CULTURA

Meu peito é um caminhão de mudança abarrotado com todas as lembranças que você deixou – Jean Albuquerque


Adalberto Souza

25/04/2017 09h47

        O título do livro já me conquistou e me intrigou. Começo a imaginar um caminhão de mudanças deixando tudo empilhado num canto da carroceria manchada de outras mudanças, aquelas tantas coisas esquecidas e que você nem sabia que ainda tinha guardado até que começa a revirar as tantas caixas inúteis de coisas velhas.

         E a minha ansiedade foi plenamente recompensada com a literatura de Meu peito é um caminhão de mudança abarrotado com todas as lembranças que você deixou (Oxente Records – RJ) de Jean Albuquerque. Seu texto é ácido, é ferino, é instigante e é extremamente realístico e dolorido, sem meias verdades (ou meias mentiras?) cada poema é uma lancinante palpitação naquele sentimento que finge adormecer. E dói.

         O autor escreve como se não houvesse outra coisa a ser feita. Usa a poesia para nocautear o leitor e isso é evidente em todas as paginas, seja nas poesias ou ainda numa segunda parte: “ Sou um pugilista bêbado que dança no escuro depois de ter perdido a guarda dos filhos em uma batalha judicial”, composta de prosas poéticas que fluem como um suspiro final na correria desenfreada do despertar de sua poesia e funciona quase como um segundo livro com um título tão bom quanto o do qual está contido.

         “Eu já estou morto faz anos / Este aqui não sou eu / Sou o que sobrou da vida / Senta aqui, passa um café / Vamos ouvir Odair José / Lembrar quanto fomos sacanas um com o outro / A cidade que deixei / E todos ou outros planos que não se concretizaram” A poesia do autor é repleta de referências de uma cultura bastante cotidiana, bares, cantores, situações corriqueiras, outras nem tanto assim, tudo serve para ser transformado em lirismo e isso é uma característica bem marcante em todo seu texto.

Seus temas e seus voos são aqueles que podem ser compartilhados com qualquer leitor, enlaçando-os numa cumplicidade, permitindo uma identificação imediata com a cidade, a música, o palpável da realidade, o possível de ser visto e ouvido bem ali na esquina onde aparece “o travesti fazendo ponto no centro” é um dos grandes trunfos de sua literatura.

Intenso na medida certa, lírico onde tem que ser, consistente e cortante, um livro que não será esquecido tão cedo, um livro que irá fazer lembrar sempre que “a gente tem medo de acabar numa camisa de força”. 

 

Contato: https://www.facebook.com/jean.albuquerque.735944?fref=ts

 



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Domingo é dia de morrer – José Valdemar de Oliveira


Adalberto Souza

17/03/2017 07h02

“ Cada espelho reflete uma fisionomia de minha pessoa. Sempre me busco neles, sem contudo me achar. Se negam a dizer quem sou. Têm medo de mim? Hahahahahahaha. Ou querem insinuar que tenho diversas faces. Será? Hum.” (p.77)

 

         José Valdemar de Oliveira é um escritor vigoroso. Sua literatura é peso pesado num octógono de batalhas ferozes. A raiva, o ódio, rancor e a angústia, distribuídos ao longo dos nove contos dosados na medida certa é um grito desesperado no escuro, daquele que se ouve e não se sabe de onde vem. Seu mais recente livro Domingo é Dia de Morrer (Editora Penalux) é mais uma prova de sua versatilidade.

         Sua ficção é tão passível e verossímil que o estranhamento inicial torna-se algo mais possível e assustador pela possibilidade, pela proximidade (quem sabe um vizinho, um parente, um amigo, em uma situação retratada no livro, vivendo extenuantemente num extremo de suas emoções).

As situações em questão são extremas e exigem atitudes desesperadas e urgentes e o leitor é tomado de assalto, já montando possíveis soluções para algo aparentemente insolúvel. A morte da filha (Minha menininha, p. 61), o sentimento ou a falta dele num garotinho que acaba de perder o pai (Profana inocência, p. 49), mas não perde o casamento do palhaço, sua angústia e sofrimento pelo advindo, são sensações claustrofóbicas e conduzidas de tal forma que praticamente nos sentimos juntos naquela plateia, olhando aquele menino, sentindo sua culpa e ouvindo seu grito.

No conto que dá título ao livro (p 35), Valdemar explora aqueles sentimentos em turbilhão que assaltam o domingo, que acabam culminando numa tempestade contraditória. Algo entre tédio e euforia, uma vontade de ir, ficando ao mesmo tempo. Um sentido perdido de espaço-tédio-tempo, tal qual aquela música que fica martelando incansavelmente o desatino de estar em casa, sozinho num domingo à noite. O autor expõe tudo isso de forma linda e cruel. 

O conto é uma ressaca de tudo e de nada ao mesmo tempo, como o domingo parece ser. Cruel e cortante, cheio de questionamentos e confrontações e também de manter os diálogos internos mais vividos e transbordantes de verdades inventadas, aquela para justificar o que não pode existir. O autor continua afiado do início ao fim, não perde o fôlego e esse conto é para ser lido assim, de um fôlego só. 

Tal como em seus outro livros,  a escrita do autor continua viciante, não dá para largar sem antes saber o que acontece, o fluxo de pensamento em suas personagens é tão intrincado e instigante que já nas primeiras linhas nos sentimos coparticipes com cada uma delas. Ao tratar as vicissitudes e seus desdobramentos, o autor nos faz partilhar também vividamente da vida de cada personagem como se elas estivessem ali, a um braço de distância.

No conto O mensageiro (p. 21), tal como um Gregor Samsa, o cidadão acorda e não sabe mais quem ele é, metamorfoseado em uma coisa inerte e cheia de tentáculos mentais, buscando coisas e situações que possam explicar quem ele poderia ser até a epifania final, onde realmente metamorfoseado, aparece em uma realidade inebriante e totalmente diferente da sua, uma criatura “perfeitamente imperfeita”

Essa é uma das características da literatura do Valdemar, uma urgência em ser e saber e ser tudo logo de uma vez, arrancar de uma vez o esparadrapo que encobre parcamente a ferida escondida, sofregamente pronta para doer.

Onde achar:  https://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=524

 

 



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Gertrude Sabe Tudo – L. Rafael Nolli


Adalberto Souza

09/02/2017 18h35

 

            Um conto para crianças. Uma história de fadas, pós-moderna. Cheia de personagens simpáticos, uma heroína cativante e reviravoltas para lá de interessantes. Onde a preocupação de ser e estar no mundo, funciona como fio condutor para o livro Gertrude Sabe Tudo ( Editora Guliver, 2016), do escritor, poeta e professor Rafael Nolli.

            O livro gira em torno da menina Gertrude, que orgulhosa propaga a quem quiser ouvir que seu nome é de origem germânica e que significa forte no manejo da lança, uma guerreira. Mas segundo sua mãe a origem é bem mais modesta, coisa que a menina não presta muita atenção.

            Ela é uma menina normal, até que os outros (sempre eles) se dão conta de que algo não está da forma que deveria ser. Ela sabe mais do que deveria (como se conhecimento fosse medida estanque para qualquer coisa). Gertrude sabe das peculiaridades dos indivíduos e não tem medo de dizer o que pensa, e aos poucos ela vai sando olhada de soslaio. Seja porque ela sabe mais que os meninos, seja porque ela sabe mais que os adultos. Até que um dia esses mesmos adultos resolvem tomar uma atitude, e é aí que a coisa muda de figura.

            O autor toca em diversas questões para mostrar sentimentos e crueldades, bullying e outras formas de ver e/ou não ver, saber e/ou não saber o outro.   Ele apresenta um livro que deve ser lido pelos pais para os filhos e pelos filhos para os pais. Por professores no trato com seus alunos e por alunos no trato com seus colegas de escola.

            O desenrolar da história da menina que sabia de tudo, deve ser conhecido e principalmente pensado e discutido. Trazer à tona uma reflexão sobre o comportamento dentro e fora de casa.

