Agro
Qualificação da mão de obra vira desafio central para o agro
Produtores, especialistas e CNA apontam impacto da falta de preparo técnico nos custos, na eficiência e na sucessão rural
A escassez de mão de obra qualificada no agronegócio brasileiro deixou de ser um problema pontual e passou a integrar o núcleo das decisões estratégicas nas propriedades rurais. Mais do que a falta de trabalhadores, o setor enfrenta dificuldades relacionadas à formação técnica, à gestão de pessoas e ao planejamento de longo prazo em um ambiente cada vez mais tecnológico.
Levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com base no Boletim de Mercado de Trabalho do Agronegócio do Cepea, mostra que a população ocupada no agro atingiu 28,58 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2025. O número representa 26,35% do total de empregos do país e é o maior da série histórica iniciada em 2012. Ao mesmo tempo, mais de 87% da população brasileira vive em áreas urbanas, o que reduz o contingente disponível para atividades no campo.
Nesse contexto, a qualificação profissional tornou-se o principal gargalo. Para a analista de Recursos Humanos Jacqueline Lubaski, o problema vai além da quantidade de trabalhadores. “Não é falta de gente apenas, é falta de formação, gestão, sucessão e visão de longo prazo sobre pessoas em nosso seguimento”, afirma. Segundo ela, o avanço tecnológico do agro não foi acompanhado, no mesmo ritmo, pela preparação das equipes.
Impacto direto na produção
Na rotina das propriedades, a falta de preparo técnico já traz reflexos concretos. Em Holambra (SP), a produtora de flores e plantas ornamentais Marisa Granchelli Oude Groeniger relata que a deficiência de mão de obra qualificada interfere diretamente na produção. “Sim, a falta de mão de obra qualificada impacta diretamente a minha rotina”, diz.
De acordo com a produtora, trabalhadores sem formação adequada podem comprometer a qualidade das flores, afetando a satisfação dos clientes e a reputação do negócio. Atrasos em etapas como plantio, colheita e embalagem também reduzem a eficiência e elevam os custos operacionais. “A necessidade constante de supervisionar e corrigir erros acaba consumindo mais tempo e recursos”, relata.
Um problema estrutural
Para Jacqueline Lubaski, o cenário atual é resultado de um processo estrutural. Ela aponta a urbanização acelerada e o envelhecimento da população rural como fatores determinantes. “Hoje, a maioria da população está nas cidades, e o campo deixou de ser visto como um lugar de futuro para os jovens”, observa.
A especialista ressalta que o agro moderno demanda novas competências. “Não quero nem ressaltar baixa escolaridade e sim falta de qualificação para lidar com um agro cada vez mais tecnológico”, afirma. Máquinas sofisticadas, agricultura de precisão e gestão baseada em indicadores exigem profissionais capazes de operar equipamentos e interpretar dados.
Dados citados pela CNA indicam crescimento da participação de trabalhadores com ensino médio e superior no setor, enquanto diminui a presença de pessoas com menor escolaridade, evidenciando a mudança no perfil profissional do campo.
Contratação e retenção
Além da qualificação, produtores enfrentam dificuldades para contratar e manter equipes. Marisa afirma que encontrar trabalhadores dispostos a atuar no campo, com registro em carteira, é um desafio constante. A rotatividade elevada compromete a continuidade das atividades e a qualidade da produção.
Para Lubaski, oferecer apenas uma vaga não é suficiente. “É preciso oferecer propósito, organização e perspectiva de crescimento”, defende. Segundo ela, liderança preparada e gestão estruturada são fundamentais para reduzir a rotatividade e criar vínculo com os trabalhadores.
Tecnologia e capacitação
A modernização do agro é apontada como parte da solução, mas também amplia a necessidade de preparo. A CNA avalia que a mecanização e a automação elevaram a produtividade, ao mesmo tempo em que reduziram a demanda por atividades manuais intensivas, deslocando parte da mão de obra para a agroindústria e serviços ligados ao setor.
“A tecnologia pode ajudar, sim, a reduzir esse apagão de mão de obra, mas ela não resolve sozinha”, afirma Lubaski. Segundo a especialista, investir em equipamentos sem capacitar pessoas pode gerar novos problemas. “Tecnologia sem capacitação vira problema”, alerta.
Ela defende treinamentos contínuos e acessíveis. “Não é sobre linguagem técnica demais, é sobre ensinar o ‘porquê’ antes do ‘como’”, explica. Para ela, quando o trabalhador entende o impacto de sua função, o aprendizado se torna mais eficaz.
Políticas públicas e futuro do campo
A CNA destaca que políticas públicas de inclusão produtiva são essenciais para garantir a permanência no campo. Programas de formação profissional, assistência técnica e incentivo à adoção de tecnologias são considerados estratégicos. O Sistema CNA/Senar atua com cursos técnicos, educação profissional e formação gerencial voltados ao agronegócio.
Para Jacqueline Lubaski, o investimento em pessoas é decisivo. “Treinamento não é custo, é proteção do negócio, é investimento”, afirma. Já Marisa defende que o trabalho rural seja apresentado aos jovens como uma carreira com potencial de crescimento. Segundo ela, o setor é moderno, movimenta bilhões e oferece oportunidades em áreas como administração, comercial e logística.
A CNA também aponta que tornar o campo mais atrativo passa por melhorias em infraestrutura, conectividade, organização das jornadas e valorização profissional. A combinação entre tecnologia, capacitação contínua e liderança preparada é vista como o caminho para sustentar o crescimento do agro brasileiro.
*Com informações da Notícias Agrícolas


