significativa da comercialização do café ocorre no mercado interno, em reais e voltada ao consumo doméstico, um dos maiores do mundo. Em momentos de alta volatilidade cambial, esse segmento ganha ainda mais relevância.
De acordo com o analista de mercado e diretor da Pharos Consultoria, Haroldo Bonfá, a instabilidade do dólar tem levado produtores a buscar alternativas fora da exportação.
Ele afirma que muitos agentes têm direcionado vendas para o mercado interno para reduzir a exposição às oscilações cambiais. Nesse ambiente, as negociações são feitas em reais, o que diminui os riscos associados à moeda norte-americana.
Ao mesmo tempo, Bonfá destaca que o mercado opera com expectativas distintas para o câmbio. O boletim Focus, divulgado pelo Banco Central do Brasil, indicava projeções próximas de R$ 5,30 para o fim do ano, criando diferença relevante em relação aos níveis atuais, ao redor de R$ 5,00.
Na avaliação do analista, embora o dólar possa registrar alta em determinados momentos, o cenário global tem favorecido a entrada de capital no Brasil. Esse movimento é refletido no aumento do fluxo para a bolsa brasileira, a B3, que tem acumulado sucessivos recordes de entrada de recursos estrangeiros.
Diante disso, o produtor se vê entre duas estratégias: vender no mercado interno, reduzindo a exposição ao câmbio, ou acompanhar de perto as variações do dólar em busca de melhores oportunidades na exportação.
Fluxo financeiro influencia preços
Outro fator que aumenta a complexidade da comercialização é a atuação do capital financeiro sobre os preços internacionais. Conforme Thiago Rosa, o comportamento do café nas bolsas está diretamente ligado à movimentação de fundos de investimento, classificados como não comerciais nos dados da Commodity Futures Trading Commission.
Quando esses agentes ampliam sua posição, o mercado tende a ganhar força compradora. Já em momentos de retração, prevalece a pressão vendedora, afetando as cotações independentemente dos fundamentos físicos do produto.
Esse cenário explica por que muitos produtores encontram dificuldades na leitura do mercado. A formação de preços deixa de depender apenas de oferta, demanda e qualidade, passando a incorporar fatores macroeconômicos e fluxos globais de capital.
Ano eleitoral pressiona o câmbio
Em 2026, um componente adicional entra na análise. Dados apresentados pelo analista mostram que, em cinco das últimas seis eleições, o dólar caiu no primeiro semestre. Até abril deste ano, a moeda acumula queda próxima de 8%, seguindo esse padrão histórico.
Esse movimento tende a ampliar a pressão sobre os preços em reais, especialmente quando combinado com diferencial enfraquecido e menor demanda externa.
Decisão vai além do campo
O produtor brasileiro passa a atuar em um ambiente mais desafiador, no qual a comercialização exige planejamento, informação e agilidade. A volatilidade cambial eleva a incerteza, dificulta a formação de preços e demanda acompanhamento constante não apenas da bolsa, mas de todo o cenário macroeconômico.
Ao mesmo tempo, surgem oportunidades estratégicas, seja na escolha entre mercado interno e exportação, seja na captura de momentos favoráveis.
Nesse contexto, a questão central se impõe: o produtor está vendendo café ou, indiretamente, operando no mercado de câmbio? Em um setor cada vez mais influenciado por fatores financeiros, a resposta pode ser determinante para o resultado da safra.