            Gertrude é um pouco de cada um de nós, com nossas idiossincrasias e tentando ser o que realmente desejamos ser, num mundo cada vez mais estranho. Acredito que a experiência do autor em sala de aula deve ter colaborado muito para o desenrolar da trajetória da menina guerreira.

 

O que: Gertrude sabe tudo - L. Rafael Nolli

Onde: http://gullivereditora.com.br/?product=gertrude-sabe-tudo

 



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Um Silêncio Avassalador - Lucas Barroso


Adalberto Souza

20/01/2017 21h48

A conversa de hoje é sobre segredos, sombras e desejos. A conversa de hoje é sobre tudo aquilo que nos faz calar e perguntar: será?

A conversa de hoje é sobre a ensurdecedora calmaria carregada de curiosidades inconfessáveis e rituais bem poucos discutidos em rodas de amigos.

Com essa curiosidade, me deparei com o novo livro de contos do escritor Lucas Barroso, Um Silêncio Avassalador, que a Editora Moinhos lançou em 2016.

Em sua definição, silêncio é ausência de qualquer ruído, ou ainda, mais idilicamente, sossego, repouso, inação e avassalador significa possuir domínio ou ter poder completo sobre outra coisa ou pessoa. E nada poderia descrever melhor a sensação que fica com a leitura desse livro. Um poderoso silêncio dominador. Aquele que vai fazer pensar por vários dias. Um inquietante sentimento de que sua alma foi escrutinada e desse processo não se pode voltar de mãos vazias.

A escrita bem pensada do autor, sua forma de conduzir as situações levando o leitor ao máximo de curiosidade, como é o caso do impactante conto: “Quando Fui Puta” (p. 20). É o ponto chave do livro. Um apuro linguístico na transposição das falas dos personagens quase dá para ouvir, em sua taciturnidade dominadora, suas falas in loco.

As coisas e situações presentes em todos os contos, assustam e encantam, muito pelo real e também muito pelo imagético de que aquilo pode em algum momento ser possível. Nada é inimaginável dentro desse universo que o autor descreve.

É silêncio, sim. É avassalador, sim. O que Barroso propõe é aquela sensação de vazio que preenche o espaço antes da explosão. O livro é inflamável e cortante. A sensação é de que algo está diferente na ordem das coisas, o autor expõe medos e trata de temas palpáveis em nossos dias. Violência, autopunição, retratação e uma boa dose de perversões, ou seja, nada distante da realidade que vivenciamos.

É disso que o livro trata, do lado obscuro e impactante da alma. Aquele domado por leis próprias e carregados de sombras, prestes a eclodir, escondido atrás de máscaras sociais (policial, professor) mas latentes em desejos inconfessáveis e ilegais ou ainda no surpreendente  “Como um filme de Almodóvar” (p. 79), um singelo e inesperado registro de como a alma humana pode surpreender.

A sensação depois de cada leitura, de cada um desses contos é de uma passagem por uma centrífuga, e isso é bom, cada solavanco é sentido em sua máxima potência. Uma leitura que irá ecoar por um bom tempo. Lucas Barroso é esse tipo de escritor, que irá te acompanhar por muitos dias depois da última página de seu inquietante livro.

Serviço: Um silêncio Avassalador - Lucas Barroso

Onde: http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/



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Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior - Diego Moraes


Adalberto Souza

05/01/2017 20h04

             Alguma coisa acontece quando leio Diego Moraes. Minha atmosfera muda imediatamente, já me vejo num bar enfumaçado com cheiro de mil cigarros já fumados e de decepções esfregadas na cara e bebidas estupidamente geladas em copos de cerveja baratas, no ponto máximo da espera por um outro amor. Sinto como quem “senta num bar vagabundo do Amazonas e entende que poetas são discos empoeirados num sebo entrando em falência. Entende que poetas são barcos naufragando”.

            Em 2016 a Editora Penalux, lançou o livro Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior do escritor Diego Moraes. E mais uma vez a poesia do autor é um brinde aos olhos e a sede desejosa de algo que descreva de forma tão clara as tantas porradas no coração, é poesia pura e completa, lapidada no calor da emoção, naquele mesmo momento em que é sentida.

            O que Diego Moraes faz é traduzir os suspiros arrancados do fundo do bar, aqueles que escondem os maiores sentimentos, traições, amores perdidos, corações estilhaçados e remorsos contidos, e transformar tudo numa primorosa mistura de contos e poemas, onde fica quase palpável a identificação com os temas do livro, aquela mesma identificação que dá ao leitor a sensação de andar “com chiados de uma estação lírica fora de sintonia dentro do peito”.

            O autor consegue impregnar tudo o que escreve com uma realidade lírica que pode ser a de qualquer um. A sensação é de que ele traduz a alma em versos. Os temas do livro vão desde a amada que não foi fiel ou aquela ex-dona de um coração que sangra versos como esse, no final do poema Chuva: “Escrevo agora porque escrevi seu nome no meu último cigarro do maço e fumei lentamente até a chuva passar”.

É identificação direta com o leitor. É como encontrar a tradução do que já não se sabe dizer, encontrar alento nas baladas românticas que tocam à meia-noite, à meia-luz, uma vida inteira de esperas e diálogos internos cheios de intensas vidas, vividas quase que inteira e imediatamente urgente e inquietante, assim como a boa poesia deve ser.

            Moraes constrói cuidadosamente seus versos observando o que está a seu redor. Sua lírica é aquela dos que estão abandonados, dos traídos e dos encontrados na noite. Seus poemas são observações daqueles que ficam por último, que esperam o bar fechar e que tudo se resolva depois que aquela canção terminar ou apenas resta juntar “as moedas do bolso, passar na borboleta da linha do adeus e a saudade embolora de vez o abraço numa fotografia tirada em 1989.” E se nada mais der certo ainda resta a opção de colocar “seus amores para vender no Mercado Livre”.

 

Serviço:

Livro: Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior - Diego Moraes

Onde: http://www.editorapenalux.com.br/loja/product_info.php?products_id=380

 

 

 

 



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O Paraíso de Cada Um – Hamilton Malheiros


Adalberto Souza

22/12/2016 20h13

 

                A arte imita a vida ou a vida imita a arte? E se a arte existe porque a vida não basta, quanto de realidade ou ficção “O Paraíso de cada um” de Hamilton Malheiros (2015) nos mostra?

            Um juiz apaixonado pelo que faz e frequentemente assaltado pelos “fantasmas” julgados por ele. Sendo conduzido pelo seu lado mais humano e agindo de acordo com suas emoções para determinar o que é certo ou errado, qual lado é o da justiça ou o limite entre a crueldade e a indiferença do sistema judiciário?

            O livro é composto por histórias que se entrelaçam e cada personagem surgida na trama tem uma outra função em partes distintas do enredo, tal como o fio condutor dessas tantas histórias que se cruzam. Um tecido elegante de situações.

            O fôlego do autor é considerável e sua forma de encadear as tramas paralelas que entrecruzam o caminho do Juiz Jonas também o é. O interesse vem brotando aos poucos, devido a empatia que o autor cria em cada um de seus protagonistas, e de repente surge aquela dúvida, aquela preocupação “o que terá acontecido a essa personagem? ” E isso é uma constante no livro. As criações do autor são verossímeis e parecem com aquele vizinho, aquele amigo, aquela pessoa conhecida que lembramos/esquecemos frequentemente.

            Culpa, medo, solidão, sentimentos que parecem não fazer parte da rotina visível do protagonista, são frequentes em cada passo dado. A máscara social é muitas vezes suplantada por sua enorme descrença na natureza humana e na capacidade de alguns em cometer barbaridades impostas a outros. Isso apenas é sanado em sua relação com seus familiares. A rotina judiciaria é acachapante (fictícia ou não) e aos poucos mostra toda sua carga nas várias facetas de Jonas Medeiros.

