Agro

Juros em queda e clima favorável redesenham investimentos no agro

Sinalização de corte da Selic e avanço da safra criam ambiente de transição no crédito e no planejamento financeiro do setor

Por Redação* 09/02/2026 10h10
Juros em queda e clima favorável redesenham investimentos no agro
Sinalização de queda da Selic começa a alterar planejamento financeiro de produtores rurais - Foto: Ministério da Agricultura e Pecuária

A indicação do Banco Central de que o próximo passo da política monetária será a redução da taxa básica de juros inaugura uma mudança relevante de expectativas para o agronegócio brasileiro. Mesmo com a Selic ainda em nível historicamente elevado, a sinalização de inflexão começa a alterar a percepção de risco, o planejamento das safras e o ritmo dos investimentos em um setor que chega a 2026 com bases produtivas mais consistentes do que em ciclos recentes.

As condições climáticas reforçam esse cenário. De acordo com o Boletim de Monitoramento Agrícola da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), as chuvas registradas em janeiro garantiram níveis adequados de umidade do solo em grande parte do país, favorecendo o desenvolvimento das lavouras de primeira safra. A atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul contribuiu para elevar o armazenamento hídrico e manter índices de vegetação acima da média histórica em áreas estratégicas, segundo análises por satélite.

Apesar de atrasos pontuais no início do plantio e de restrições localizadas provocadas pelo excesso de chuvas em regiões do Centro-Sul, o quadro geral é considerado positivo. No Norte e no Nordeste, a melhor distribuição das precipitações permitiu a retomada do plantio. Já no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, as condições permaneceram majoritariamente favoráveis, oferecendo maior previsibilidade ao ciclo produtivo.

Esse contexto climático dialoga diretamente com o debate monetário. A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) indica que a redução dos juros será gradual e condicionada à consolidação da desinflação e à ancoragem das expectativas, ainda vistas como frágeis. Para o agronegócio, não se trata de uma guinada expansionista imediata, mas de uma transição relevante no uso do capital.

O cenário exige cautela. Em análises recentes, o setor tem destacado que o período prolongado de juros elevados forçou produtores e empresas a revisarem estruturas financeiras, endurecer critérios de crédito e priorizar ganhos de eficiência. “O capital mais caro mudou a forma do agro trabalhar. A sinalização de queda dos juros não muda tudo de uma vez, mas melhora a previsibilidade e permite destravar decisões que estavam represadas, especialmente em custeio bem estruturado e investimentos com retorno claro”, avalia Wolney Arruda, CEO do Plantae Agrocrédito.

A reorganização também é observada na dinâmica da segunda safra. O avanço do plantio do milho acompanha o ritmo da colheita da soja nos principais estados produtores, indicando ajustes no calendário agrícola após um início de ciclo mais irregular. A normalização operacional tende a reduzir perdas de eficiência, fator relevante em um ambiente ainda marcado por custo financeiro elevado.

No setor sucroenergético, a possível inflexão monetária assume caráter estratégico. Além da produção agrícola, a cana-de-açúcar concentra projetos ligados à bioenergia, cogeração e biocombustíveis. Com juros altos, parte desses investimentos foi adiada ou redimensionada. A perspectiva de afrouxamento, ainda que gradual, recoloca esses projetos no radar, embora a queda nos preços dos grãos e do açúcar mantenha um nível elevado de cautela.

“A previsibilidade de receita dos contratos de fornecimento entre produtores rurais e agroindústrias é um fator central para sustentar esse ecossistema, especialmente em uma atividade intensiva em capital. À medida que o custo do dinheiro começa a ceder, projetos de renovação de canaviais, ganhos de eficiência industrial e investimentos em energia voltam a apresentar viabilidade econômica. Ainda assim, a volatilidade e a pressão recente sobre os preços do açúcar e dos grãos mantêm um grau elevado de cautela e funcionam como um freio adicional às decisões de investimento”, observa Henrique Schardong, diretor comercial do Plantae Agrocrédito.

Mesmo com a mudança de expectativa, a estratégia de crédito segue seletiva. O foco permanece na elevação da qualidade das carteiras, na priorização de operações mais seguras e em estruturas ancoradas em contratos, capazes de reduzir riscos sistêmicos. O crédito volta ao campo, mas sob critérios mais rigorosos.

Dessa forma, o agronegócio brasileiro inicia 2026 em um processo de transição silenciosa. O clima contribui, a safra avança com fundamentos técnicos mais robustos e a política monetária começa a sinalizar um novo ciclo. Não se trata de um ambiente de euforia, mas de reorganização, em que decisões passam a ser orientadas por eficiência, retorno ajustado ao risco e investimentos com lógica econômica clara.

*Com informações da Plantae Agrocrédito