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Café vai mudar de gosto? Como a alta nos preços pode afetar o consumidor

Apesar da forte alta no preço do café conilon, indústrias não devem alterar blends; no entanto, aumentos devem ser repassados ao varejo

Por Globo Rural 08/04/2024 09h09
Café vai mudar de gosto? Como a alta nos preços pode afetar o consumidor
Café conilon tem sofrido com forte alta - Foto: ANPr/Divulgação

O mercado do café tem apresentado comportamento bastante dinâmico nas últimas semanas, período em que as altas da variedade arábica, que é a mais produzida no Brasil, vêm sendo assimiladas pela indústria. No entanto, a "firmeza" do preço da variedade conilon, ou robusta, surpreendeu o setor. "O que se viu nos últimos seis dias se via há 34 anos”, diz Celírio Inácio, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic).

No dia 3 de abril, a saca de 60 quilos do café arábica era cotada a R$ 1.106,64, de acordo com levantamento do Cepea. Já o café robusta estava cotado a R$ 1.024,70. Com isso, a diferença entre os dois tipos de café é de pouco mais de R$ 80,00 em algumas praças. Historicamente a diferença de preços entre os dois produtos varia entre R$ 250,00 e R$ 300,00 por saca. “No início do mês de abril o conilon, inclusive, passou o preço do arábica”, comenta Inácio.

Reflexos na indústria

No entanto, segundo o dirigente da Abic, não é provável a mudança na composição dos blends (misturas de variedades) das indústrias. As empresas de café costumam operar com misturas entre 10% e 30% de café conilon ao arábica. Os blends costumam sofrem alteração apenas se a diferença entre os dois cafés estiver acima de R$ 300,00 por saca. “Neste cenário é comum que o industrial teste aumentar o conilon no blend sem comprometer a bebida para satisfazer os preços”, explica.

Hoje em termos de custo não é vantagem escolher um café em detrimento de outro. “A indústria está com a prerrogativa de oferecer o melhor para o consumidor sem escolher por causa de custo”, diz.

Se por um lado, o aumento dos preços do conilon se apresenta como uma vantagem competitiva para o Brasil, uma vez que o mercado internacional encontra no País um produto mais barato que os preços praticados pelo Vietnã, que é o maior produtor mundial deste café, por outro, tem apertado as margens da indústria.

“Independente da formação blend e do nível de estoques das indústrias, e também pelo fato de a matéria prima responder entre 55% a 65% da composição do preço da indústria, a tendência é de repasse das altas para o varejo”, afirma o diretor da Abic.

Fundamento para as altas

O Vietnã, maior produtor mundial está com problemas climáticos e já anunciou que vai colher uma safra menor. “Além disso, por alguma razão as bolsas deixaram de fazer seus estoques. Temos também guerras mundiais, que estão dificultando o transporte internacional, e no Brasil as previsões climáticas indicam que pode haver problemas durante a próxima safra”, resume o executivo.

Nos últimos dez anos o cenário de produção do café conilon mudou muito no mercado. Com isso, antes usado para dar corpo e cafeína ao arábica, nos últimos dois anos, o conilon passou a ser muito bem aceito pela indústria e pelos consumidores. “Já existem conilons finos, com doçura, sabor, aroma. Ele não precisa mais necessariamente ser usado apenas para acrescentar sabor e corpo aos blends. Com isso, o industrial pode ficar mais à vontade”, explica Inácio.

Na avaliação do diretor da Abic, a proximidade de preços entre os dois cafés deve durar pouco tempo. “Os fundamentos que sustentam o arábica também são firmes, com isso o arábica deve registrar novas altas nas próximas semanas”, conclui.