Não tem como não se deixar envolver por Jonas e seu assistente Daniel. Em o Paraíso de Cada Um, a leitura nos faz refletir sobre o cotidiano da magistratura trabalhista. Além disso Hamilton Malheiros demonstra um considerável conhecimento de cinema visto que o livro é recheado de citações a filmes clássicos e contemporâneos, e creio que por esse mesmo motivo o autor não esteja preocupado com o tom politicamente correto em sua trama.

Um desfecho surpreendente e talvez propositadamente urgente em suas várias possibilidades, possibilidades essas que o leitor possivelmente irá se deparar e irá voltar várias vezes a história do Juiz Medeiros para tentar respondê-las.

            Um final silencioso, assim como imagino deve ser a antecedência da caneta no papel de quem detém em suas mãos o destino de tantos outros. A arte imita a vida ou é imitada e limitada por ela? Agora cabe ao leitor responder a essa e as tantas outras perguntas que parecem brotar do livro.

 

Serviço:



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O Ano dos Mortos - Lucas Barroso


Adalberto Souza

08/12/2016 22h49

"Flores, flores para os mortos..."


 

Existe um dia em que os mortos recebem permissão de caminhar entre os vivos. Resolver o que ficou pendente, rever seus parentes e a cidade que lhes viu fenecer. Para a cultura de certos países, esse dia é comemorado com festas e guloseimas, piqueniques em pleno cemitério e danças para saudar a inevitável.

Nesse dia, tradicionalmente, caveiras de açúcar com o nome dos mortos são distribuídas para todos. Guloseimas aguardadas a festa inteira. Pois esses doces só podem ser degustados no dia destinado aos mortos, como forma de respeito e tradição seu feitio e consumo obedece a essa regra. Os mortos só permitem seus doces, no seu dia.

Lucas Barroso transforma o dia em ano, o Ano dos Mortos (Bartlebee, 2016). Agora eles não apenas terão um dia para estar entre os vivos, mas 365 para passear e visitar seus entes queridos ou não. Aqui as guloseimas não são de açúcar, são poemas, que podem ser lidos o ano inteiro.

Transitando entre gêneros, o autor vem do impressionante romance Virose (BARTLEBEE, 2013), e prova que as letras são seu grande trunfo, seja numa estória mais longa, seja na singeleza explosiva de um poema.

Nesse ano, os mortos não se contentam com singelas caveiras adocicadas. Seu alimento será magoa, saudade, desprezo. Num tempo que os viu com fôlego pela última vez. Nesse dia livre da metafisica mortalha que embrulha seus sonos, eles circulam entre os vivos, transmutados em sentimentos esquecidos, guardados e prontos para eclodirem.

Barroso transita por entre mundos, sua escrita vertiginosa torna palpável os pulsares como uma despedida do papel em branco, que não quer mais ser oco de palavras, "as letras correm" pelo papel, correm os olhos, correm as vontades, sem descanso, "trazendo o que ninguém tem", "suspiros suspensos" do que não tem mais volta.

E depois de tudo, dobrar as páginas, cruzar com os mortos, o que resta ao leitor é agradecer "por estar vivo." Por não mais sentir-se só, nesse ano, o dos mortos, Lucas Barroso lhe fará companhia. O livro não acaba quando chega ao fim, as palavras encontram eco em tantas memórias que trazem outras tantas deixando a impressão que o livro acabou de decifrar o leitor.

Mesmo que essas memórias não guardem nada, "apenas rumina e nos cospe fora".

E esse é o grande trunfo do escritor, criar uma sutil intimidade com o leitor. Uma intimidade de indiferenças e medos. As tantas solidões, inventadas ou não, também são as solidões de quem tem coragem de enfrentar os seus próprios sentimentos mortos ou não. E viva o Ano dos Mortos! 

Serviço:

  • Livro: O Ano dos Mortos
  • Ano de publicação: 2016
  • Editora: Bartlebee
  • Contato com o autor: https://www.facebook.com/lucasbarroso

 



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Que tipo de homem escreve uma história de amor?


Adalberto Souza

06/07/2015 07h49

“Te falo de cadeira: largar emprego pra ser escritor é uma bobagem do século XIX. Romantismo decadente. É ridículo. Ninguém mais quer ler livro. Muito menos escrever. É difícil, chato, dói e não serve para nada. Se tava de saco cheio, por que não inventou um programa de aventura ou se candidatou a editor de um programa de esporte?” (p. 15)

Um livro dentro de outro livro, um romance poético ou um livro de poemas em forma de romance. Confesso que quando vi o título do livro de Luciana Pessanha, fiquei intrigado, Que tipo de homem escreve uma história de amor? (Rocco, 2015). É bastante curioso. Afinal sou desses que tem uma extrema curiosidade, sempre quero saber das coisas. 

Atirei-me ao livro com voracidade e em nenhum momento consegui parar de ler. Não sei se gostei da forma cativante do personagem principal, meio bêbado, derrotado, convicto de sua falta de importância, mas mesmo assim confiante de sua veia artística e crente de seu talento literário para escrever o melhor livro já visto ou da intromissão muitas vezes em forma de poemas de um outro personagem que nunca aparece, apenas seus diários são desbravados ou seus telefonemas mais enigmáticos do que esclarecedores que servem para enlouquecer ainda mais o protagonista.

Da extrema angústia e conformismo de Daniel (jornalista recém demitido, em busca de algo para sustentar sua absoluta falta de vontade com tudo que o cerca) a aparição fantasmagórica e providencial de Ana (antiga namorada, sempre presente nas coisas do apartamento emprestado providencialmente ao instável ex-namorado), o livro é um ótimo exercício lírico. Os poemas incidentais são belíssimos, dariam outro livro. Podem ser lidos separados do texto e isso não faria diferença na forma em que eles foram escritos. Frutos dos diários de Ana, de sua busca por sentido e lugar dentro de sua própria vida, acabam servindo de bússola para o romance combalido de Daniel.   

“A vida sempre lá.
Eu indo com as coisas como se não quebrassem.
Vou indo. Já vou.
Não escrevo, não penso, não dói.
Frivolidade tão humana
Instinto de sobrevivência
Quase angustia. Só quase.
Sempre.” (p.56)

Ao longo do livro outras pessoas vão aparecendo e trazendo outros desarranjos ao protagonista. Cria-se uma verdadeira órbita onde eles transitam e destilam suas verdades suspeitas e às vezes mais perturbadoras para o já não tão normal ex-jornalista. Aos trancos, ele vai escrevendo e para sua total falta de ideia para o tal livro que tenta escrever, vai aos poucos se valendo de um subterfúgio não tão ético. E ao longo da escrita o dilema vai num crescendo em proporção igual. 

“O que fazer com o mofo, que cresce do lado de dentro?
Como se evita a morte, ainda no embrião?
Eu, que morro todo dia,
quero perder a consciência.
Quero ganhar a corrida, a aposta, a briga.
Uns minutos de alegra,
Dois ou três, por dia, bem mendiga,
bastaria.” (p.68)

Em um momento da narrativa, Daniel, lança a seguinte pergunta “Quantas camadas de olhar são necessárias para contar uma história?”. Dependendo da trama, para tanto seriam abertas várias portas e em todas elas inúmeras possibilidades para desenrolar o destino de suas personagens. E eles são facetados para criar uma empatia imediata com o leitor. 

Um livro interessante, para ser lido aos poucos, degustando as várias nuances que são apresentadas. Leve, denso e um pouco inquietante, duvido que se você já tentou escrever algo e ficou horas olhando aquele papel em branco sem lhe dizer nada, não se identifique com o Daniel. Uma dica, depois da leitura, volte ao início e leia apenas os poemas, uma experiência interessante.

http://www.rocco.com.br/index.php/livro?cod=2592



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Mesmo Sem Dinheiro Comprei Um Esqueite Novo


Adalberto Souza

11/06/2015 10h40

o que de tudo ficará? literatura?
para que diabos serve a literatura
quando você está feliz e tem amor?
(amar é algo que não se completa)” (p. 12)

E se de repente você fosse envolvido numa onda de poesia? E se numa manobra radical no caminho daquele esqueite novo houvesse um poema? E que tal, mesmo sem dinheiro, empreender uma viagem cheia de pequenas coisas que enchem os olhos de lirismo? Tudo embalado com impressionantes poemas feitos com maestria!


