Agro
Guerra no Irã gera altas de preços de fretes no pico de escoamento da safra
Aumento dos gastos com diesel, que representam até 30% dos custos, eleva pressão sobre as margens no campo; cotação do petróleo subiu 27% em uma semana
A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a gerar impactos econômicos que chegam ao campo brasileiro. Um dos reflexos mais imediatos é a alta do preço internacional do petróleo, que pode elevar o custo do diesel justamente no período de maior demanda por transporte rodoviário para o escoamento da safra agrícola.
O cenário preocupa produtores rurais, que já enfrentam redução na rentabilidade devido à queda das cotações dos grãos no mercado internacional. Com o frete e o combustível representando parcela significativa dos custos de produção, qualquer aumento no diesel tende a pressionar ainda mais as margens do setor.
Na sexta-feira (6), o barril do petróleo Brent Crude Oil fechou cotado a US$ 92,69 após acumular alta de cerca de 27% em uma semana marcada pela intensificação do conflito. Caso o preço se aproxime de US$ 100 por barril, o diesel no Brasil pode subir entre R$ 0,40 e R$ 0,70 por litro, segundo estimativa da ValeCard, empresa especializada em gestão de frotas e controle de abastecimento.
De acordo com Marcelo Braga, diretor de Mobilidade e Operações da companhia, a projeção considera um dólar variando entre R$ 5 e R$ 5,50 e a possibilidade de repasse integral da alta do petróleo ao mercado interno. O nível efetivo de reajuste, no entanto, dependerá da política de preços da Petrobras, além de fatores como rotas de transporte, demanda por fretes e tipo de carga.
Diesel já começou a subir
Os primeiros reflexos já aparecem nos postos. Levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostra que, entre os dias 1º e 6 de março, o preço médio do diesel S10 subiu cerca de 1%, equivalente a seis centavos por litro. O combustível passou de R$ 6,09 para R$ 6,15 no período.
Para o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, o aumento preocupa porque o diesel tem peso relevante na estrutura de custos da produção agrícola.
Segundo ele, as despesas com frete e combustíveis representam entre 25% e 30% do custo total no campo.
“Esse percentual corresponde ao gasto para retirar o produto da lavoura e escoar a produção, mas o diesel também é usado dentro da propriedade, no abastecimento das máquinas que realizam a colheita e outras operações”, afirma.
Buffon destaca ainda que o atual cenário é mais complexo porque coincide com pressões em outros insumos importantes. O dirigente afirma que esta pode ser a primeira vez em que produtores terão de lidar simultaneamente com aumento de combustíveis e fertilizantes — especialmente porque o Irã é um fornecedor relevante de ureia ao Brasil.
“Durante a pandemia de covid-19 tivemos aumento do custo dos combustíveis, mas os fertilizantes estavam mais baratos. Agora, dependendo da duração do conflito, cerca de 50% do custo de produção pode ficar comprometido”, diz. Os fertilizantes respondem por cerca de 20% das despesas nas lavouras.
Problemas logísticos agravam cenário
A safra 2025/2026 já vinha enfrentando desafios logísticos antes mesmo da escalada no Oriente Médio. A colheita avançou mais rapidamente que na temporada anterior, o que elevou a demanda por transporte rodoviário logo no início do ano.
Além disso, o período de chuvas intensas na Região Norte dificultou o tráfego de caminhões em trechos importantes de escoamento, especialmente na região de Miritituba, no Pará, um dos principais corredores de acesso aos portos do chamado Arco Norte.
Segundo Thiago Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq, o cenário provocou atrasos e aumento no custo do frete.
“Essa situação resultou em cargas paralisadas, aumento do tempo de espera e necessidade de reajuste nos valores de frete para atrair motoristas e compensar o período ocioso enfrentado na região”, afirma.
Estimativas de pesquisadores do grupo indicam que apenas esse gargalo logístico já elevou o valor do frete para o Arco Norte em cerca de 5%.
Biodiesel também pode pressionar custos
Outro efeito indireto da alta do petróleo pode aparecer no mercado de biodiesel. O combustível renovável é produzido majoritariamente a partir do óleo de soja no Brasil.
Segundo Jerônimo Goergen, presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), o aumento do petróleo tende a impulsionar também o preço do óleo vegetal.
“Óleo de soja mais caro pode se tornar mais um fator de pressão sobre o custo, porque encarece o biodiesel”, afirma.
Ainda assim, ele ressalta que, historicamente, os principais fatores que impactam o custo do transporte continuam sendo o preço do petróleo e a taxa de câmbio.
*Com informações do Globo Rural


