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Brasil e China discutem inspeção da soja após queda nas negociações

Encontro entre autoridades dos dois países busca alinhar protocolos sanitários em meio à redução da liquidez no mercado

Por Redação* 15/03/2026 10h10
Brasil e China discutem inspeção da soja após queda nas negociações
Queda nas negociações entre os países reduz liquidez no mercado da soja - Foto: Reprodução

Representantes do Brasil e da China devem se reunir ainda em março para discutir os procedimentos de inspeção sanitária da soja brasileira exportada ao país asiático. O encontro ocorre após divergências envolvendo as novas exigências de fiscalização e a suspensão temporária de embarques por parte de tradings.

A delegação brasileira será composta por autoridades da Defesa Agropecuária, do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal e do Departamento de Sanidade Vegetal. O grupo se reunirá com representantes da Administração Geral das Alfândegas da China (GACC) para buscar alinhamento nos protocolos sanitários e nos processos de inspeção.

A discussão ocorre após a suspensão das exportações de soja brasileira para a China pela multinacional Cargill. A empresa alegou dificuldades para cumprir os novos procedimentos de inspeção adotados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, rebateu a justificativa da empresa e afirmou que as mudanças já eram conhecidas pelas tradings e estavam em discussão com antecedência.

Enquanto o impasse não é resolvido, o mercado registra queda na liquidez. Segundo analistas, diversas tradings deixaram de apresentar referências de preços no mercado interno nesta semana, o que reduziu o ritmo de negociações.

De acordo com o estrategista sênior de agricultura da Marex, Eduardo Vanin, apenas cinco navios com soja foram negociados entre Brasil e China ao longo da semana no modelo custo e frete. O volume é considerado baixo e inferior ao registrado durante o período do Ano Novo Lunar, quando historicamente as negociações são reduzidas.

“Se isso se estender, haverá racionamento. Nesta semana, somente cinco navios foram negociados custo e frete China, volume menor do que no feriado do Ano Novo Lunar, que historicamente é perto de zero e neste ano tivemos seis navios negociados. Caso tenhamos mais uma semana assim a situação se complica, Dalian continuará subindo, principalmente o farelo, e haverá inflação para o suinocultor chinês, o que não pode acontecer neste momento porque ele já está perdendo dinheiro”, explica.

Para Matheus Pereira, diretor da Pátria Agronegócios, o principal entrave está na forma como as novas exigências estão sendo conduzidas no Brasil.

“O problema não é a barreira sanitária da China, mas a maneira como o nosso ministério resolveu lidar com as novas exigências, onde se faz necessária a presença do estado para resolver a questão destas cargas com destino para a China, o que gera uma grande dificuldade do estado que é ineficiente em todas as camadas em, realmente, conseguir garantir a nossa fila de embarques de soja brasileira no período mais crucial”, afirma.

A retração no mercado também foi observada por Ginaldo Sousa, diretor-geral do Grupo Labhoro. Segundo ele, além da Cargill, outras empresas reduziram sua atuação nas negociações.

“Não foi só a Cargill. Foi a Olam também, a Amaggi, Dreyfus, a própria Bunge confirmou também que estava fora do mercado, e isso tem uma repecurssão muito ruim de um modo geral. As coisas não fluem, quem tem que entregar soja não está entregando, quem tem que vender não está vendendo, e as consequências vão além do que podemos ver”, afirma.

Apesar do cenário de incerteza, o Brasil mantém volumes elevados de exportação. Até o momento, cerca de 27 milhões de toneladas de soja já foram comprometidas para embarque ao exterior, volume 25% superior ao registrado no mesmo período do ano passado e 44% acima da média dos últimos cinco anos.

O lineup — programação de embarques — se aproxima de 15 milhões de toneladas, considerado um recorde histórico para o período. O volume é 8% maior que o registrado no ano passado e 20% superior à média dos últimos cinco anos.

*Com informações da Notícias Agrícolas