É isso que propõe Paulo Scott no seu livro Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo (Companhia das Letras, 2014). Uma viagem pelas ruas poéticas de uma literatura feita para inquietar e encontrar. Impossível não se perceber nos versos do livro. 
Scott faz um trator polinizar margaridas e faz isso tudo ter sentido. Mas não busque um sentido óbvio, ele vai deixando pistas onde o leitor vai se perdendo e se achando. Seus versos são desconcertantes e ao mesmo tempo trazem um vigor que mostra como a poesia pode dilacerar e restaurar.

“doçura que vai me cariando
as olheiras enquanto as olheiras
viram óculos de nadar” (p.28)

A lírica do autor é poderosa. Sua verve é uma construção, uma lição de como se fazer poesia. E nada escapa desse fazer poético. Sejam “títulos protestados” ou mesmo “advérbios de pequeno corpo”. Em tudo, no mais inusitado que o leitor possa pensar, o autor encontra uma simbiótica relação. E se alguém duvidar ele ainda vai descortinar “cento e dezesseis e uma índia fantasma”. 


Com dinheiro ou sem, com esqueite novo ou velho, Paulo Scott vai fazendo versos como quem brinca com as palavras, como se subordinasse o sentido delas a seu bel prazer. Ele usa a palavra como ofício, seus poemas transmitem essa intimidade que é partilhada com o leitor. 


E isso é uma constante em todo o livro. Não existem altos e baixos, os versos de Scott são bem construídos, é o contrário de alguns livros de poemas que começam bem e vão perdendo o fôlego até se diluírem, os poemas do autor conseguem manter a tensão e o diálogo com o leitor desde o início e, o melhor de tudo, quando fechada a última página fica na boca aquele desejo de querer mais. E com urgência, assim como urgentes são os belos versos desse livro.


“espera-se do poeta que seja pedra
e, sendo pedra, aguarde à mesa até que outros
cansem desse jogo de equipes que é a solidão
até que (sendo invariavelmente pedra)
seja pedra de verdade e algum mais desavisado
venha limpá-lo com água, desinfetante e esfregão” (p. 22)

 

http://www.amazon.com.br/Mesmo-Dinheiro-Comprei-Esqueite-Novo/dp/8535924698/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1434031226&sr=1-1&keywords=paulo+scott

 

 

 



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Aquele inferno que são os outros


Adalberto Souza

28/05/2015 10h16

“Nos raros encontros, inevitáveis, era como assistir a um filme de suspense, de terror, eliminando o som. Ninguém escuta nada, mas sabe-se que a qualquer momento pode acontecer algo inesperado e provocar um tremendo susto.” (p. 31)


O primeiro contato que tive com a literatura de José Waldemar de Oliveira foi através do belo e impressionante Vapor Barato (7Letras, 2006). Uma coletânea onde o autor de forma única discorre em 13 contos as mais variadas situações, envolve seus protagonistas em tramas urdidas para levar o leitor a máxima tensão. Essa mesma forma de escrever, contundente e intensa ele também emprega em seu romance O Inferno São Os Outros. Romance selecionado pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária 2013, de Alagoas, editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Assim mesmo, o autor valendo-se da prerrogativa de Sartre, de que indubitavelmente o outro é sempre o causador dos males que afligem nossa própria vida, de que se não fosse a influência ou interferência dos outros seriamos felizes, o outro, sempre ele, seria o causador do nosso inferno particular.


(...) “sempre lutou com todas as suas forças para suster suas cóleras, seus rancores, suas revoltas, mas agora que uma porta foi abruptamente aberta, a do cadeado mais forte, receia que suas outras neuroses não vão mais se conter, as outras portas se escancararão, e por elas escapulirão todos os fantasmas psicopatas...” (p. 51)

O autor, para contar a história de um protagonista traumatizado pela intensa castração parental, serve-se de uma perturbadora e esquizofrênica sucessão fatídica de tirar o fôlego, traça uma história angustiante onde a morte e o delírio são parceiros bem próximos. 


O livro está dividido entre O inferno e Os outros. A narrativa se desenvolve em grande parte na terceira pessoa, o que dá ao leitor livre acesso a mente perturbada do narrador. E o que sobra dessa intricada e elaborada narrativa que, numa linguagem simples e crua tão presente no livro, leva o leitor a alma atormentada do protagonista traumatizado.

 

“A dor reina em suas vísceras, assola o sistema nervoso, insensibilizando-o. a fúria medonha ainda corre dentro de si. Que ninguém lhe cobre um gesto humano nesse instante. Perdeu a razão, é só um bicho, um bicho selvagem.” (p.88)

Uma criatura que estava “autotrucidando-se” galopantemente, resumindo sua vida em longas caminhadas pela praia, para pensar. Ah! Esse cavalo selvagem em plena disparada que é o pensar desenfreado, a angústia, o medo, a perseguição invisível de mãos pegajosas e infernais. As intensas redes do pensamento levando ao acentuar da loucura. E bem rápido. 

Aos poucos a vida desse ser atormentado vai sendo descortinada, vítima de um pai monstro que trancava os filhos num cubículo que servia de despensa, deixando-os lá, chorando e suando num calor abrasador até quase a exaustão. Com a certeza que quando aquela porta abrisse a surra só não seria pior do que o silêncio e a espera no escuro daquele cubículo. Uma cena angustiante, claustrofobicamente construída pelo autor, certamente para dar aquela impressão de gelar o sentimento, do suor frio da antecipação pelo castigo esperado. O sofrimento compartilhado toma o leitor numa empatia total com os pequenos prisioneiros, feito passarinhos esperando o voo inclemente do predador "frio de sentimentos".

Não espere uma literatura "fofinha" em O Inferno são os Outros, o que o autor escreve é um soco no estômago. Algo que retorce o sentimento do leitor. Cru, verdadeiro, pungente. Cada virada de página traz uma incomoda sensação de algo que de tão real parece estar acontecendo ali do lado. É literatura hardcore. O lirismo cruel do narrador é uma catarse de todas as crueldades sofridas ao longo de uma vida inteira de tortura física e psíquica. Com um final não tão fácil. 

Aventure-se nas entrelinhas do livro. Uma viagem da qual não se volta imune.

“Gritos de horror, de desespero. Ele não escuta. Ele não escuta nada.” (p.193)



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A pele desses nossos desejos


Adalberto Souza

14/05/2015 10h20

Todos nós em algum momento já escutamos: o livro é melhor que o filme. De tanto ser dito isso tornou-se clichê. As nuances, o lirismo, a força dramática das personagens são melhores trabalhadas no papel. No cinema pelo tempo e pela forma de explorar a história, muitas vezes a trama urdida no livro vai sendo diluída até se transformar em outra coisa. Com raras e boas exceções.

Numa dessas noites insones, ainda no tempo da Sessão Coruja, sem nada para ler, entre um zapping e outro, eis que descubro um filme: A Pele do Desejo. Desde o primeiro acorde para os créditos iniciais num crescendo até o belo poema que abre o filme, fui fisgado: 

“Antes de você entrar na minha vida eu acreditava que cada dia seria sempre o mesmo e que seria assim até que eu morresse. Desde que te amei, não me peça para que eu explique, eu só sei que te queria em meus braços de tempos em tempos se você também quisesse. Só pensar que você existe em algum lugar e que você pensa em mim as vezes… me ajuda a viver.”

Pouco tempo depois, descobri que o roteiro era baseado no livro homônimo da escritora, jornalista e feminista francesa Benoîte Groult.  A história de um pescador escocês e uma intelectual francesa, contada por anos a fio. Altos e baixos, despedidas e encontros, o relata de mais de trinta anos da vida dos dois. 

Vidas que separadas seguem caminhos distintos, trabalhos, filhos, conquistas. E que os impossibilita de estarem juntos. E com isso eles seguem separados. O livro trata daqueles sentimentos que nos confrontam e tudo aquilo que em algum momento acreditamos ser diametralmente diferente de nós, o sentimento idealizado que por temor, medo ou preconceitos, terminamos não nos permitindo viver.


O ímpeto da juventude aos poucos dando lugar a vida centrada em outros interesses. Mas a paixão de adolescência sobrevive a tudo. E eles tem apenas uma semana por ano para estarem juntos.

“Eu não pensava em você a anos, mas agora o seu espirito tornava para me despertar. Fui invadida por um profundo sentimento de perda. Seria o presságio do inverno que subitamente tratou de envenenar o fim do verão para mim, ou, a infinita importância que eu costumava representar em sua vida. Você havia se tornado real pra mim novamente depois de todos esses anos como se você estivesse adormecido no meu sangue e agora a solidão me vinha à tona e me tocava com um desejo que tanto me incomodava quanto me entristecia.”

Dos encontros anuais, os embates travados pelas lacunas que os separam são o ponto de maior tensão e também de maior lirismo. Desses primeiros encontros até o último deles, sempre acompanhados de muito drama e impossibilidades eles vão seguindo em frente, juntos/separados. Não existe pieguices no livro, o sentimento é o que é, doce, cruel, implacável, terno, imprevisível e imprescindível. Uma experiência lírica das mais impressionantes. 
A autora consegue trazer a parte mais cruel e intensa de um amor que era para ter acontecido, e por todas as impossibilidades tornou-se algo inacessível. Talvez por isso mesmo tão terno e cruel. O livro é recheado de bons diálogos, a química entre os protagonistas é intensa.  “Uma pequena obra-prima sobre a necessidade do “outro” que criamos em nós mesmos e que só o tempo será capaz de nos dizer o que ela significou.” 

“Ah, meu amor, sejamos verdadeiros Um com o outro! 
Pois o mundo, que parece 
À nossa frente uma paisagem de sonho, 
Tão nova, tão bela, tão variada, 
Em realidade não tem nem luz, nem amor, nem alegria, 
Nem certeza, nem paz, nem qualquer consolação.” 
(Trecho do poema “Dover Beach”, de Matthew Arnold, uma referência nas vozes dos protagonistas)

Por tudo isso A Pele do Desejo, seja em  livro ou filme é uma experiência inesquecível.



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O lugar longe-perto de Sérgio Prado Moura


Adalberto Souza

30/04/2015 08h23

Compreendi naquele dia que não deveria voltar às ruinas, nem mesmo em palavras. Como o mato fez com o cadáver da velha casa, sepultei aquelas lembranças no fundo da memória por quase trinta anos. (PRADO, 2014, p.18)

Sérgio Prado Moura é um escritor fantástico, e não me refiro apenas ao teor de seu belo livro, Apuê, vencedor do Programa de Incentivo à Cultura Literária de 2014, promovido pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Seu grande trunfo é a sua forma de narrar. Em sua escrita os acontecimentos mais corriqueiros se transformam em enigmáticos ganchos para situações mais intensas e imaginativas. E de imaginação o autor entende bem.

Imaginar, no sentido estrito da palavra, significa criar imagens na mente, quadros que dão a ideia imagética das coisas. Os contos do livro são praticamente interposições de quadros que avançam e levam o leitor a criar toda uma estrutura narrativa clara e fílmica, um roteiro de acontecimentos interpostos que seguem a narração límpida do autor.

Prado Moura escreve de forma caudalosa, intensa, depois de passadas algumas páginas não tem como parar. Seu fluxo é constante e ininterrupto, ideias, coisas e situações que avançam e se desdobram e a única vontade é saber logo o que vem na próxima página. Uma vontade de correr até o fim e dar uma olhada, assim como se ninguém visse, e voltar como quem não sabe o que vai acontecer. A leitura de Apuê é intensa e enigmática, como a Estrangeira, personagem que abre o primeiro conto do livro. 

O narrador parece estar ao lado do leitor, numa conversa, em que busca trazer mais mistério a narrativa adentrando em várias falas. E segue tomando um café e lembrando de um velho amigo. Clara intenção de criar uma relação de cumplicidade, o narrador se intromete em várias falas, para explicar ou trazer mais mistério a narrativa. E essa cumplicidade o autor também busca numa clara intertextualidade com o mestre Guimarães Rosa, arma um combate entre Mestre Benedito, co-protagonista do conto Lumes, e o famigerado Hermógenes, junto com seu bando, o grande vilão de Grande Sertão: Veredas.

A unicidade dos seis contos do livro de forma harmoniosa, mesmo cada um com uma temática bastante diversificada, traz coerência ao livro. E cumpre o que promete, leva o leitor em uma viagem cheia de pistas e entrelinhas onde menos explicações permite ao leitor diversas possibilidades interpretativas.

Cada conto ocupa seu próprio lugar no todo narrativo que Apuê apresenta. Talvez de forma proposital a escolha de como os contos de sucedem reforçam o clima fantasmagórico, fantástico. Algumas situações inexplicáveis e intrigantes permeiam o enredo dos contos e isso é o que deixa tudo mais interessante e surpreendente.

E o melhor de tudo é que a escrita do autor faz algumas situações parecerem verossímeis, por mais inacreditáveis que sejam. Sua escrita é solar, mesmo tratando de coisas que de tão absurdas, sombrias, passam a ser minimamente duvidosas e num estalo o leitor pode se perguntar: será? Essa sensação é uma constante em todo o livro. Prova disso é o impressionante cemitério/lixeiro em uma paradisíaca e indeterminada praia, que poderia ser qualquer uma, no conto A Dama do Mar.

Enfim, um convite ao mistério e a fantasia. Apuê significa um lugar longe, mas, aconselho a acompanhar a trajetória de Sergio Prado Moura bem de perto, essa bela estreia promete uma carreira pontuada de intensas estórias que vão ainda trazer muito o que pensar.

“Começou a chover de novo. Uma chuva fina e doce. A terra exalava um cheiro amadeirado e, do mar, vinha na maresia uma fragrância confusa, ora sal, ora perfume. Ventava, e parecia ventar flores, as nuvens estavam alaranjadas, com riscos de rosa. Um raio, outro, trovões em rajada. A chuva engrossou, e muito. Barcos, homens e tudo ao longe sumiram atrás da cortina cinza de agua.” (PRADO, 2014, p.71)

 



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A bulha poética de um certo Canário


Adalberto Souza

19/03/2015 09h02

Vamos falar de poesia. Mas, de uma poesia feita no dia a dia, uma poesia das coisas que nos rodeiam e por conseguinte nos completam. Uma poesia lírica e contumaz. É essa poesia que descobri no livro A Bulha Galinácea e os Escritos Galiformes (Edufal, 2013) de Tainan Costa Canário, com belas e intrigantes ilustrações do artista plástico Pedro Lucena. O livro foi contemplado pelo Programa de Incentivo à Cultura Literária.

Já no título uma estranheza que me fez pensar. O que seria a tal bulha galinácea? E quais seriam os escritos galiformes? Com esse espirito já aguçado, me lancei ao livro, e me surpreendi.
 
É como se em meu peito aportassem
Caravelas trazendo especiarias
Mas é só tua foto
Teu rosto
E a curva da saudade. (p. 67)
 
A poética do autor é simples sem ser simplista, seu alcance é aquela que fica martelando por muitas horas, corroendo, tentando ser compreendida, até a catarse necessária, de entendimento e assimilação. O livro é um daqueles companheiros que você dialoga, se encontra, se entrega sem reservas.
 
“De tão confortável que me sinto
não sei se este ônibus lotado
seis da tarde de segunda-feira
é um navio negreiro sobre rodas
ou um curral com ar condicionado.” (p. 33)
 

A poesia é densa e inquietante, um mergulho num lago plácido e caudaloso, superfície lisa e revolto logo abaixo. Canário, trata as palavras com irreverência e as traveste de um lirismo liberto das convenções. Sua escrita está aí para mostrar que é possível “virar a pele pelo avesso, te cozinhar em banho Maria. Depois vai passar a faca e remover as escamas” (p.15).
 
E não é apenas isso, esse virar do avesso é uma constante na poesia do autor, e não apenas no poema em questão. Seus versos são consistentes e convidativos a uma reflexão mais intensa. Nada fica e nada parece estar ali por acaso. O autor é um artificie em busca daquela palavra ideal que complete sua poética. E aquela palavra encaixada de forma sutil e as vezes enigmática, torna-se uma expressão cativante da obra, quase como uma constante, o uso intenso da palavra.
 
 “É novembro,
eu sei,
muito embora o calendário permaneça
a estática folha de fevereiro
final de carnaval o ano inteiro” (p.43)
 
 
O livro é dividido em duas partes, a Bulha Galinácea sendo a primeira, que intercala poemas com pequenos textos em prosa poética. Já, os Escritos Galiformes, que fecham o livro, são poemas mais breves e por isso mesmo mais urgentes.


 Ah! A Bulha é o som cardíaco, aquele som que o sangue faz ao encher o coração de vida, muito justo ao livro, enchendo páginas e páginas de vida, vibrante e corrente, como toda poesia deveria ser.  Uma leitura intensa, leve, ácida, doce. Recomendo a leitura e a releitura.

 

 

http://www.imprensaoficial.al/loja/index.php?route=product/product&product_id=81

 

 

 

 



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A Intrusa: Uma leitura de Bruno Azevêdo


Adalberto Souza

05/03/2015 09h26

Sempre fui um leitor voraz e feroz. Lia tudo o que me aparecia. Quando faltavam livros, saía em busca de bulas de remédios, bilhetes, capa de discos, algo para aplacar minha vontade de ler.

Numa dessas crises de falta de livros, numa sanha de procurar algo, deparo-me com a coleção escondida de Julias e Sabrinas de minha tia. Não deu outra, até ela descobrir que eu estava surrupiando seus livros, foi uma sucessão de amores desfeitos, descobertas mirabolantes, frases de efeitos e muito, muito romance impossível e reviravoltas vertiginosas para um gran finale feliz. Os tais livros que fizeram a alegria de muitas donzelas e donas de casa entediadas por décadas, tornaram minha leitura mais quente.

Do escândalo que a tia fez ao me ver de posse de seus amados livrinhos - hoje suspeito que era mais por ciúmes de suas preciosas estórias - ficou sempre a ideia do proibido. E isso foi saudosamente esquecido com outros tipos de leituras.

Outro dia me deparei com A Intrusa (Pitomba, 2013), do quadrinhista, músico e escritor maranhense Bruno Azevêdo. Uma releitura dos célebres livros. Nada menos que uma estórias de paixões violentas, clímax exaltados e êxtases delirantes. Uma espécie de tributo e homenagem a esses heróis e heroínas lagrimejantes e fogosos.

 

“Toda a situação era impensável. Tão absurda que só poderia existir como uma surpresa. Não esperava passar por aquilo... mas sou mulher e sei que existem três coisas na cama e na vida que a mulher vai ouvir sempre. Essas três coisas merecem a mesma resposta, com gestos ou palavras rudes ou suaves, que possam expressar descrença, desdém e sobretudo uma velada cumplicidade... a cumplicidade da mulher às mais inesperadas propostas, sem a qual é impossível viver com, para e pelo homem amado.” (p.11)

 

Mas essa releitura de Azevêdo foge do esquema mocinha apaixonada + príncipe garanhão encantado = final feliz, ele vai além, traz em seu livro um elemento que subverte o rumo açucarado dessa tríade. E essa intrusa faz toda a diferença.

Agora o público não é mais a tia dona de casa, e para esse público, Bruno escreve uma estória de amor moderna, sem medo das sensações despertadas pelas palavras. Ele mexe com os sentidos, no sentido literal da coisa. Vai até aquelas pulsões que comandam os desejos, revolve o mais lírico e também o mais sensual das personagens.

Um livro despojado onde o sexo e a volúpia são as forças que comandam as ações dos protagonistas. A tensão sexual muitas vezes é mais intensamente vivida que o próprio ato, fica sempre aquela sensação de desejo circulando entre as páginas.

 

 “Peço desculpas se pareço indelicada logo no início do meu relato. Não sou, em absoluto, uma mulher vulgar... mas não fui eu quem criei essas regras. Só aprendi a conviver com elas, como todas vocês fazem ou aprenderão a fazer. Essas três coisas são “só a cabecinha”, não vou fazer nada com você que você não queira” e “eu te respeito muito”.” (p.11)

 

A mocinha daquelas primeiras revistas, aos poucos deixa aquela inocência e entrega-se sem limites a envolvente e intrigante trama em que de repente é obrigada a viver. Muitos suspiros, muita sensualidade com e sem muita sutileza, uma trama instigante e apimentada, fazem desse livro uma leitura indispensável para quem quer se interessa por uma bela trama, um bom enredo.

O livro em um agradável formato pocket tem ilustrações do quadrinhista carioca Eduardo Arruda, a capa foi feita pelo francês Frédéric Boilet e a tipografia desta é da designer Luiza de Carli, a partir dos antigos títulos de Sabrina. Como um bônus, traz um belo ensaio sobre o romance popular para mulheres “Seios túrgidos e membros intumescidos”.

 

“Se você nunca ouviu uma destas frases, feche este livro. Você existe em um mundo amargo e fantasioso onde não deve haver espaço para o amor. Sendo esta uma história antes de tudo sobre o amor e as formas como este amor pode nos surpreender, a leitura não lhe agradará ou parecerá a narrativa de um universo extravagante e luxurioso ao qual você definitivamente não pertence e sobre o qual nutre opiniões pouco lisonjeiras.” (p.11)

 

Coloca Diana para tocar na vitrola, um abajur lilás, recosta nas almofadas de cetim no sofá com estampa de oncinha, uma batida de maracujá e se entregue aos prazeres da excitante estória de A Intrusa.

 

 

http://ugrapress.webstorelw.com.br/products/a-intrusa

 



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As outras histórias do Tim


Adalberto Souza

19/02/2015 08h04

Sempre gostei de listas. Isso é fato. Pronto, falei. Os melhores do ano, as dez músicas do mês, os melhores livros da década, os melhores discos de todos os tempos, Os melhores filmes da... Enfim, as mais variadas possíveis.

Mas em relação a filmes sempre existe uma constante, um diretor que sempre me intriga por suas ideias e forma de ver a mágica na essência de cada personagens. De sua filmografia, Peixe Grande sempre me impressionou, seja pela maneira de retratar uma história de amor ou como uma fábula lírica que de tão inverossímil se torna crível ou ainda pela empatia de suas personagens tão bem construídas.  O diretor Tim Burton, sempre me proporcionou horas de sonhos e de angústias na sala escura.

“O Menino Ostra sai para passear

E como era noite de Halloween,
O Menino Ostra se fantasiou de ser humano.” (p.123)

Mas saindo um pouco do cinema e enveredando pela literatura Burton escreve um livro "infantil", assim mesmo, entre aspas porque esse é um livro que não se molda em nenhuma classificação: infantil, adulto. Ele cabe onde em for, tem a marca inconfundível do diretor/escritor. O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias (Girafinha, 2007), um livro repleto de histórias apaixonantes.

“O menino de pregos nos olhos

Os problemas ópticos devidos
Aos dois pregos nos olhos do menino
Fizeram sua arvore de alumínio
Ficar meio fora do figurino.” (p.33)

Nesse obra ele apresenta um punhado de criaturas exóticas, como: Menino Palito e Garota Fósforo, Garota Vodu, Breno, o Menino Veneno, O Menino de Pregos nos Olhos, O Bebê Âncora, A Menina Trash, são alguns dos integrantes do fascinante bizarro desfile amparado em belíssimas ilustrações do próprio autor. O tom dos versos é soturno e politicamente incorreto, seus 23 poemas são calcados nas relações afetivas e nos conflitos pessoais.

Os seres que habitam o livro são peculiares e desajustadas, muitos são discriminados, como é o caso do Menino Ostra, personagem do poema que dá título ao livro. O autor conta como uma noite, um encontro, um jantar e um desejo e no nascimento do filho (o desejo realizado) a surpresa, “o começo de todos os pesadelos.” (p.43). E de pesadelo em pesadelo, rejeição, desorientação e desajustamento, o poema vai crescendo até mostrar a rápida e trágica vida do Menino Ostra, nos invadindo com um final surpreendente e indicativo do ciclo inexorável dos acontecimentos.

“Com o doutor a mãe do menino foi se queixar:
“Essa criança não é minha,
Pois cheira a oceano e alga marinha”.” (p.45)

Um livro encantado. Uma leitura rápida não dá a dimensão desses belos poemas. Um livro para ser lido de uma só vez, e de várias vezes aos poucos. Um deguste visual e literário. Se você não tiver pressa e fechar os olhos pode ser que consiga visualizar essas personagens criando vida, numa noite de cinema em casa.

 “O Melão melancólico

Era uma vez um melão melancólico.
Passava o dia inteiro macambuzio,
Querendo a hora do próprio velório.
Ora, cuidado com os teus pedidos!
Pois o dele foi de pronto atendido.
O último som que entrou em seus ouvidos
Foi o “ploft” em que acabou dissolvido.” (p. 104)

http://www.ciadoslivros.com.br/triste-fim-do-pequeno-menino-ostra-o-624238-p183149?origem=buscape&utm_source=buscape&utm_medium=buscape&utm_campaign=buscape

 



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Crimes e mistérios no Silêncio da Chuva


Adalberto Souza

05/02/2015 11h06

Luiz Alfredo Garcia-Roza lança em 1996 o livro O Silêncio da Chuva (Companhia das Letras) com o qual dá início as aventuras do detetive-protagonista Inspetor Espinosa (um pouco de “máquina de pensar”, mas também menos idealizado e mais próximo ao homem real e comum), e seu assistente. Depois desse título inicial surgiram outros: Achados e Perdidos, Vento Sudoeste, Uma Janela em Copacabana, Espinosa sem saída, Na multidão e o recente Um lugar perigoso, dão continuidade às aventuras do inspetor.


Esse livro foi o primeiro escrito policial de Garcia-Roza que, antes desse lançamento, já era um autor consagrado em obras de psicanálise. Com esse livro o autor ganha dois prêmios literários importantes: o Nestlé, em 1996, e o Jabuti, em 1997.


Em O Silêncio da Chuva, o  autor, literalmente dialoga com textos clássicos da literatura policial, uma mensagem roubada poderia desde o início resolver a ação da trama, no entanto ela só é encontrada no final, quando o narrador, fazendo uma conexão explicita com Poe, e seu livro A Carta Roubada, esconde-a num lugar óbvio demais para levantar suspeitas e assim a trama vai seguindo até o encontro da carta e a revelação final, num final não tão revelador assim.
 A saga criada pelo autor faz um apanhado de todas as características peculiares e universais dos heróis do gênero: o tédio, a solidão, a inteligência, a frieza apaixonada, o desencanto consigo mesmo e o encanto com a vida, seu comportamento taciturno e complexo, belas mulheres, bandidos e, é claro, assassinatos, os quais tornam a trama cada vez mais intricada e instigante.


Espinosa assim como Sherlock Holmes, tem um parceiro, um policial mais jovem e ainda sem os vícios da profissão, Welber, esse parceiro auxiliar nas investigações, não lhe serve de narrador nem tampouco lhe serve como amigo ou confidente. É apenas um ajudante apreciado por ele, servindo de ponte entre os mundos que as personagens circulam.


 A história de O Silêncio da Chuva trata da aventura de um homem em busca da verdade oculta, do desvendar de um assassinato, ponto central da narrativa. É a história da procura da solução do mistério, e sendo essa busca uma aventura, uma viagem ao mundo do crime, Espinosa, como bom policial, encontra-se pronto para vivê-la, e como um bom romance policial, a solução final do mistério é apenas uma a mais, e não soluciona tudo aquilo que o leitor gostaria que fosse solucionado e, acima de tudo, não é uma versão inquestionável.


 Um livro cativante e um bom início para essa sega imperdível.


http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10688



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Uma merecida biografia da Sra. Marquesa


Adalberto Souza

22/01/2015 09h40

Nunca houve uma boneca como Emília! Inteligente, mandona, ambiciosa. A célebre boneca de pano foi capaz de casar (por interesse), apenas para se tornar a emplumada Marquesa de Rabicó.

De tantos personagens memoráveis de Monteiro Lobato, aquele que hoje se tornou lugar comum odiar, Emília talvez seja a mais conhecida, e com a onda das biografias, autorizadas ou não, muito presente no meio das celebridades, estava mais que na hora da Marquesa de ganhar esse presente.

Socorro Acioli, preenche essa lacuna com a mais completa obra sobre a boneca,  Emília – Uma biografia não autorizada da Marquesa de Rabicó (Casa da Palavra, 2014).  Biografia, peculiaridades, detalhes históricos, tudo está no livro, fruto de exaustiva pesquisa pela jornalista e doutora em estudos de literatura.

Emília é uma superstar. Amores, intrigas, reviravoltas, fama, fortuna, títulos de nobreza, tudo está em sua biografia. Emília é um personagem que rompe a barreira do livro e parece ter vida própria. Sucesso em vários tipos de mídia, sua caracterização para a tv marcou gerações de crianças. Lembrada em músicas, em filmes, em festinhas de aniversario, Emília é atemporal, “uma das damas mais ilustres dos tempos modernos” (p. 25).

Acioli apresenta uma obra que atinge a criança que vive em cada um de nós. Sua narrativa leva a um passeio por todas aquelas coisas que marcam a infância, aquela sensação de ter vivido plenamente, aquelas lembranças do imaginado possível. Das aventuras, dos encontros com as personagens dos contos de fadas, reformas na natureza e viagens, muitas viagens, pela mitologia, pela filosofia, pelo Reino das Águas Claras.

A bonequinha teve uma vida das mais agitadas, de suas viagens talvez as mais famosas e inusitadas foram para a Lua (onde se torna amiga e confidente de São Jorge) e para o Céu, de onde trouxe um anjo. Tornou-se amiga de muitos famosos, Hércules, Dom Quixote, Alice, Gato de Botas, Branca de Neve, teve um rinoceronte de estimação, ou seja, uma vida para poucos e bons.

Todas as outras personagens parecem coadjuvantes, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastacia, o Visconde de Sabugosa (administrador e responsável pelos bens da boneca, guardados em uma canastra) e o seu famélico e famigerado marido o Sr. Marques de Rabicó, servem para dar vida aos planos e ideias “asneirentas” da biografada. E são muitas as peripécias dessa “senhora” ao longo de seus 95 anos de vida. Sua primeira aparição foi em 1920 e depois disso seu fascínio só cresce.

Mas, não se engane, “é melhor se apresar para ler tudo isso porque Emília, do jeito que é, se descobre que tem uma biografia não autorizada, fará de tudo para tirá-la de circulação. Afinal, para ela, uma biografia deve contar não o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.”

http://www.casadapalavra.com.br/livros/586



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Fantasmas não andam de montanha-russa: uma leitura por Sergio Veleiro


Adalberto Souza

13/01/2015 08h26

"Saltar de paraquedas, ser equilibrista em corda bamba, andar pela beirada do precipício. Ler “Fantasmas não andam de montanha-russa” é exatamente assim, uma experiência para nervos de aço e solidão de sobra. Corpo tenso, coração aos pulos. Quem nunca quis para além do infinito? Quem nunca quis mais e mais porque o pouco que havia já não bastava, já não preenchia o espaço imenso que a vida foi escavando. Me diz.

Não é um livro de passeio. É de mergulho. Não é para pensar, é para sentir. Esqueça todos os velhos conceitos, as teorias desgastadas pelo tempo, elas de nada mais servem nesse momento. Nesse livro o absurdo se instala, o caos nervoso e reparador das lembranças que nos formam aparece. E ele sou eu. E ele somos nós.

“São nos detalhes que me encontro” (pág. 24). Sim, nas pequenas coisas, a trajetória do indizível, o ponto de partida, a linha de chegada. E o que fica no meio entre essas duas extremidades? A certeza das breves palavras que o tempo não apaga e o corpo revela, ou o enigma que desafia o calor da pele (pág. 26).

E o bonde a nove pontos avança, comboio apressado, carruagem de fogo. Por alguém que “domine o meu silêncio e cale a minha boca” (pág. 31). Como ultrapassar isso? Como prosseguir depois de um verso como esse? Volto à casa dos tempos idos, ao quarto dos primeiros sonhos onde conversei com o secreto que ainda existe em mim, quando quis ser adivinhado no mais profundo desejo. O desejo de ser entendido sem nenhuma palavra por testemunha. Só o gesto, o banal gesto, o encostar de braços nas costas, o suspiro perto do ouvido e depois o silêncio. O imenso silêncio do afeto.

Eu senti logo no início da leitura que alguma coisa apontava para esse mergulho. Um verso, uma palavra, uma respiração por entre palavras. Talvez as sensações fugidias, como o cheiro que o fantasma deixa na casa, no corpo, na alma. Sim, esse fantasma, esse espectro, esse estranho (pág. 40), que também me habita, que também me olha no espelho e reflete a estranha confusão do que somos (págs. 54/55).

Caro Adalberto Souza, há em tua escrita um caminho bom a percorrer. Um caminho cheio de atalhos e desfiladeiros. Avanços e recuos. Diante do precipício olho o vazio do que ainda não foi dito, do que ainda não foi escrito, e me perturba o ruído das palavras suspensas, o barulho do silêncio da mágoa antiga que tanto lateja e tanto me envergonha (pág.70).

Saiba que tuas palavras encontraram destino por aqui. Abrigo. Caverna em noite de frio, sombra em dia de sol. E teu livro vai ficar guardado bem perto para uso, para desfrute, para redenção. Muito grato por isso, muito grato por fazer com que ele chegasse aqui onde vivo, onde sou, onde estou. E desatasse alguns nós da velha trama que construí, a que me desafia, a que também não consigo ser (pág. 92), personagens que somos. Fantasmas que somos."

Abraço forte,

Sergio-Veleiro

http://sergioveleiro.wordpress.com/2014/04/13/322/

http://www.buqui.com.br/ebook/fantasmas-nao-andam-de-montanha-russa-521139.html

 



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Baseado em Causos Reais


Adalberto Souza

29/12/2014 09h22

Uma rua, idas e vindas apresadas, pessoas-mundos transitando em suas vidas-casulos. Transbordando silenciosas histórias, prontas para serem lidas-escritas. É isso que propõem o escritor Daniel Viana em seu livro Baseado em Causos Reais (Ed. do Autor; São Paulo, 2014)

“CANÇÃO EM SÓ MAIOR
Me cante uma canção
de aquietar o coração.
quero descansar – ando
cansado de te inventar.” (p. 84)

Um escritor pronto para transformar ao som tec-tecs da máquina de datilografia essas histórias de delicadezas em contos-poesias. Um cartaz anuncia em qualquer rua, em qualquer lugar: " Troco um causo por um conto". E assim começa a intrigante e genial ideia do mineiro Daniel Viana.

“CAFÉ DA MANHÃ
– Mãe, como se chama quando
 a gente ouve uma música e
fica triste de felicidade?
– Saudade.” (p.13)

Rodando algumas cidades do pais, ouvindo as pessoas, transformando-se num escutador, das paisagens, dos cheiros da terra, das palavras ditas e das que ficam no fundo dos olhos. Que ninguém se engane, escutar é muito mais difícil do que parece. As pessoas estão sempre prontas para soltarem suas línguas e falarem, mas, encontrar alguém disposto a parar e escutar e, mais ainda, transformar em arte esse palavrear, não é nada fácil.

Perceber o singelo das histórias desconhecidas, o lirismo e a urgência do cotidiano fez nascer um livro singelo, como a vida nas entrelinhas. Esse desafio, proposto e aceito pelo autor é visto como uma terna e urgente força. Nessa aparente simplicidade toda a força narrativa e a interessante descoberta de que cada vida, se olhada - ou melhor - escutada com sensibilidade ou simplesmente ouvida, resulta em poesia.

“AVALIAÇÃO MÉDICA
– O que você sente?
– Eu sinto muito.” (p. 12)

Uma história aqui, outra ali, um filho que parte, um amor que acaba, uma amada inatingível, histórias que poderiam ser do nossos vizinhos, amigos, inimigos. A poesia é simples e pungente, todo narrador, para tornar ainda mais verossímil a transposição literária da vida, é transformado em Joaquim.
Esse personagem permeia todo o livro. É ele quem vai sofrer as dores do amor, as felicidades das pequenas coisas. Transformar o cotidiano em poesia. Ocupará várias páginas com a leveza e a fúria da existência.

A história do outro universalizada numa obra interessante/interessada. Interessada em compartilhar experiências e dessa forma transformar o mais simples gesto individual em uma vivência de todos.  Daniel enxerga naquela coisa simples a majestade e a intensidade do cotidiano.

“FIM
Era surpresa. Era segredo.
Era amor. Era para sempre.
Era para ser tanta coisa.
Era para ser tanto causo.
Mas acabou. O amor acaba!
Fim.” (p. 65)

Um livro que deixa a impressão que os causos retratados são nossos também. Uma ideia que deveria ser propagada. Escutar e transformar, com sensibilidade.

 



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Fluido Flerte


Adalberto Souza

12/12/2014 08h53

Aqueles sentimentos guardados, aquela sensação de busca que precede a conquista, aquele vazio trazido pela perda do afeto, aquela sensação de não saber o que dizer e dizendo tudo assim mesmo. Um flerte, um jogo de procura e apostas, é isso que Adriano Bitarães Netto propõem no seu Fluido Flerte ( Arte Paubrasil, 2008).

Um fluxo ininterrupto de versos, muitos deles compostos apenas por uma palavra e frases soltas, ditas e desditas logo em seguida. Reflexões repletas da constante observação de quem faz do dia-a-dia matéria de poesia. Todas essas manifestações podem ser encontradas na escrita de Bitarães. Seu livro, dividido em 4 partes (Desassossegos, Fluido Flerte, Sobrescritos e Instantâneos), é um convite ao enveredamento pelas muitas e muitas faces do dito e do não dito.

“Será dia de ser vazio,
de andar no elevador das horas
e de mastigar sozinho...” (p.13)

Das sutilezas da fala e da inconsequência do falar sem pensar, do dizer arrancado de forma tímida e sem graça, da felicidade inebriante e fulgidia, um passeio guiado pelas emoções. Palavras soltas, costuradas aos poucos por versos milimetricamente cortados para dar ao leitor a impressão de uma conversa corriqueira, de um encontro para falar de tudo e de nada, compartilhar experiências.

“Tocos de cigarro,
xícaras de café
e
álcool na garganta
cicatrizam minha alma.” (p. 21)

Um leitura com início onde quiser, pois o livro mantém um diálogo intermitente com o leitor, uma troca de palavras rápida e nervosa, um discurso construído por quem sabe trabalhar a palavra e faz desse seu ofício como uma insaciável busca daquele sentido mais significativo do dizer.
O autor usa a palavra como um risco, cabe ao leitor mergulhar nessa artesania e descobrir sutilmente o que cada palavra desvenda.

“Seja lá o que for,
catar feijão
é compor.” (p. 53)

Um livro de muitas e múltiplas leituras, que permite, como no poema “Relações” (p.45) onde o eu poético diz que “palavras// são assim:// umas gostam,// outras, nem tanto de mim,” ao leitor descobrir o que cada palavra realmente acha do autor. Uma bela e sinuosa viagem poética.


http://www.saraiva.com.br/2630769-fluido-flerte.html?pac_id=25371&utm_source=buscape&utm_medium=comparador&utm_campaign=cpc_Livros-2630769_25371&



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